Como dizer para seu marido, namorado ou ficante que o pênis dele está cheirando mal?
Às vezes é preciso ter conversas difíceis, e essa é uma delas (mas não deveria). Marie Claire ouviu especialistas para entender até que ponto o cheiro do pênis é saudável e qual a melhor forma de abordar seu parceiro para falar sobre a questão
Fernanda*, 20 anos, deu uma segunda (e última) chance para o cara errado. Não, essa história não tem a ver com corações partidos, mas sobre cuecas sujas e pênis fedidos, para sermos diretas. A primeira transa entre os dois foi péssima, sem preliminares. “Tentei de novo outro dia para incluir um oral ou algo assim. Mas na hora que eu tirei a cueca dele, quase caí de costas”, lembra.
Pelos pubianos e cheiros específicos nos genitais são completamente normais, independentemente do gênero. Mas ali a situação não era nada fácil. Some isso a um cheiro bem estranho que Fernanda mal sabe definir. “Era cheiro de pinto passado, sabe? Como se tivesse cozinhado o dia inteiro dentro da calça”, diz. Ou seja, um odor azedo com notas de suor? “Talvez algo nessa linha”, ela responde.
“No final não rolou nada. Obviamente me recusei a passar por isso, mas consegui ser discreta. Nunca mais nos falamos. Ele era um querido, mas saber transar e estar com os países baixos limpos é o mais importante para mim”, ela acrescenta.
Este tal Jurandir não é o único. Dados do Ministério da Saúde compilados pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) indicam que, a cada ano, 600 pênis são amputados no Brasil por câncer de pênis, que pode ser evitado com a vacinação de HPV e higiene adequada — vamos ser justas aqui: nem todos esses casos são de homens que não querem se cuidar, mas que estão sem condições de fazê-lo corretamente.
Agora, é claro que sabemos que avisar ao seu namorado, ficante, marido ou casinho de uma noite que ele precisa lavar o pênis não deveria ser responsabilidade sua. Afinal, é o básico. Ao mesmo tempo, sabemos que genuinamente queremos que algo mude para melhor, mas pode ser difícil ter esse papo com homens.
Bem, aqui explicamos o que pode causar mau cheiro, quais as consequências disso (e adiantamos: são bem sérias) e, depois, sugerimos de que maneira você pode tratar do assunto com mais tranquilidade.
Ou, se preferir que a gente tenha essa conversa com seu parceiro, que tal só enviar esse texto para ele? Podemos te ajudar a dar o primeiro passo e fazê-lo entender que, além de primordial, esse hábito vai ser importante não só para você, mas para a própria segurança dele ;)
Pênis tem cheiro? Quando é normal e quando não é?
Sim, o pênis tem um cheiro natural, geralmente descrito como um perfume corporal bem leve. É o que explica João Fantin, urologista que atua no Hospital de Amor de Barretos e membro da Sociedade Brasileira de São Paulo.
Esse cheiro vem das glândulas sebáceas e de suor e da atividade de bactérias que beneficiam a pele; e é influenciado por secreções naturais, como o smegma (uma mistura de células descamadas, resíduos e óleos).
“Em quantidades moderadas, o esmegma não representa risco à saúde”, diz o urologista. O odor aparece mais suavemente na infância e fica mais intenso e perceptível na adolescência, quando aumenta a produção de testosterona.
E quando a coisa sai do controle e o odor se torna preocupante? Fantin diz que qualquer cheiro intenso e atípico merecem atenção, porque podem indicar infecções simples ou outras condições de saúde mais complexas — como o próprio câncer de pênis.
"Entre os aromas que fogem ao padrão normal, destacam-se o odor forte com nuances ácidas ou amoniacais, geralmente relacionado a infecções como a balanite, que aparece na cabeça do pênis e pode ser causada por fungos ou bactérias”, explica.
O odor que foge um pouco do habitual também pode indicar alterações no metabolismo, como as que acontecem em pessoas diabéticas. Neste caso, mudanças na composição das secreções e do suor podem mudar o cheiro da região.
Mas o caso mais grave é quando o odor é fétido que remete a suor excessivo, urina ou fezes, por exemplo. Neste caso, Fantin afirma que o cheiro vem do acúmulo em excesso do smegma por higiene inadequada, o que propicia infecções bacterianas.
“Além disso, quando o odor fétido é associado a lesões endurecidas na glande, pode ser um sinal de alerta para quadros mais graves, como o câncer de pênis”, explica o urologista. “Nesse contexto, a má higiene – seja por condições socioeconômicas desfavoráveis ou pela dificuldade de limpeza adequada em casos de fimose não tratada – aumenta o risco desse quadro."
Não, você não vai ser ‘menos homem’ se simplesmente lavar o pênis corretamente
Sim, existem casos em que a falta de higiene está fora de controle, como no caso de pessoas em situação de vulnerabilidade, com pouco ou nenhum acesso a água potável e saneamento básico. Mas Fantin diz que há muitos casos em que estigmas sociais e preconceitos estão no caminho.
Isso não só dificulta acesso à informação como faz com que muitos homens cheguem ao PS com condições que poderiam ser totalmente evitadas com sabão e água. As consequências são inúmeras, desde acúmulo de secreções, aumento de risco de infecções que podem evoluir ao câncer, dificuldade no acesso ao tratamento ou possível ligação com quadros graves.
Ou seja: não manter a higiene básica no dia a dia pode ser mais perigoso do que acreditar que alguém “vira gay” (sic) por ensaboar o pênis e o ânus.
Não, lavar seu colega não vai fazer você ser “menos homem” (seja lá o que isso signifique de fato) ou mudar sua orientação sexual. Mas muitos ainda acham que sim, e sequer aceitam ouvir suas parceiras que não só se preocupam com a própria saúde sexual como querem poder se entregar totalmente no sexo. Afinal, ninguém merece colocar algo que esteja sujo dentro de si, não é?
Afinal, como dizer ao parceiro que o pênis dele cheira mal?
Márla Camilo, terapeuta especializada em sexualidade masculina, aponta que muitos homens ainda têm dificuldade em ouvir de suas parceiras que há algo que precisa ser mudado para que elas sintam prazer, conforto e segurança.
O motivo? Enquanto as mulheres se veem um pouco mais libertas sexualmente, eles ainda se sentem aprisionados em um modelo de masculinidade baseado em força, desempenho e controle. "Isso cria uma relação pesada com o próprio corpo, em que o pênis não é um canal de prazer e presença, mas um símbolo de poder e validação”, diz.
O resultado disso é que, mesmo que essa mulher seja cuidadosa ao dizer que o pênis do parceiro está fedendo (por exemplo), isso é visto como ataque. “Ele carrega tanto peso, tanta cobrança, que qualquer toque naquilo que ele sente ser ‘sua obrigação’ já ativa medo, vergonha, sensação de falha e, por impulso, esse homem reage em vez de acolher a fala da parceira”, pensa a terapeuta.
Para ela, a melhor maneira de lidar com a situação é com falas sinceras e afetuosas, além de uma escuta ativa e aberta do outro. O melhor é deixar o tom de julgamento de lado. "Falar com o coração não é falar ‘bonito’, mas com presença. É mostrar que o objetivo não é diminuir o outro, mas fortalecer a conexão”, diz.
Se você está disposta, tem abertura e segurança para ter essa conversa, tente ir por caminhos que demonstrem a intenção de alertar sobre algo que pode ser ruim para ambos. Camilo indica frases como:
- “Quero me entregar de verdade, e pra isso, tem algo que preciso te dizer com carinho…”
- “Quero me conectar ainda mais com você. Só que para mim é importante que, antes de uma relação, possamos tomar banho juntinhos para cuidar do corpo”
- “Posso te dizer algo com carinho? Porque te desejo, e quero que nosso encontro seja ainda mais gostoso.”
- “Gosto quando você se cuida… queria propor que a gente criasse um ritual antes do sexo. Um banho juntos, um cuidado mútuo, sabe?”
- “Tem momentos em que sinto um cheirinho diferente e isso me desconecta um pouco… se a gente puder ajustar isso juntos, vai ser incrível pra nós dois.”
Sim, às vezes a indignação toma conta. Afinal, é chato pensar que você tem de alertar um homem adulto que ele deve lavar seus genitais, né? Mas para evitar dores de cabeça para você e passar a mensagem de forma efetiva, Camilo indica que é bom evitar termos como “Você tá fedendo”, “Vai se lavar” ou “Desse jeito não tem como”.
Mas e se você não estiver preparada para ter essa conversa? Suponhamos: a ideia era uma transa casual, se nenhum de vocês se encontrar de novo depois. Ou finalmente a pessoa com quem você foi a uns cinco dates te convidou para passar a noite juntos. Ou ainda: infelizmente, há muitas mulheres em relações inseguras e violentas que não conseguem verbalizar o que querem ou precisam (um disclaimer: se esse caso for o seu, vale reconsiderar se o relacionamento vale a pena para você).
Nesses casos, Camilo diz que o corpo pode se tornar uma ferramenta de comunicação sutil, em que é possível conduzir a outra pessoa. Convidar para um banho antes da transa, sem citar o odor, pode ser uma saída.
- “Vamos para o chuveiro juntos? Acho tão excitante começar assim.”
- “Tenho vontade de te tocar com a água escorrendo. Vem comigo?”
“Essas pequenas iniciativas mostram que autocuidado e erotismo podem andar juntos. Não é manipular, mas criar espaço para que o corpo do outro entre em sintonia com o seu — sem precisar forçar nada”, diz Camilo.
“Quando algo incomoda, é porque ali existe um convite para rever, ajustar, e evoluir. A mulher que comunica com carinho está guiando o homem como ela quer sentir o prazer. E o homem que escuta com maturidade está dizendo que está disposto a aprender e a se sentir diferente", ela acrescenta
*O nome foi alterado a pedido da personagem.









