Psicóloga de modelos sobre os bastidores da carreira: ‘Elas se sentem usadas’
Pressão estética, instabilidade financeira e exposição precoce afetam saúde mental de jovens que vivem da imagem
No imaginário coletivo, a carreira de modelo ainda é muito associada ao glamour. Nos bastidores, no entanto, a realidade não é nem de longe tão cor-de-rosa. Pressão estética elevada à enésima potência, insegurança financeira e sofrimento emocional são rotineiros para a maioria das mulheres da profissão.
Embora nada disso seja novo, as novas gerações estão mais atentas ao impacto dessa dinâmica à saúde mental. A partir de uma demanda das próprias modelos, a Mega Model Brasil, uma das principais agências do país, passou a oferecer acompanhamento psicológico ao seu casting.
O serviço foi estruturado há cerca de dois meses e atende tanto as jovens que vivem na casa da agência quanto aquelas que moram fora. Para as primeiras, os encontros acontecem em grupo, com foco na convivência e nas relações do dia a dia. Para as demais, o serviço é remoto e individual, voltado para as questões de cada uma. Nas sessões, contudo, muitas vezes o assunto desemboca em temas parecidos.
Um deles é a forma como essas jovens — em sua maioria, no início da segunda década de vida — constroem a própria identidade em um ambiente onde a imagem é o ganha-pão.
“Enquanto a maioria das meninas está no anonimato, elas estão com um alvo desse tamanho na testa. Elas estão nas capas das revistas, nos outdoors, nas passarelas. Ser referência de imagem é um fardo muito pesado, porque elas se cobram e precisam disso para se sustentar”, afirma Mariana Fuschini, psicóloga com abordagem em psicanálise, responsável pelos atendimentos.
Fuschini esclarece que o sustento se refere não apenas à esfera financeira, mas à estrutura psíquica também. “A maioria dessas meninas começou muito nova na profissão, então só conhece esse mundo. Elas abdicam de muita coisa pela carreira”, diz.
Na prática, isso se traduz em uma dificuldade constante de separar a avaliação profissional do julgamento pessoal. Uma recusa para participar de um trabalho, por exemplo, pode ser vista como uma derrota individual. Sentimentos de inadequação se manifestam nos atendimentos, nem sempre de forma explícita. “Aparece de uma forma velada, num discurso de ‘eu não sou suficiente’”, aponta a psicóloga.
A pressão surge também por uma percepção recorrente de tempo curto. Enquanto na maioria das profissões a pessoa está no início da carreira ou ainda na fase de aprendizagem aos 20 e poucos anos, as modelos ouvem que é o auge da beleza para elas. A janela para, digamos, dar certo intensifica o senso de urgência e o medo de ser descartada antes dos 30 anos.
Além da pressão interna, há ainda o contexto em que muitas dessas jovens chegam ao mercado. Longe da família e, em diversos casos, vindas de realidades mais vulneráveis, elas passam a lidar com um ambiente novo, competitivo e, nem sempre, acolhedor. Ao chegar em São Paulo, aponta a psicóloga, a maioria se deslumbra, mesmo num contexto de instabilidade financeira.
O cenário forma uma combinação que ajuda a explicar por que, mesmo ocupando um lugar de destaque, essas jovens relatam sensação de fragilidade.
“Elas se sentem usadas, porque não existe almoço grátis. E a gente sabe que tem muitas segundas intenções na aproximação com elas”, afirma Fuschini. “Elas são indefesas, porque a maioria se vê só como um corpo bonito. No fundo, percebo que elas querem ser amadas por quem são.”









