Sexo

Por Lila Silvestre, em colaboração para Marie Claire — São Paulo


Marmita de casal — Foto: Arte: Mayra Martins
Marmita de casal — Foto: Arte: Mayra Martins

Pegar casais nunca esteve nos meus planos. Durante toda a minha vida sexual, que nem muito cedo começou, aos 18, fiquei pulando de namoro sério em namoro sério até os 35 – mas sempre acabava traindo o mozão da vez. Um dia, obviamente, o feitiço viraria contra a feiticeira. E não achei ruim: na verdade, acho que dois não é meu número da sorte; muito menos onde mora o meu desejo. Depois de um ano e meio namorando Caio, terminamos em uma calma relativa. A gente já não queria transar, estava na cara. O papo que cravou o fim do romance não teve rodeio, foi na linha “pois é, acho que viramos meio que irmãos”. Não sei e não quis saber se ele já tinha alguém, mas resolvi puxar a DR porque não tirava Rodrigo da cabeça.

Rodrigo era um tipo que não me chamaria a atenção em circunstâncias normais (sem quatro taças de vinho na cabeça), mas aconteceu de uma amiga apresentar o cara justamente em um dia de ovulação e crise no namoro, durante uma festa em que ninguém mais estava fazendo cerimônia pra beijar na boca.

Depois de contar que trabalhava pintando murais enquanto mexia nos cabelos mais compridos que os meus, Rodrigo foi pegar mais bebida pra gente e me deixou com meus pensamentos, que eram: “Ele tá na minha sem saber que namoro e que, fora isso, nem de artista de cabelo comprido eu gosto”. Quando voltou com as taças, porém, ele provou que não era só um rostinho bonito, mas também uma mente diabólica.

Disse que já tinha me visto em um festival de música e que até chegou em mim, mas não dei moral. Então, que desistiu. Aquela fala direta e desconcertante me fez querer gritar “como assim, desistiu?”. Em coisa de segundos, arrastar aquele homem para um cantinho escuro da festa virou uma meta. E meta dada é meta cumprida.

Depois de uns 20 minutos de pegação com Rodrigo, ponderei que não era legal cruzar muitas fronteiras naquele ambiente. Mais tarde, eu diria pros meus amigos que perdi uma aposta para aquele cara e que nem de artista do cabelo comprido eu gostava, lembraria a todos que era comprometida e juraria que a baguncinha não tinha passado de uns beijos embriagados.

Narrador onisciente: na verdade, fingi que estava chamando meu táxi, me mandei com Rodrigo pra casa dele e transamos por três horas seguidas, num tour pelo apartamento que começou no sofá, passou pra ducha, teve pit stop na pia do banheiro e terminou na cama – com conchinha incluída. O beijo encaixava, os corpos encaixavam, as fantasias se encaixavam. Quando eu pensava que a gente tinha terminado a transa, ele me agarrava por trás sussurrando que queria o que eu quisesse.

Jogar a calcinha pro lado pra ele entrar? Sim senhor. Rebolar bem devagarinho enquanto ele lambia meus mamilos? Pra já. Chupar o dedo dele enquanto cavalgava? Por que não?! Semana que vem podemos repetir? Mas é lógico que sim.

E os encontros escondidos se repetiram por quatro semanas, comigo cada vez mais tensa pensando na melhor forma de disfarçar a situação com Caio e avaliando se me arrependeria de sair do relacionamento por causa de um amor de pica.

Nunca falei sobre esse dilema com Rodrigo. Ele era misterioso e desconversava quando eu fazia piadinhas sobre ele ser um cara desconstruidão e não monogâmico. Depois que decidi, por mim mesma, romper com Caio sem saber o que teria pela frente, contei a novidade a Rodrigo e recebi outra em troca: “Acabei de começar um relacionamento, Lila. Mas ele não é exclusivo. E minha namorada é doida pra te conhecer”.

Senti raiva demais, me senti mirim, mas já que estava ali, na casa dele, resolvi transar gostoso antes de tomar qualquer decisão radical. Já na cama, depois de receber um sexo oral propositalmente mais caprichado, longo e molhado, Rodrigo me perguntou o que eu estava pensando. Meio no impulso, respondi “que quero ver se sua mina é gostosa que nem você”. Ele riu sem modéstia e disse que ela era tão gostosa quanto eu e que ele tinha até um pouco de ciúmes da gente se conhecer.

Marmita de casal — Foto: Arte: Mayra Martins
Marmita de casal — Foto: Arte: Mayra Martins

Errado não estava: quando ele abriu o perfil de Marília no Instagram, dei risada das coincidências ridículas da vida. Além de linda e coxuda, Marília era uma das meninas mais cobiçadas da escola onde eu tinha passado os piores anos de bullying na adolescência. Se eu queria comer a Marília, fazendo uma reparação histórica ou pelo menos tendo uma grande vantagem pra contar aos meus amigos do “terceirão pra vida”? Sim, por favor.

Rodrigo pediu que eu a adicionasse no Insta e garantiu que cuidaria do resto. Eu me deixei viver sem ansiedade até a quinta-feira seguinte, quando ela me mandou uma mensagem: “Oi, Lila! Finalmente ganhei passe livre pra falar contigo. Rodrigo me disse que você gosta de comida árabe. Topa jantar com a gente no sábado?”

Não só topei como senti que, dois dias depois, acabei me arrumando pra Marília. Até decote eu vesti, talvez num delírio um pouco doido de mostrar que ela tinha aquelas pernas todas, mas eu tinha aqueles peitos que servia ao Rodrigo até ele se fartar. Lá chegando, senti que Marília também tinha se arrumado para mim, mas tanta produção durou pouco.

Já na hora de cumprimentar, ela deu um beijo mais perto da minha boca e mais demorado do que o natural em qualquer situação social. Foi tempo suficiente pra sentir que até para escolher perfume ela tinha bom gosto. Quando cheguei perto do Rodrigo planejando o civilizado beijinho no rosto, ele me puxou pra perto com força pela cintura, como sempre, e depois de um tempinho enrolando a língua com a minha, laçou Marília pro primeiro de infinitos beijos triplos.

Foi demorado e me excitou na hora. Durante o beijo, ela acariciava minha nuca com delicadeza enquanto ele roçava a pelve em mim sem rodeios. Eu esperava um jantar tenso e, com sorte, no fim da noite, virar marmita ou sobremesa. Na verdade, o prato principal fui eu.

Enquanto o beijo a três pegava fogo, me veio o pensamento: “Se esse casal é doido, eu sou doida e meia”. Não me fiz de rogada e meti a mão por dentro da calça de Rodrigo, apertando e mexendo forte no pau dele. Mas como sou educada, puxei Marília delicadamente para fazer as honras do oral comigo. Naquela hora, a gente mais se beijou do que fez boquete. Entendi que, pra noite fluir bem, eu precisaria criar conexão e intimidade com ela.

Marília entendeu o recado. Puxou a gente pelas mãos, colocou o Rodrigo na poltrona e me arrastou pro sofá. Ali, a gente deve ter passado uma meia hora se chupando sem pressa de acabar. Na verdade, eu já estava meio esquecida do Rodrigo a essa altura, porque fazia tempo que não transava com mulher – foram duas antes dela, uns cinco anos antes. Rodrigo só entrou no jogo quando Marília pediu mais vinho pra gente.

Em nenhum momento da noite, Rodrigo foi a estrela, como eu esperava que pudesse acontecer em um a três com duas mulheres. Eles faziam questão de me colocar no centro de tudo, e quase gargalhei quando me veio à mente a frustração que senti ao ouvir que ele namorava. Rodrigo comia a gente por turnos: eu pedia, ela pedia, mas nem por um segundo eles me deixaram de lado. Nem quando o sexo acabou, com os passarinhos já cantando, e finalmente comemos o tal rango árabe antes que eu me despedisse.

Fui pra casa com um sorriso ridículo no rosto. A noitada com eles abriu os meus olhos pra outras possibilidades e que estavam passando batidas. Desde o fatídico date com Marília e Rodrigo, há sete meses, repito a dose com eles todo mês, mas também acabei me envolvendo com um casal de meninas e com dois amigos solteiros – esse povo animado – que já me comeram juntos na volta de duas festas diferentes.

Com todos os casais, pode acontecer de novo e pode não acontecer. Eu espero sinceramente que aconteça sempre. De certa forma, entendi que ser a estrela da noite me excita muito mais do que o amorzinho romântico, e coloco essas cartas na mesa quando flerto com duas pessoas ao mesmo tempo. Vira tipo um jogo, com o tom “mas vocês conseguem mesmo cuidar de mim?”.

De todo mundo que topou, o casal que mais gosto ainda é Rodrigo e Marília, mas é um gostar mais ligado à preferência do que ao sofrimento de paixonite. Um gostar sem ter que lidar com DR, com remorso por ter chifrado alguém, sem apresentar pra família ou precisar coordenar agenda com o namorado. É um gostar de “vamos? vamos!”.

Tudo indica que o três é meu real número da sorte, mas, se eu voltar a namorar um dia, pode ser que vire o quatro. Não sei mais se dou conta de trair alguém com uma pessoa só.

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