Como funciona o lubrificante à base de maconha? Marie Claire testou e conta tudo: ‘Fez meu corpo tremer’
Editora e repórter da redação experimentaram estimulante produzido no Uruguai; criadora dá detalhes sobre o lubrificante e explica porque você deve dar uma chance
A relação entre maconha e prazer sexual não é necessariamente nova. O astrônomo Carl Sagan, em 1971, escreveu num artigo que não só sentia mais tesão ao fumar a erva como tinha o que chamou de “sensibilidade requintada”. Ao longo dos anos, pesquisas passaram a ser realizadas no mundo todo para descobrir, de fato, quais são os benefícios da cannabis no sexo e colocaram a composição no mercado de bem-estar sexual. Dentro desse rol, o lubrificante à base de maconha se tornou cobiçadíssimo e alvo de muita curiosidade.
Lançado pela primeira vez na década passada, o lubrificante de maconha promete aumentar a sensibilidade do clitóris, vulva e vagina, levando a orgasmos mais intensos e fáceis de chegar; além de poder diminuir desconfortos durante o sexo, principalmente na penetração.
Na América Latina, a brasileira Debora Mello é pioneira nesse ramo: em 2017, ela criou o Xapa Xana, projeto artístico estabelecido no Uruguai que produz e distribui lubrificantes à base de cannabis e fanzines educativos com ilustrações latino-americanas ou fotos, bula e composição e informações sobre empoderamento sexual.
"Essa mistura é o diferencial. No fim, o futuro da intimidade não é só sobre produtos ou tendências, mas sobre nos conectarmos com nosso próprio corpo", diz Mello para Marie Claire.
Disponibilizado a partir de R$ 90 pela Galeria Lúdica, da qual é dona, o Xapa Xana está em fase de investimentos e industrialização, e, no Uruguai, onde a maconha é legalizada desde 2013, é possível comprá-lo com receita médica. Mas as hermanas brasileiras já conseguem viver o tour completo, já que o produto pode ser enviado ao Brasil e outros países latino-americanos.
Uma repórter e uma editora de Marie Claire testaram o lubrificante à base de cannabis. Mais a frente nesta matéria, elas contam exatamente como testaram e qual foi o veredicto: afinal, para elas vale a pena ou não vale? Mas antes de entrar no que pensamos sobre o lub, vamos esmiuçar o que, de fato, é o Xapa Xana, como pode ser usado e o que explica a mística por trás dele.
O que está por trás da ação de um lubrificante à base de maconha?
A composição do Xapa Xana leva um destilado de cannabis sativa full spectrum, óleo de coco e menos de 1% de THC. A fórmula é totalmente vegana, orgânica e livre de aditivos químicos. O lubrificante não é testado em animais e, por ser comestível, pode ser usado no sexo oral sem nenhum problema.
Para chegar a essa fórmula, Mello começou a fazer alquimias de testes e chegou a ir à Califórnia para estudar seis tipos diferentes de plantas. Isso porque, além de cada uma ter um efeito distinto, cada pessoa também terá uma reação diferente — seja ao aplicá-la como lubrificante, usá-la como remédio ou “dar um pega”.
Mas por que o lubrificante à base de cannabis tem o poder de intensificar o prazer sexual? A aplicação no clitóris causa vasodilatação. Ou seja, os vasos sanguíneos ficam mais largos e o sangue circula mais por ali.
"O efeito estimulante é ativado através da absorção do produto pela mucosa da região. O aumento do fluxo sanguíneo aparece depois de 15 a 20 minutos, ativando à libido e a sensibilidade, proporcionando orgasmos mais intensos e/ou múltiplos", diz Mello.
O Xapa Xana também pode ser aplicado no canal vaginal. Ele relaxa a região, o que pode tanto intensificar o orgasmo quanto ajudar a reduzir a dor na penetração.
Desde que criou o projeto Xapa Xana, é de praxe que Mello receba relatos de pessoas dizendo "Tive meu primeiro orgasmo", "Revolucionou minha vida sexual”, “Salvou meu casamento”, "Diminui ou anula a dor na transa".
"Este lub tem mudado a vida de muitas pessoas que perderam a libido por diversas razões, como uso de antidepressivo, oscilação hormonal, dores na penetração, alterações emocionais, desconforto físico, repressão sexual, abuso sexual, rotina e problemas de relacionamento, pós parto e pós cirúrgico, só para citar alguns."
Por mais que as plantas na composição sejam potentes, Mello reforça que o lubrificante não é um medicamento. Além disso, não é recomendado para gestantes, lactantes e pessoas com histórico de alergia e hipersensibilidade aos produtos que estão ali. O ideal é sempre procurar um médico para entender se você pode ou não testar o produto.
Brasil ainda não produz lubrificantes à base de maconha; por isso, tenha cuidado
O óleo de coco é um dos ativos fundamentais para auxiliar na absorção do Xapa Xana. Não é novidade que muitas pessoas aderem ao óleo por suas propriedades hidratantes na vulva, além de eliminar odores e ter ação antibacteriana. Há ainda quem use o óleo puro para a masturbação.
Mas a sexóloga, educadora sexual e fundadora do Grupo Afrodites Luciana Vilela, alerta que ele deve ser usado com moderação. Isso porque o óleo de coco em excesso pode alterar o pH vaginal e aumentar riscos de infecções. "O ideal é usar com moderação, evitar o contato direto com a vagina e observar qualquer acontecimento adverso." Também é bom evitar usá-lo com camisinha, já que lubrificantes à base de óleo danificam o látex.
Vilela alerta ainda que é preciso ter muito cuidado na hora de comprar um lubrificante à base de maconha. Isso porque é preciso saber bem a procedência da planta usada na composição. Por exemplo, você não pode diluir um prensado em óleo de coco e pronto.
"Estudos recentes apontam que, a depender da formulação e como o produto é fabricado, pode causar ressecamento vaginal, alterar percepção de tempo, provocar tontura ou sonolência (se tiver THC). Dependendo da fórmula, ainda pode irritar a região íntima", diz.
Ela defende que os produtos íntimos com cannabis ainda precisam ser mais estudados para saber os benefícios ou não benefícios. No entanto, destaca que, no caso do Xapa Xana, produzido em um país em que a maconha é legalizada e segue regulamentações específicas, há um controle de qualidade garantido.
"Isso não acontece em países onde a venda ainda não é liberada. Nesses casos, o produto é feito sem nenhum critério de higiene ou boas práticas de fabricação", explica.
No Brasil, por exemplo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) libera apenas medicamentos para uso terapêutico e com prescrição médica, para tratar doenças como epilepsia, doenças crônicas e neurodegenerativas, lesões musculares ou transtornos de ansiedade. "Produtos eróticos com cannabis ainda não são permitidos."
Marie Claire testou o lubrificante à base de maconha. Veja o que achamos do Xapaxana
‘Senti cada centímetro de pele dos meus dedos’
“Um baseadinho já é o suficiente, muitas vezes, para deixar meu corpo sensível. Costumo ter muito tesão nos primeiros minutos de brisa. Então, fiquei pensando se seria muito diferente com um óleo à base de maconha, se a sensação gostosa ficaria mais localizada na vulva. Usei pela primeira vez com meu parceiro. Tentei respeitar os minutos de espera para o tesão vir com força na hora certa. Passei no clitóris e comecei a fazer movimentos circulares, primeiro direcionados, depois passando para a vulva inteira. Fomos pras preliminares, com beijos molhados e muito toque, e depois comecei um oral caprichado nele, usando um sugador de clitóris em mim.
Depois de algum tempo, senti a sensibilidade ficar maior, assim como meu clitóris, que inchou e ficou mais enrugado — obrigada por tudo, vasodilatação. Como foguete não dá ré, a coisa escalonou e, quando vi, fiquei mais molhada e muito mais rápido. Partimos para a penetração e escolhemos posições em que dava para esfregar o clitóris indiretamente. A sentada ficou ainda mais gostosa comigo por cima, graças à fricção na pelve, e achei que fosse ter um ataque cardíaco quando ele me masturbou quando estávamos de lado.
Usar sozinha também é muito gostoso, principalmente usando as mãos — adorava ficar nos movimentos circulares e, depois de um tempo, me sentir molhada colocando um ou dois dedos na vagina. A sensação que tive é que o clitóris fica mais alerta e consegue sentir cada centímetro de pele dos dedos e das mãos. Deixava para usar vibradores e sugadores depois que já tinha gozado uma vez.
Fato é que, em maior ou menor escala, o lub fez meu corpo tremer diferente todas as vezes. Não necessariamente ele prolongou meu tesão. Acho que, o que acontece, é que o clitóris fica “piscando” e te faz querer se masturbar mais vezes depois de chegar em um pico. O efeito dura consideravelmente (confesso a vocês que não vou saber precisar o quanto, estava muito ocupada, como podem ver), então me fez ter vontade de testar “meus limites” no que diz respeito a gozar. Numa dessas consegui chegar num squirting, um verdadeiro acontecimento raríssimo para mim. Desde então, virou um agradinho. Não uso o tempo inteiro, mas, sempre que o busco na minha gaveta, sei que vai ser tiro e queda.”
‘Sensação de dormência é gostosa, mas passa rápido’
“Fiquei super empolgada para usar o óleo. Já tinha ouvido falar bem dos efeitos, mas nunca tinha experimentado algo parecido. Fui com altas expectativas. Mas, ao pegar o produto na mão, comecei a ficar com algumas dúvidas. O que se sabe de antemão é que é preciso esperar até 20 minutos para o produto agir antes do sexo. Mas minha cabeça a mil: qual a quantidade ideal? Posso usar mais de uma vez? Se usar mais uma vez, também precisa esperar mais 20 minutos? Pode na vagina ou só na vulva? Pode sexo oral? Todos esses pensamentos ao mesmo tempo e nem estava no intervalo dos 20 minutos.
Deixei as preocupações de lado e fui testar com meu parceiro. Dispensei o sexo oral por receio. Na penetração, o óleo funcionou como um lubrificante legal e a sensação de dormência é gostosa, mas passa muito rápido. Rápido o suficiente para gozar? Acredito que sim, mas não rolou pra mim. Precisava de mais, tempo e óleo, para pensar só no tesão. O sexo seguiu, mas no ápice o óleo já não fazia diferença. Depois de ter todas as dúvidas respondidas nesta reportagem, fiquei mais segura e animada para tentar mais uma vez e gozar xapadinha.”









