Coaches de ‘sentada’ viralizam nas redes com tutoriais e cursos para ‘desbloquear’ prazer feminino
Influencers cativam milhões de seguidores com vídeos que mostram o passo a passo dos movimentos pélvicos necessários para ‘sentar’ e ‘tesourar’ com gosto no sexo
Um novo nicho de criadoras de conteúdo tem se destacado nas redes sociais: as coaches de “sentada”. São mulheres que compartilham técnicas e ensinam os movimentos pélvicos específicos para aprimorar os movimentos no sexo. Algo que antes era visto como um tabu está se tornando viral e ajudando mulheres a desbloquear novas formas de prazer.
Entre essas influenciadoras brasileiras, destacam-se nomes como Gisele Palma, Andrezza Cocchiarella e Beatriz Rangel, que acumulam milhares de seguidoras sedentas para se sentirem poderosas em suas transas.
Nos últimos anos, mulheres têm reivindicado o controle sobre a “sentada”, seja por meio das músicas que as colocam como protagonistas do ato ou ao desafiar a ideia de que devem se mover apenas para agradar sua parceria na cama. Isso fica evidente especialmente em relacionamentos heterossexuais, onde, historicamente, o prazer tem sido centrado no homem.
Além dos conteúdos gratuitos das redes sociais, elas oferecem aulas de “sentada” por preços que chegam a R$294,00, segundo apurado por Marie Claire. E não pense que os conteúdos são limitados apenas para mulheres heterossexuais, pois, também existe coach de “tesourinha” — que consiste em roçar as vulvas de pernas abertas, como se fossem duas tesouras. Elas utilizam de suas áreas de formação, da dança e da ginástica para ensinar com precisão os movimentos.
“Abordo diversas pautas relevantes para a lesbianidade. Viralizei depois de um vídeo em que descomplico a famosa tesourinha, justamente por desmistificar os tabus e os mistérios envolvidos nessa prática”, explica Gisele Palma (@_giselepalma), que conta com mais de 500 mil seguidores unindo seus perfis do Instagram e TikTok.
A influenciadora lésbica enxergou uma lacuna na produção de conteúdo sobre a sexualidade de mulheres sáficas (ou seja, que se relacionam com mulheres), o que a motivou a começar a produzir. Seu vídeo com mais de 1 milhão de visualizações (um dos de maior alcance) mostra quatro tipos de reboladas para fazer na tesourinha. Gisele demonstra os movimentos de onda, circular, de baixo para cima e tremidinha — em cima da cama.
A forma de comunicar sobre o assunto é o que atrai as seguidoras. Os vídeos de Gisele são bem práticos, com linguagem direta — até onde as diretrizes do Instagram e Tik Tok permitem — e conseguem transformar um tabu em conteúdo divertido, acessível e educativo.
“Alguém me falava: ‘Quero aprender o movimento de galopada, mas não me sinto bem, não consigo ficar na posição com as pernas abertas’. Nesse momento surgia a inspiração para gravar um vídeo mostrando um exercício que poderia ajudar a destravar essa posição”, conta Andrezza Cocchiarella (@conselhosdeafroditeoficial), influencer e fisioterapeuta que coleciona quase 600 mil seguidores no Instagram.
As mulheres querem aprender de forma descontraída e quebrar o sentimento de vergonha ao praticar os movimentos sozinhas em casa para “treinar” a pélvis e melhorar a desenvoltura na hora H.
Os conteúdos de Beatriz Rangel (@bearangel) seguem esse formato. O sucesso foi tanto que a criadora conta com mais de 6 milhões de seguidores, somando o Instagram e o TikTok. Nos conteúdos, ela ensinamovimentos como “chave de perna”, “borboleta paraguaia” e formas de “sentar” sem se cansar tão fácil.
Formada em psicologia e pós-graduada em sexualidade humana, Bea, como é chamada por seus seguidores, conta com mais de 70 mil alunas em seus cursos de “Treinamento de Sentada”, que já está em sua quinta edição. O pacote de aulas completo sai por R$ 294,00.
Ela afirma que aprender os vários tipos de movimentações que ensina nos vídeos e curso é só a linha de chegada. “O meio do caminho é a minha parte preferida, pois é onde a mulher se sente poderosa na hora do sexo e para de se esconder na própria sexualidade”, explica Beatriz em um vídeo de apresentação de um de seus cursos na internet.
Como são as aulas de “sentada”?
Nas aulas, as coaches de “sentada” ensinam como destravar o quadril, dissociar os movimentos dessa região do restante do corpo e desenvolver coordenação. “É como aprender a andar de bicicleta: é preciso começar do básico. Não adianta simplesmente dizer: ‘Agora você vai quicar’ ou ‘Agora você vai sentar’. São processos”, enfatiza Andrezza. “Ensino nos meus cursos desde o que o seu pé vai fazer, como movimentar o quadril, quando você tem que contrair o abdômen… É tudo bem explicadinho”, conta.
O mesmo acontece com Gisele, que tem o primeiro e único curso do Brasil, sobre descomplicar a tesourinha. “Muita gente não sabe, mas a tesourinha é um tipo de sexo e não só uma posição”, conta.
No curso, Descomplicando a Tesourinha, Gisele ensina mais de 30 posições de tesourinha, com demonstrações feitas por ela e mais três modelos e cobra R$267 pelo pacote de aulas.
“Ensino tudo o que a mulher precisa saber para tesourar bem gostoso, seja ela um caminhão com vários quilômetros rodados ou uma ‘girina’ — que ainda está começando a se conhecer”, conta Gisele.
As aulas seguem um cronograma estruturado, com treinos progressivos. Gisele revela que as dificuldades das alunas vão desde “como encaixar na tesourinha quando as duas são gordinhas” ou “ como gozar roçando”.
Já Andrezza afirma que as maiores dificuldades das suas alunas são como destravar o quadril e como colocar em prática em cima da pessoa. Outra dificuldade é como focar no próprio prazer e não apenas na performance ou no impacto visual que a parceria vai ter no momento.
“Acredito que tudo que fazemos priorizando o nosso prazer se torna mais autêntico e, naturalmente, mais envolvente para o outro”, aponta Andrezza. O importante aqui é se sentir confortável, confiante e conectada com o próprio corpo. É papo de vestir a “energia de gostosa”, como diz o hit do Carnaval de Ivete Sangalo. “Quando estamos nesse mood, surpreender o outro acaba sendo pura consequência”, completa.
Hate e desafios das redes sociais
Apesar do sucesso dos conteúdos, as coaches também são alvos de comentários preconceituosos que tentam descredibilizar o trabalho. “É algo comum. Atacam minha idade, meu corpo, meu nível intelectual. Perguntam se tenho diploma, dizem que estou gorda, por isso a bunda balança tanto. São comentários que nunca vejo em páginas de homens que ensinam outros tipos de exercícios”, desabafa Andrezza.
“Sou uma lésbica ajudando mulheres a serem livres, safadas e criativas com outras mulheres. E não tem algo que o patriarcado odeie mais do que ver mulheres se amando. Mas enquanto eu estiver inspirando ‘sapatonas’ a serem ‘safadonas’, ignorarei feliz esse pessoal amargurado”, reforça Gisele.
Além disso, outra grande vilã são as diretrizes das plataformas de redes sociais que não pegam leve com conteúdos voltados à sexualidade.
Para tentar driblar isso, Gisele desenvolveu um dialeto para burlar o algoritmo, ao inverter as sílabas de palavras que as redes costumam barrar “Assim criei o ‘xoSe’, ‘tãoSapa’, ‘parChu’, ‘traçãoPene’, entre outras. Como mudar isso não está no meu alcance, escolho me adaptar dentro do possível para que nenhum vídeo caia”, conta.
Recepção dos conteúdos nas redes sociais
O impacto dos ensinamentos é medido pelos milhares de views e interações com os vídeos, além dos feedbacks de alunas que contam que engravidaram depois do curso e até mesmo de mulheres que passaram a ter mais motivação em outros aspectos da vida.
“Tem mulheres de mais de 40 anos que me contam que tiveram o primeiro orgasmo depois de começar a praticar os movimentos em casa. Saber que estou transformando a vida sexual de alguém com meu conteúdo é muito gratificante”, conta Andrezza.
Gisele enxerga que vem construindo uma comunidade muito engajada durante os seus cinco anos de produção de conteúdo.
“Rola muita identificação. As mulheres entram no meu perfil e se veem nele”, conta. A influenciadora faz parte de uma legião de mulheres sáficas que cresceram nos anos 1990 e 2000 com poucos referenciais de como é se relacionar sexualmente com outra mulher. “Fico muito feliz em poder ser uma voz para guiar essas mulheres a entender que é possível fazer a tesourinha e ter muito prazer tanto para ela, quanto para suas parcerias”, finaliza Gisele.









