O que pode ser dor no clitóris? É normal sentir durante o sexo, menopausa e pós-parto?
Ginecologistas falam a Marie Claire sobre possíveis causas relacionadas a dor no clitóris, cuidados e tratamentos
O clitóris é um órgão sexual que existe apenas para uma função: proporcionar prazer. Afinal, projeções indicam que podem existir de 8 mil a 10 mil terminações nervosas só ali, o que o deixa mais sensível e, se estimulado, pode levar a orgasmos muito gostosos. Justamente por isso, já dá para notar que as palavras “dor” e “clitóris” não combinam na mesma frase. Pelo contrário: a dor no clitóris é um indicativo de que algo não vai bem e deve ser investigado por especialistas.
Marie Claire tirou as principais dúvidas sobre dor no clitóris com os ginecologistas Camila Silveira de Souza e Igor Padovesi, desde causas e sintomas até as opções de tratamento disponíveis para resolver a questão.
Antes de seguirmos em frente, um aviso: este texto deve ser um guia para ajudar você a entender os possíveis motivos pelo qual a dor no clitóris pode aparecer. Não o use como uma maneira de autodiagnóstico. Procure seu especialista de confiança para analisar o quadro e propor soluções cabíveis.
O que pode causar dor no clitóris?
Souza destaca que existem diversas condições que podem levar à dor no clitóris:
- Vaginismo: contrações involuntárias dos músculos vaginais
- Dispareunia: dor durante a relação sexual que pode irradiar para o clitóris.
- Infecções vaginais: candidíase, vaginose bacteriana ou herpes genital
- Clitoromegalia: aumento anormal do clitóris, que pode ocorrer por desequilíbrios hormonais ou uso de medicamentos
- Neuropatia: irritação ou compressão dos nervos que inervam o clitóris e pode causar dor crônica.
- Lesões físicas: trauma ou lesões locais (como acidentes, uso de roupas muito apertadas e masturbação excessiva, por exemplo)
- Endometriose: embora mais comum no útero e nas trompas, a dor pode irradiar para o clitóris.
Padovesi afirma que as incidências de dor no clitóris são muito raras. No consultório, o ginecologista observa que a queixa mais frequente de pacientes é o acúmulo de sebo no prepúcio do clitóris – ou seja, a pele que cobre o órgão. “O clitóris deve ser puxado levemente para ficar limpo, e é comum que mulheres não tenham esse hábito, o que acumula uma secreção que, ao longo do tempo, pode formar cristais e, eventualmente, causar dor”, ele explica.
O médico acrescenta que existem outras causas igualmente raras que podem desencadear desconforto e dor no clitóris, como síndromes neurológicas (esclerose múltipla, síndrome de Guillain-Barré e algumas síndromes de dor vulvar, como a vulvodínia), líquens (doença autoimune que causa alterações e atrofia na pele) e priapismo do clitóris (quando o órgão fica ereto de forma involuntária e permanente). Ele também chama atenção para o uso excessivo de hormônios anabolizantes, que interferem na circulação sanguínea da região.
Outros sintomas
Souza destaca que existem outros sintomas que indicam que a dor no clitóris é séria e precisa ser investigada. Alguns exemplos são:
- Inchaço ou vermelhidão na região
- Secreção anormal (corrimento vaginal ou secreções com cheiro forte ou incomum)
- Coceira ou ardência constante
- Alterações no prazer sexual
- Febre ou mal-estar (principalmente em casos de infecção)
É normal ter dor no clitóris durante o sexo?
A resposta é não. Sentir qualquer dor durante o sexo – seja no clitóris, na vulva, vagina, pênis ou ânus – é um grande indicativo de que algo está fora do lugar.
No caso de mulheres e demais pessoas com vulva, Souza explica que a dor no clitóris durante o sexo pode indicar:
- Falta de lubrificação
- Infecções ou irritações
- Dispareunia
- Tensão muscular na região pélvica estiverem tensos
Dor no clitóris na menopausa
Souza e Padovesi explicam que a dor no clitóris pode aparecer durante a menopausa e pós-menopausa. “Isso porque a produção de estrogênio diminui e leva ao ressecamento vaginal e à atrofia genital, o que pode tornar a região mais sensível e dolorosa”, afirma Souza.
Contudo, Padovesi afirma que pode existir dor na vulva inteira, além de irritação, coceira, ardência e síndrome geniturinária da menopausa (SGM). “Tudo isso acontece devido a falta dos hormônios, que ainda afinam as estruturas e fragilizam mais a superfície da pele e da mucosa da vulva.”
Souza aponta que a reposição hormonal pode ser um dos caminhos para conseguir aliviar as dores causadas pelo ressecamento vaginal. Além disso, ela recomenda muito o uso de lubrificantes e hidratantes vaginais.
Padovesi acrescenta que atualmente também estão disponíveis tratamentos como laser e radiofrequência, sobretudo nos casos em que há disfunções no trato urinário, como a SGM.
Dor no clitóris no pós-parto
Souza afirma que a dor no clitóris no pós-parto também é comum e pode acontecer devido a alterações hormonais, trauma físico e processo de cicatrização de lacerações e fissuras em parto normal. “Além disso, o cansaço e o estresse emocional podem impactar a libido e aumentar a percepção de dor”, ela explica. Padovesi pontua que essas alterações são temporárias e tendem a parar depois da recuperação do parto e da cicatrização.
Tratamentos para dor no clitóris
Souza afirma que existem diversos tratamentos capazes de ajudar a amenizar e curar a dor no clitóris – a chave está em tratar a causa do problema.
No caso de infecções, são usados antibióticos e antifúngicos; e analgésicos podem ser prescritos para amenizar dores mais agudas.
Quando a dor tem alguma relação com tensão muscular ou o assoalho pélvico, pacientes podem ser encaminhadas para sessões de fisioterapia pélvica. Em todos os casos, uso de hidratantes vaginais e lubrificantes podem ser aliados durante o tratamento em casos de secura vaginal (como no caso de pessoas na menopausa).
Padovesi indica que uma das principais chaves para acabar com a dor no clitóris é a higiene correta. Nos raros casos de líquen, corticoides podem ser incluídos no tratamento.
Souza explica que os casos em que é preciso cirurgia são raros e estão relacionados a lesões permanentes, crescimento anormal do clitóris ou condições mais graves. Padovesi acrescenta que a clitoroplastia (o nome dado à cirurgia) pode ser uma opção quando existe uma hipertrofia no clitóris que cause incômodo.
Tempo de recuperação
Com o tratamento adequado, Souza afirma que a dor no clitóris pode melhorar, sim, mas pode voltar se a causa subjacente não for bem tratada; ou ainda se infecções, tensões musculares e alterações hormonais acontecerem novamente.
A ginecologista explica que o tempo de recuperação também varia, a depender do caso:
- Infecções: 7 a 14 dias, com o tratamento adequado
- Secura vaginal: semanas, com o uso de lubrificantes ou terapias hormonais.
- Tensão muscular: 4 a 6 semanas, já que o tratamento com fisioterapia é mais prolongado
- Cirurgia: o tempo de recuperação é mais longo e varia para cada pessoa, mas a dor tende a diminuir depois da cicatrização









