‘Mistura de tesão e desespero’: mulheres adeptas do fetiche em asfixia contam suas experiências
Conhecida como choking, a prática é considerada extrema no BDSM e, se for desejável ir ao limite, deve ser feita com profissionais. Marie Claire ouve histórias de quem gosta de estar no comando e quem prefere (literalmente) perder o ar
O desespero ao sentir que está perdendo o ar. É isso o que mais atrai Lua Torrents, 25 anos, gerente de um bar do universo fetichista, ao choking — ou seja, o fetiche em asfixia erótica. “É uma mistura de angústia e prazer muito intensa para mim. Se estou no meio da transa, isso acelera muito o orgasmo. Já me enforquei sozinha até me masturbando. Acho fascinante como o fôlego e prazer estão conectados”, conta.
O tesão em ter a respiração privada por alguns segundos é um tipo de fetiche considerado um edgeplay — ou seja, uma prática perigosa — que vem das dinâmicas de dominação e submissão. Porém não fica restrito a pessoas do universo do BDSM. Segundo uma pesquisa de 2024 da Universidade de Melbourne, que ouviu 4.702 pessoas, 57% já experimentaram a asfixia erótica alguma vez. Desse número, 51% já restringiram o ar de suas parcerias pelo menos uma vez.
Um dos momentos mais marcantes para Lua foi uma vez que chegou a desmaiar durante uma sessão de choking. “Um colega me amarrou com shibari [prática de amarração fetichista] na região do peito e começou a me enforcar com as mãos. Foi tudo muito rápido. Quando voltei à consciência e entendi o que aconteceu, fiquei com um tesão enorme. É muito louco deixar alguém controlar algo tão necessário quanto a respiração”, descreve.
Em uma relação baunilha [fora do BDSM], algumas pessoas podem gostar de sentir os dedos e a mão das suas parcerias apertando o pescoço, mas sem perder totalmente o ar. Já para os adeptos do fetiche, a prática pode ser um pouco mais intensa.
De onde vem o prazer da asfixia erótica?
Para quem domina a situação, o prazer vem de sentir a vulnerabilidade da outra pessoa. É o que atrai Isabela Cristina, 33 anos, dominatrix há mais de 5 anos.“Ver alguém abrir mão de algo vital só pelo meu prazer e saber que isso também proporciona prazer a ela é muito excitante.”
Isabela se viu envolvida com o choking desde bem nova, nas primeiras transas. Considera que foi influenciada pela pornografia, já que assistia muitos vídeos focados nesse fetiche. “No pornô eu só via essa parte mais agressiva vindo do homem. Com o passar do tempo fui criando uma vontade grande de fazer, e meu parceiro da época permitia”, conta.
Hoje, Isabela pratica de forma profissional em um contexto um pouco diferente — já que, nas sessões pagas de BDSM, esse tipo de fetiche não envolve sexo. “Como não é uma prática falada — porque a pessoa não pode falar no momento, por razões óbvias — o importante é a conexão que tenho com os submissos", diz sobre o que mais a atrai numa sessão memorável.
Lua, que curte o lado submisso da dinâmica, concorda sobre a questão da conexão. “A pessoa está ali, te olhando, sentindo sua reação. Quem está enforcando precisa estar consciente dos seus sinais, perceber se está prazeroso ou se já chegou no seu limite”, explica.
“Gosto muito quando a pessoa me olha nos olhos enquanto me enforca. O sorriso dela vai aumentando ao perceber meu desespero. Isso me deixa completamente submissa. Me entrego por completo”, enfatiza.
Formas de asfixia erótica (ou choking)
A maneira mais comum de fazer o fetiche é com as mãos, mas também é possível usar outras ferramentas — como cintos, cordas, técnicas de afogamento, máscaras e até sacos plásticos.
“Tem muito facesitting também. Alguns clientes gostam de perder o ar com a minha bunda sentada na cara deles. Existe também a mumificação, uma dinâmica em que a pessoa fica imobilizada [normalmente, com plástico filme] só com um caninho na boca, que vou fechando e abrindo para controlar a respiração”, explica Isabela.
Lua compartilha que uma outra experiência muito marcante praticando o fetiche foi quando utilizou uma máscara de látex que cobria todo o seu rosto. “A pessoa foi soprando, enchendo a máscara aos poucos, e ia privando minha respiração gradualmente", lembra. O que chamou atenção foi justamente o nível de controle, além da ausência do toque direto com as mãos. “Foi uma sensação diferente e muito prazerosa.”
A segurança é essencial
Por ser considerado um fetiche que envolve privar outra pessoa de respirar, quem estiver no controle precisa saber exatamente o que está fazendo para não causar acidentes — que, obviamente, podem ser fatais.
“O importante é lembrar que a pressão deve sempre ser lateral. Nunca pressione a parte da frente do pescoço onde fica localizada a traqueia, pois pode causar lesões graves e permanentes”, alerta Isabela.
Ela acrescenta também que, ao usar algum objeto como cintos e fivelas, costuma fazer pressão de uma forma que fique um vão entre o objeto e a garganta para criar um espaço de segurança. Como qualquer prática do BDSM, o choking segue o princípio do SSC — são, seguro e consensual. As duas partes precisam estar cientes tanto dos riscos como dos limites de cada um.
O período que cada pessoa consegue ficar sem ar é muito relativo. Isabela alerta que o ideal é não passar de poucos segundos. “É preciso fazer a leitura corporal da outra pessoa. Se a pessoa indicar que aguenta, a gente continua. Mas é preciso parar a qualquer sinal negativo que a pessoa faça ou que seja aparente na hora”, completa.
Se quiser experimentar o choking, o ideal é procurar alguém que saiba aplicar o fetiche com segurança — como uma dominatrix ou alguém com experiência na asfixia erótica. Já em uma transa a dois, sem tanto conhecimento técnico, é importante evitar aplicar muita pressão para não correr nenhum risco e aproveitar o momento de leve. Uma mãozinha um pouco mais apertada já pode dar conta do recado.









