Modelo de saúde por assinatura aposta em análise de dados e acompanhamento contínuo para prevenir doenças
Com foco na longevidade, plataforma organiza exames e histórico clínico, enquanto desafia princípios clássicos da prática médica
Com o avanço da longevidade, viver mais e melhor virou um dos temas mais quentes da saúde. Da rotina de exercícios à terapia hormonal, passando por suplementos e exames sofisticados, cresce a oferta de soluções que prometem afastar doenças — ou antecipar diagnósticos —, e prolongar a qualidade de vida.
Por trás desse movimento está uma crítica legítima: a medicina tradicional ainda atua, em grande parte, de forma reativa, focada no tratamento de problemas já instalados, e não na prevenção deles.
De olho nessa lacuna, nos Estados Unidos, empresas como a InsideTracker, a Function Health e a Lifeforce oferecem análises frequentes de exames, acompanhamento de biomarcadores e recomendações personalizadas. No Brasil, a startup Centeni acaba de lançar no Brasil uma plataforma de saúde por assinatura com proposta semelhante.
Como o serviço funciona
Na prática, o cliente começa preenchendo um questionário sobre seu histórico de saúde e estilo de vida. Com base nesses dados, a plataforma indica exames laboratoriais e, a partir dos resultados, a pessoa recebe um protocolo com recomendações que vão de ajustes na alimentação e na rotina de exercícios ao uso de medicamentos ou suplementos, quando necessário. Seis meses depois, o processo se repete, ao preço de uma assinatura mensal de 76,40 reais, sem os exames.
Não há nenhum encontro olho no olho entre médico e paciente, nem virtualmente e, muito menos, presencialmente. Dúvidas podem ser tiradas por WhatsApp. André Leite, CEO da Centeni, garante que as recomendações enviadas ao cliente são feitas por uma pessoa, não por um robô.
“A tecnologia entra para ajudar o médico a organizar as informações, com os dados de exames e as respostas do formulário. Mas quem constrói o plano de ação de forma personalizada é um médico do nosso time, seguindo os protocolos clínicos do nosso board”, diz.
Recomendações embasadas na ciência
O ginecologista Renato Bussadori Tomioka, conselheiro médico da plataforma, afirma que o objetivo da Centeni não é empurrar para os clientes produtos sem o respaldo da ciência.
“O termo longevidade ainda é muito carregado de preconceito, talvez porque houve pessoas que se apoderaram dele para vender soluções sem fundamento científico. O que hoje existe na medicina e é comprovado sem esoterismo, sem charlatanismo, é que a gente pode melhorar a qualidade e o tempo de vida com coisas que, na maioria das vezes, são gratuitas. Não estamos falando de hormônio, de peptídeo, de nada sexy”, afirma.
O médico se refere a estratégias conhecidas, mas nem sempre seguidas de forma consistente, como alimentação adequada, prática de atividade física e sono de qualidade, além do controle de fatores de risco metabólicos, como colesterol e glicemia.
A Centeni se apoia no fato de que uma consulta dificilmente consegue integrar todas as dimensões da saúde. “O clínico geral da mulher, muitas vezes é o ginecologista. Como ele vai falar sobre dieta, sono, suplemento, reposição hormonal, implante, polivitamínico e o melhor tipo de atividade física? Tem tantas variáveis que acaba sendo impossível falar de tudo”, pondera Tomioka.
Sem olho no olho
Embora o argumento seja válido, o modelo levanta questionamentos. Como a paciente deve agir diante de possíveis divergências? Uma mulher que já é acompanhada por uma ginecologista e, eventualmente, uma médica de outra especialidade, pode receber orientações divergentes entre o que ouve no consultório e o protocolo que chega pela plataforma.
"Muitas vezes, a opinião da Centeni vai ser diferente da do médico, mas não quer dizer que a gente vai bater de frente. Se for um médico bom, com humildade e honestidade intelectual, ele vai entender que a gente tem um fundamento científico", responde o ginecologista.
Também pode surgir dúvida em relação aos exames de rastreamento. Uma mulher que contrata o serviço ainda precisa marcar consultas periódicas com o ginecologista? Para Tomioka, a proposta da plataforma é assumir esse papel de forma mais integrada. “A ideia é que, sim, a gente seja o preventivo dessa pessoa”, afirma. Segundo ele, a investigação deve ser individualizada a partir do histórico e dos fatores de risco, com uma abordagem que costuma começar por exames de sangue antes de avançar para outros testes.
Sem uma consulta clínica tradicional, a avaliação passa a depender de dados preenchidos pelo próprio usuário e de resultados de exames. Ficam de fora elementos importantes da prática médica, como o exame físico, a observação direta e nuances que surgem na conversa.
Na medicina, há a máxima de que a clínica é soberana. Ou seja, o raciocínio construído a partir da conversa com o paciente, do exame físico e da interpretação contextualizada dos sintomas, é mais importante do que testes isolados. Talvez, em tempos de IA, o clássico se torne obsoleto.









