Sexo às cegas por buracos na parede: o que faz os glory holes serem tão cobiçados?
Existem até bares com ‘mamódromos’ e lan house com glory holes que despertam o prazer pelo mistério e anonimato
Já pensou em tocar no pênis de um estranho por um buraco na parede? Há quem torça o nariz e diga que jamais teria coragem de experimentar, mas a ideia de interagir sexualmente com um desconhecido é justamente o auge da excitação de quem procura pelos glory holes, que em tradução livre são “buracos da glória”.
A atendente de call center Mari*, 55 anos, tinha acabado de se divorciar quando foi conhecer um local com glory holes. “No dia seguinte que assinei os papéis, decidi ir. Queria ver como era. Já vinha conversando com um cara há um tempo que me contava como funcionava e o que esperar. Fui com a cabeça preparada, sem medo. Só curiosidade”, conta.
Num primeiro momento, Mari estranhou o ambiente: um corredor escuro, com cabines separadas por divisórias de madeira furadas com buracos. “Não tinha cartaz na frente, nada. É uma entrada bem discreta”. Também se sentiu perdida com a dinâmica, mas percebeu que o segredo era só se deixar levar. “De repente tem um homem na sua frente e você não sabe o que fazer, nem por onde começar. Mas logo me soltei. Transei e toquei em vários homens, tanto nas cabines quanto no dark room”, relembra.
Mesmo com tantos estímulos, Mari revela que nem tudo é prazer garantido. “É boa a sensação de ter vários homens ao seu dispor. Mas é difícil chegar no orgasmo lá. A maioria dos caras só quer se satisfazer e pronto. Sempre fico com a sensação de quero mais”, relata.
Mais do que o prazer, ela enxerga nos glory holes um espaço de liberdade sexual e quebra de estigmas. “Também temos direito de nos divertirmos no sexo. Muita gente acha que mulher que vai em glory hole está se prostituindo. Já me perguntaram se eu fazia programa e fiquei ‘p’ da vida”, conta. “Respondo: ‘Vou porque gosto de brincar, igual a você. Não recebo nada por isso. Venho pelo meu prazer’. Mesmo assim, tenho poucos amigos que sabem dessas aventuras. Meus filhos jamais poderiam saber.”
O que são glory holes?
Os glory holes são buracos estratégicos em paredes ou divisórias e são muito populares em casas de swing, saunas e outros ambientes liberais. Neles é possível praticar sexo oral, tocar nos genitais que estiverem expostos nele ou posicionar o ânus ou a vagina para ser penetrada sem saber quem foi. É tudo sobre as sensações. Como a visão estará limitada, o foco fica nos outros sentidos, como tato e olfato, que estão mais aguçados nesse momento.
Se mesmo assim achou demais, há outras formas de explorar o prazer no glory hole. O voyeurismo e o exibicionismo são muito bem-vindos aqui, pois muitas pessoas encontram prazer em se exibir ou observar outras pessoas pelos buracos. Essa dinâmica é bem comum entre casais que curtem ver a parceria transando com outras pessoas — os famosos cuckolds. Em alguns lugares, existem até glory holes específicos para quem gosta de assistir discretamente.
De onde vem o fetiche por glory hole
Para muitas pessoas o auge da excitação está justamente no mistério e na sensação de anonimato. Não saber de quem é o pênis que apareceu ali no glory hole e poder chupar sem troca de olhares, sem conversas ou sequer saber o nome da pessoa eleva o tesão dos adeptos e deixa o momento ainda mais quente.
Mari concorda e diz que não curte manter contato, quando encontra as pessoas depois nos locais de glory hole. “Eles voltam, vêm, já querem um carinho a mais, ai eu já vou tirando meu time. Quando vou lá, fico com um cara, com outro... às vezes pedem meu número de telefone, mas eu nunca dou”, comenta.
A origem do glory hole não tem um registro exato. Se supõe que tenha se popularizado no século 20, principalmente em banheiros públicos frequentados por homens gays que buscavam sexo com anônimos sem que tivessem que se revelar um para o outro.
Com o passar do tempo, o fetiche foi evoluindo e caindo nas graças de casais heterossexuais e bissexuais que curtem fetiches com mais adrenalina. Nos sites de conteúdo adulto é fácil encontrar inúmeros vídeos de mulheres chupando outros caras pelo glory hole ou até sendo penetradas.
Uma curiosidade interessante é que, durante a pandemia de covid 19, as autoridades do Centro de Controle de Doenças da província de British Columbia, no Canadá, chegaram a recomendar glory holes para as pessoas satisfazerem seus desejos sem que tivessem um contato cara a cara com as parcerias.
Onde encontrar os glory holes no Brasil?
Os locais mais comuns são os que permitem sexo, como cabines em casas de swing, festas liberais e saunas. Também é possível encontrar em outros lugares, aparentemente, menos propícios. É o caso de um bar gay, com filiais em São Paulo e Belo Horizonte, que instalou um “mamódromo” pensado para quem curte um boquete em estranhos. O ambiente no Dédalos Bar é localizado em um labirinto no segundo andar e funciona 24 horas. Dá para ficar bem confortável com as poltronas, estrategicamente posicionadas para que ninguém tenha que agachar para cair de boca nos glory holes.
Em Maringá, até uma lan house entrou no jogo. Na Cyber Hot, apelidada de “lan house do sexo”, as cabines individuais têm glory holes para quem quiser uma interação além do virtual.
E os computadores não estão ali só para montar a casa dos sonhos no The Sims. Funcionam como uma espécie de bate-papo bem no estilo anos 2000 que permite uma conversa com quem está nas outras cabines. Aí é só escolher se vão se curtir pelos glory holes ou partir para o dark room, onde o anonimato continua garantido.
Nesses ambientes você pode encontrar todos os tipos de pessoas que imaginar: casadas, solteiras, hetero, gays, trans, lésbicas e bissexuais. Normalmente tem locais reservados para cada um dos públicos.
Cuidados que você precisa ter ao ir em um glory hole
Além de manter a higiene em dia, é preciso dar uma checada se o cheiro está agradável na pessoa do outro lado (caso isso seja um problema para você). Opte também por vestir a camisinha na outra pessoa para garantir que não vai ser penetrada por uma camisinha usada ou que a pessoa decida não utilizar o preservativo.
Para o sexo oral, é recomendado não engolir o sêmen, já que não dá para saber nada sobre quem estará chupando, inclusive se ela tem alguma IST (Infecção Sexualmente Transmissível) ou não. Então, não se arrisque. Caso esteja com alguma feridinha na boca, espere melhorar antes para não ter risco de contrair nada.
As PrEPs (Profilaxia Pré-Exposição) podem ser grandes aliadas na prevenção contra o HIV nesses casos, como estará muito exposta. Elas consistem em medicamentos que reduzem o risco de infecção pelo vírus. Você pode encontrar na rede municipal especializada em IST/HIV da sua cidade. “Sempre fui orientada a passar a mão e conferir a camisinha. Mesmo assim tem risco. Um amigo que é dono de uma das casas que frequentou me falou da PrEP. Comecei a tomar por causa disso”, explica Mari.
No entanto, é importante lembrar que as PrEPs não oferecem proteção contra outras ISTs, como sífilis, gonorreia ou clamídia.
Uma boa dica é escolher sempre um local onde se sinta segura e respeitada. Antes de ir pela primeira vez, vale olhar as avaliações do local no Google, ou falar com conhecidos que frequentam para entender qual é a opinião sobre os espaços. Também é interessante visitar o local para observar, sentir o ambiente e ver se vai se habituar.
*O nome foi alterado para preservar a identidade da personagem.









