‘Sinto como se estivesse assistindo minha própria transa’: o que é dissociação no sexo?
Conhecida também como spectatoring, a sensação que prejudica tanto a conexão com a parceria como o prazer sexual
Algum dia você já sentiu como se sua cabeça estivesse em outro lugar durante o sexo? Ao mesmo tempo que você deseja sentir tudo o que a pessoa está te proporcionando, sua mente te leva a pensamentos que te distanciam do prazer que poderia sentir? Essa sensação se chama dissociação — ou spectatoring.
É o que acontece com Mariana*, 33 anos, que por várias vezes já sentiu como se fosse uma mera espectadora do seu momento íntimo: “Sentia como se meu corpo estivesse ali e minha mente em algum boleto que estava devendo”, lembra.
Para ela, esse momento acontece com mais frequência quando está passando por grandes problemas financeiros. São milhares de pensamentos e preocupações que não consegue desligar nem na hora do sexo.
“A primeira vez que percebi que isso era um problema foi quando uma parceria minha me tirou de cima dela, porque percebeu que eu estava com uma cara de ‘blasé’ e ficou super chateada comigo. Foi aí que me toquei que minha mente estava em outro lugar”, conta.
O que é a dissociação no sexo?
A dissociação no sexo é, normalmente, uma resposta do sistema nervoso que acontece de forma involuntária e não consciente, como uma defesa para lidar com situações de trauma e estresse. Quem vive esse tipo de distanciamento mental no sexo tende a ter pensamentos variados que vão desde preocupações com a performance, problemas do dia a dia, inseguranças com o corpo entre outras questões.
A sexóloga Gisleine Teixeira, especialista em relacionamentos, afirma que a dissociação no sexo funciona como uma ruptura do prazer. “Pode se manifestar na ausência total ou parcial de prazer ou ainda na desconexão física e emocional. É possível que a pessoa se sinta como um mero observador, o que prejudica sua performance e limita até as lembranças do momento.”
A sensação descrita por Teixeira é exatamente o que Ana Gabriela*, 34 anos, sente durante um momento de dissociação. “Parece que estou vendo a cena de fora, como se não fosse eu ali. Fico vendo cada defeito meu corpo e minha mente fica anestesiada, meio desligada. É como se eu tivesse apertado um botão para não sentir nada”.
Segundo a sexóloga, as causas para ter uma dissociação no sexo podem ter diferentes tipos de gatilhos. “Tem pessoas que dissociam por conta de traumas, desilusões, frustrações, ansiedade e problemas com distorção de imagem ou cobrança excessiva em relação a ter um corpo ‘perfeito’.”
Relacionamentos tóxicos, falta de parceria e intimidade ou até falta de privacidade no ambiente podem ser outras possíveis causas. “Ter algum tipo de crença negativa sobre o sexo — como a ideia de que é algo sujo — também pode servir como gatilho para a dissociação”, aponta Teixeira.
Ana Gabriela sente que os pensamentos ruins sobre sexo que aprendeu no tempo que passou dentro da igreja evangélica impactam até hoje a forma que sua mente se comporta quando está transando. “Mesmo quando quero estar presente, sinto uma resistência interna — como se sentir prazer fosse errado, quase um pecado. Embora saiba racionalmente que não é, meu corpo ainda reage como se fosse”, desabafa.
“Ainda há a dissociação que acontece por conta de episódios do passado, como violência sexual, abuso ou assédio. Podemos incluir também a mera falta de interesse pela perda de admiração e respeito pela parceria”, completa Teixeira.
Como a dissociação impacta o sexo
A psicóloga Alessandra Petraglia, especialista em Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) enxerga vários fatores que impactam o sexo em si de quem passa pela dissociação. “Vai ser mais difícil sentir prazer ou ter um orgasmo quando sua mente não está focada no ato. O sexo pode passar a ser lembrado como algo desconfortável e gerar sentimentos de culpa ou frustração por não conseguir estar totalmente presente nessa troca.”
Em algumas situações o sexo pode se tornar um momento de “entrega por obrigação”, diz Teixeira.
“Deixa de ser algo feito pelo prazer, amor e intimidade e passa a servir para atender prazeres e necessidades da parceria, o que abre espaço para fingir orgasmos na tentativa de acelerar o fim da transa.” Segundo a pesquisa Prazer feminino realizada em 2023 pela Hibou — que entrevistou mais de 2 mil mulheres do Brasil — ,79% das entrevistadas afirmaram que já fingiram orgasmo alguma vez na vida.
A séxologa aponta os principais prejuízos que a dissociação no sexo podem causar. “É possível perder a libido aos poucos, junto com um quadro de baixa autoestima. Em casos mais frequentes pode até causar vaginismo [contração involuntária dos músculos vaginais que causam dor durante o sexo], além de comprometer a conexão sexual com a parceria”, afirma Teixeira.
As profissionais indicam que é preciso buscar ajuda profissional quando os sintomas de dissociação forem frequentes e estiverem prejudicando sua vida sexual.
A psicóloga Petraglia indica psicoterapia, em especial a TCC, já que essa vertente busca identificar e modificar padrões de pensamento e comportamento que contribuem para o sofrimento emocional. Também indica terapias focadas em traumas e, em casos mais graves, tratamento multidisciplinar com ginecologistas, psiquiatras e fisioterapeutas pélvica.
A comunicação com a parceria também pode ajudar a minimizar o quadro de dissociação, além do acompanhamento profissional. “Busque um momento oportuno para conversar, que não seja no momento do sexo, e exponha o que sente e o que está vivenciando. Depois que compartilhar com a parceria, encontre uma forma de alertar quando não estiver com a mente focada na transa”, diz Teixeira.
Petraglia aconselha ter bastante cuidado e se preparar emocionalmente antes dessa conversa acontecer. “Use frases como: ‘Tem momentos em que me sinto distante durante o sexo, e estou buscando entender melhor isso’ ou ‘Não tem a ver com você ou com a nossa conexão, mas é algo que estou aprendendo a cuidar’. O importante é não culpar a parceria e trazer ela para junto do processo”, recomenda.
*Os nomes foram alterados para preservar as identidades das personagens









