Sexo
Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)


O que é coreorgasmo e por quê corpo sente tesão ao fazer exercícios físicos — Foto: Getty Images
O que é coreorgasmo e por quê corpo sente tesão ao fazer exercícios físicos — Foto: Getty Images

“Tive um orgasmo nessa máquina”, escreve uma mulher em um grupo que discute sexualidade feminina no Facebook, ao compartilhar a foto de uma cadeira adutora de academia – aquele aparelho que faz as pernas abrirem e fecharem. A confidência inusitada reuniu mais de 300 comentários, entre pessoas que também tiveram um coreorgasmo (ou seja, um orgasmo na academia ou enquanto se exercitavam) – “Tão bom ver que não sou a única” – e outras que jamais passaram por isso – “Esse aparelho só me dá vontade de morrer mesmo.”

O grupo Share Your Sex, que conta com mais de 182 mil membros no Facebook, reuniu relatos em outras postagens sobre o assunto. Em um deles, uma membro pergunta se alguém já tinha tido um orgasmo fora do sexo. “Já tive nadando. Fui pegar impulso e senti algo delicioso.” “Já tive fazendo zumba.” “Já senti fazendo aquele abdominal em pé, levantando as pernas.”

Ter um orgasmo na academia não é bem uma novidade, mas o assunto se espalhou com mais força no boca a boca entre amigas e nas redes sociais. No TikTok, dois vídeos da influenciadora fitness Tasha Braziliano a mostram tendo um coreorgasmo, e somam mais de 36 milhões de visualizações. Nos vídeos, o corpo de Tasha começa a tremer e sua respiração fica ofegante.

Não é que essas mulheres estejam buscando conscientemente gozar enquanto se exercitam. O coreorgasmo é ativado involuntariamente e é uma reação a um conjunto de estímulos que podem ser tão prazerosos quanto o que é sentido no sexo ou na masturbação.

Coreorgasmo: como o corpo consegue ter orgasmo durante exercícios físicos?

Coreorgasmo: como o corpo consegue ter orgasmo durante exercícios físicos?

O que é coreorgasmo

A palavra “core” em coreorgasmo está relacionada ao conjunto de músculos que são movimentados ao exercitar a região do abdômen, o assoalho pélvico e as costas.

"Quando exercitamos esses lugares, aumentamos a circulação do assoalho pélvico e indiretamente contraímos essa área. Isso, somada à fricção da roupa ou do assento do aparelho no clitóris, pode levar a uma incitação ao orgasmo", explica a fisioterapeuta pélvica e rolfista Laura Della Negra.

Além disso, a educadora sexual Isabela Cerqueira diz que a reação está associada à liberação de hormônios durante a atividade física.

"A sensação de bem-estar após a prática de exercícios físicos tem as mesmas causas do orgasmo. Com a liberação de endorfina, há o aumento do fluxo sanguíneo para o cérebro. Isso melhora o humor e proporciona um relaxamento para o corpo e mente."

A educadora sexual afirma que o assunto vem sendo pesquisado há algum tempo, e relacionam a incidência do coreorgasmo a atividades como abdominais, ciclismo, levantamento de peso e ioga; além de outras modalidades que estimulem lombar, quadril, pelve e abdômen. A intensidade do exercício e o nível de sensibilidade física de cada pessoa também entram nesta equação.

O que a ciência diz sobre coreorgasmo

A primeira vez que a palavra coreorgasmo foi incluída na literatura científica foi em 1953, quando o especialista sexual Alfred Kinsey descreveu essa experiência em seu livro Sexual Behaviour in the Human Female (O comportamento sexual nas mulheres fêmeas, em tradução livre).

“Alguns meninos e meninas reagem ao ponto de ter um orgasmo quando escalam um poste ou uma corda”, diz um dos trechos do livro. Ao mesmo tempo, ele afirma que algumas das crianças e jovens observados por ele “praticam exercícios com a intenção deliberada de garantir esse tipo de satisfação.”

O tema só voltou a ser pesquisado em 2011 pela Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. A cientista e educadora sexual Debby Herbenick estudou as experiências de 370 mulheres que afirmam terem gozado ao se exercitar. Ela descobriu que 33% de fato chegaram ao orgasmo.

O estudo de Herbenick também foi o primeiro a evidenciar cientificamente que mulheres podem gozar em outros contextos que não em uma transa. A pesquisadora se tornou uma referência importante no assunto – tanto que, em 2015, publicou o livro The Coregasm Workout: The Revolutionary Method for Better Sex Through Exercise (O treino coregasmo: o método revolucionário para um sexo melhor por meio de exercícios, em tradução livre), em que indica exercícios capazes de tornar a vida sexual mais satisfatória.

Os dados, no entanto, ainda são escassos – como tudo ao que se refere os estudos sobre os corpos de mulheres e pessoas com vulva. Parte disso, segundo Della Negra, está no fato de isso ser pouco falado entre as mulheres. "Muita gente tem vergonha de tocar no assunto", diz. A médica pensa que quanto mais visibilidade o assunto tiver, mais dados podem surgir e mais as mulheres ficarão confortáveis em falar que tiveram um orgasmo enquanto treinavam.

Mesmo sem orgasmo, exercícios físicos dão boost em vida sexual

Não é uma garantia que você terá orgasmos toda vez em que for para a academia, mas outro incentivador para não pular o dia de treino é o seguinte: exercícios físicos são verdadeiros estimuladores sexuais, e podem fazer maravilhas para a vida sexual. Ou seja: mesmo que você não goze na hora, vai gozar mais e melhor depois.

É a ciência quem diz. Um estudo realizado pela Universidade de Florença e publicado em 2021 no The Journal of Sexual Medicine demonstra que mulheres que se exercitam por pelo menos seis horas na semana têm mais disposição sexual e menos resistência nas artérias do clitóris, em comparação às que não fazem nenhum tipo de exercício físico. O estudo também encontrou um aumento significativo nos níveis de desejo, excitação, lubrificação e, consequentemente, de orgasmos.

Della Negra explica que isso acontece porque exercícios físicos, sobretudo os que mexem o core, fortalecem indiretamente a musculatura associada ao assoalho pélvico. Isso acontece quando o foco do exercício é nos músculos do abdômen, de conexões ligadas às costas e à lombar ou no bumbum. "Com mais musculatura nesses lugares, há mais mobilidade; além de força, que aumenta a circulação sanguínea. Com mais sangue na região, as chances de uma melhora na excitação e na parte sexual pode ser bem grande.”

Isabela Cerqueira também pontua o aumento do nível de energia e no bem-estar geral, que impactam a libido. “O exercício pode ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade, fatores que muitas vezes afetam negativamente o desejo sexual. Aumentar a força e a resistência dos músculos também pode melhorar a consciência corporal e a confiança, ambos importantes para uma vida sexual satisfatória. Portanto, manter uma rotina de exercícios pode contribuir significativamente para uma vida sexual mais saudável e prazerosa", diz a educadora sexual.

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