Sexo
Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)

A cominação sexo + maconha pode ser uma combinação explosiva — no melhor sentido da palavra. Com a guarda baixa e o corpo mais sensível, transar chapada pode se tornar um caminho para descobrir novos estímulos e até chegar aos desejados orgasmos intensos mais rapidamente.

Diversos estudos científicos vêm surgindo para conseguir medir os benefícios ou riscos da cannabis na vida sexual. Não à toa, produtos como o lubrificante à base de cannabis começaram a aparecer, e se tornaram cobiçados.

Mas e os medicamentos canábicos? Permitidos no Brasil com prescrição médica desde 2015, seriam eles capazes de dar um boost no desejo sexual? Mais que isso, eles são indicados para essa função, especificamente?

A psicóloga Maria Klein, especializada em medos, traumas e no campo da cannabis medicinal, tira essas e mais dúvidas. Mas ela adianta: “Talvez eu frustre quem está lendo”.

Quem pode ter mais libido com maconha medicinal?

Para saber mais sobre a relação entre a libido e os canabinoides (ou seja, substâncias das plantas que se ligam aos receptores cerebrais e corporais), é preciso entender quais são os lugares que ele alcança e quais não. Klein explica que, no caso de medicamentos canábicos, o efeito para o prazer sexual é vulnerável, e pode se intensificar a depender de muitas variáveis.

Vamos entrar em linguagens científicas aqui, mas juramos que vai valer a pena: para conseguir entender se a cannabis medicinal é para você ou não, saiba que a chave da resposta está no porquê há pouca ou nenhuma libido por aí. Isso porque os canabinoides vão interagir com o sistema endocanabinoide, encontrados no sistema neural e imunológico.

Klein explica que esse sistema é responsável pela homeostase — ou seja, pelo equilíbrio do corpo humano e para ativar mecanismos de defesa que vão deixar seu corpo em alerta.

“Por exemplo, você está dirigindo o carro e escuta uma freada. Seu corpo começa a se organizar para te proteger e garantir que você sobreviva”, explica a psicóloga. Quando isso acontece, o equilíbrio do corpo se desorganiza de propósito como mecanismo de defesa. “O tempo que leva para se restabelecer depois da tal freada é definido pelo endocanabinoide.”

Por que isso tudo é importante? É porque a cannabis medicinal só deve ter efeito na libido nos casos em que o endocanabinoide está desregulado por alguma outra condição.

É o caso, por exemplo, de pessoas com transtornos emocionais como depressão e ansiedade. “Nesses casos, ao organizar o sistema endocanabinoide, a pessoa tem mais sanidade e energia para usar na libido, e não só para apagar incêndio”, diz Klein, que acrescenta que esse efeito pode aparecer para amenizar tratamentos com remédios psiquiátricos, conhecidos por diminuir o tesão. “Nesses casos, os canabinoides muito provavelmente podem diminuir ou mesmo retirar alguns medicamentos. E isso ajuda a devolver a libido.”

Outro grupo que pode se beneficiar são mulheres e pessoas com vulva passando pela menopausa, em que há um desequilíbrio hormonal que também afeta o sistema endocanabinoide.

Mas Klein alerta: em qualquer um desses casos, a cannabis medicinal não vai levantar seu tesão de uma hora para outra. Não é como o Viagra, por exemplo, que tem efeito imediato. Lembre-se: por mais que tenha maconha na composição, é um remédio como qualquer outro, que tem tempo de adaptação, efeitos colaterais e pode, sim, demorar para fazer o efeito desejado.

Em quais casos maconha medicinal não melhora o desejo sexual?

Parte das respostas estão na linha acima, mas Klein reforça: “Uma mulher que quer usar canabinoides para estimular libido pode se frustrar se essa ausência de libido estiver vindo de um lugar que não seja a desorganização do sistema endocannabinoide”.

Ou seja: se você só quer dar uma diferenciada na potência sensorial do corpo ou não está muito afim de transar com a parceria e quer um incentivo, a cannabis medicinal não é para você. O tesão a mais pode ser um dos efeitos secundários dos remédios, mas eles servem, essencialmente, para tratar outras condições.

Klein também reforça que esses medicamentos não são úteis nos casos em que o endocanabinoide é propositalmente alterado. Um exemplo: os canabinoides não são suficientes para aumentar a libido de quem toma algum anticoncepcional hormonal.

“Se você está tomando uma medicação de uso contínuo e tem que lutar contra aquela medicação de efeito diário, os canabinoides não vão dar conta porque sempre estarão correndo atrás para conseguirem se organizar, sem saber que você está usando algo para desorganizá-lo”, explica a especialista.

O melhor é não cair em receitas prontas e falar com especialistas que fazem administração de canabinoides — justamente para não se frustrar.

E fumar maconha? Aumenta o desejo sexual?

Quando você fuma, ingere ou inala maconha, tem contato com o canabinoide responsável por seu efeito alucinógeno: o famoso THC, que não está necessariamente presente em todos os óleos e remédios canábicos. Se usado dessas formas, Klein explica, pode existir um efeito mais potente na maioria dos casos. Claro que não é uma regra: assim como absolutamente tudo nessa vida, cada corpo tem reações diferentes ao mesmo estímulo.

Em sua clínica, o que Klein percebe é que esse contato recreativo com a maconha oferece mudanças psicológicas. “Quando usamos algo que altera a percepção da consciência, como o THC, nossas estruturas de defesa adormecem. Por exemplo: no caso de pessoas com bloqueios relacionados a trauma, é uma dificuldade se entregar por completo. Quando suas defesas dormem, você consegue acessar esse outro lugar”, afirma.

Mas calma lá! A psicóloga adverte: o efeito da brisa vai para onde sua vibe estiver naquele momento. “Todas as drogas, incluindo o álcool, têm essa questão: elas intensificam as emoções, pensamentos e sentimentos. Dependendo de onde está seu pensamento, é possível ir do céu ao inferno”, diz.

Ela acrescenta: “Onde você colocar seu pensamento, saiba que aquilo vai se intensificar. Numa vibe boa de relaxar, curtir ou do tesão, o corpo vasodilata e vai sentir as coisas de forma mais aguçada. E aí, é claro que a experiência vai ser muito mais potente e proporcionar uma entrega gostosa e poderosa”.

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