Sexo
Por
Isadora Marques
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo (SP)

O bondage entrou na vida de Lunna Queen — personagem da produtora cultural e instrutora de BDSM Lunna Reis —, de 37 anos, antes de começar a trabalhar profissionalmente com o fetiche. “Sempre curti experimentar coisas novas para incrementar a vida sexual. Foi aí que uma certa vez decidi comprar uma algema num sex shop e dominei meu namorado da época”, lembra. Mas foi somente há 6 anos que ela resolveu começar a estudar sobre várias práticas fetichistas do BDSM, incluindo o bondage.

Por preferir atuar como dominatrix — mulher que domina nas relações de BDSM —, sentir que a pessoa está totalmente entregue é o que mais a atrai no fetiche. “Gosto de imaginar em qual posição quero que a pessoa fique, o que vou fazer com ela depois e observar o olhar que costuma mesclar medo e tesão. É muito gostoso, mas estou sempre preocupada com a segurança de quem joga comigo”, explica Lunna.

No ponto de vista de quem recebe as amarrações, o que mais excita é o fato de estar numa situação vulnerável. É o caso da escritora Gabriele Nascimento, 26 anos, que está no meio BDSM há 5 anos. A preferência dela é jogar como submissa — ou seja, ser a pessoa amarrada.

“Estar com uma pessoa em que tenho total confiança ao ponto de ser amarrada de um jeito que eu não consiga me soltar é muito excitante. Adoro chegar num ponto da vulnerabilidade em que sinto medo. É uma sensação quase meditativa”, conta.

“Consigo concentrar a respiração, sentir o toque passando pelo meu corpo, não importa o acessório que seja usado. Sou capaz de sentir o que a outra pessoa está emanando. É muito libertador o fato de saber que estou amarrada porque eu quero.”

A primeira vez em que Gabriele foi amarrada foi numa sessão com um grupo de amigos e outras pessoas do meio BDSM. “Estava totalmente tensa no início. Mas logo que a amarração começou, cheguei até a deitar no colo da pessoa e senti meu corpo inteiro relaxar. Se fechasse os olhos, dormiria fácil por umas 3 horas. Me traz paz e, ao mesmo tempo, uma excitação surreal”, revela.

O que é bondage?

Lunna Reis é dominatrix e conhecida como Lunna Queen em suas sessões e workshops, nos quais compartilha boas práticas de bondage. — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal
Lunna Reis é dominatrix e conhecida como Lunna Queen em suas sessões e workshops, nos quais compartilha boas práticas de bondage. — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Bondage é um fetiche do universo do BDSM que consiste em imobilizar ou restringir os movimentos de uma pessoa para fins eróticos, estéticos ou sensoriais. Existem vários tipos de acessórios que são adequados para a prática, como algemas, mordaças, correntes, cordas e fitas.

Entre as possibilidades da prática do fetiche com cordas estão o rope bondage e o shibari. A maior diferença entre os dois é a intenção.

“No rope bondage geralmente, além da amarração ou restrição, costumo fazer uma provocação na sequência, como waxplay [jogo com velas] ou spanking [tapas permitidos pela pessoa submissa]. Já no shibari, que é uma técnica japonesa artística de amarração, posso apenas amarrar e não preciso combinar com nenhuma outra prática”, explica Lunna, que costuma aplicar o shibari fora dos jogos BDSM.

Gabriele Nascimento também é conhecida como Baby G — seu nome kink — atua no meio BDSM há 5 anos — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal
Gabriele Nascimento também é conhecida como Baby G — seu nome kink — atua no meio BDSM há 5 anos — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Gabriele conta que prefere sempre realizar sessões de bondage privativas, com pessoas que ela tem mais confiança. “Até gosto de momentos mais performáticos do fetiche, mas curto muito mais quando tem uma pegada sensual.”

O bondage não é considerado um fetiche edgeplay, como a asfixia erótica, porém em alguns casos mais extremos pode causar acidentes graves e até fatais — se a privação for muito intensa, pode restringir a circulação sanguínea e a respiração. Por isso, é muito importante ter cuidado, entender muito sobre o fetiche e as melhores práticas para saber até onde é seguro ir; além de fazê-lo com pessoas confiáveis e que saibam bem o que estão fazendo.

“Quando aplico o bondage, levo em consideração o que a pessoa que está jogando comigo gosta e o que foi previamente negociado e consentido (a premissa do São, Seguro e Consensual). Se a pessoa curtir outros fetiches, acrescento no jogo e posso variar nas sensações”, explica Lunna.

Como praticar com segurança?

A dominatrix e produtora cultural, Lunna Queen, usando um look comum nas sessões BDSM — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal
A dominatrix e produtora cultural, Lunna Queen, usando um look comum nas sessões BDSM — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Lunna atualmente ministra um workshop sobre bondage e outras vertentes do BDSM, em que ensina formas de praticar o fetiche de com segurança. Ela aconselha que quem deseja começar a explorar a restrição de movimentos deve procurar estudar um pouco de teoria para ter consciência dos riscos que a prática pode causar.

“Tem muito conteúdo rico na internet, vídeos com tutoriais e livros que explicam melhor sobre o fetiche. É preciso ter uma noção básica de anatomia para saber quais partes do corpo podem ser ou não imobilizadas”, alerta.

Quando sentir segurança para começar, ela indica começar com imobilizações e restrições simples, com lenços e algemas. Também desaconselha o uso de álcool ou outras substâncias durante as sessões para evitar que algo vá além do combinado. Combinar uma palavra — safeword — ou gesto de segurança para interromper a prática a qualquer momento é essencial.

Lunna Queen em uma de suas sessões de bondage — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal
Lunna Queen em uma de suas sessões de bondage — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

“É importante sempre ter por perto uma tesoura de socorrista para caso precise soltar a pessoa rapidamente. Além de NUNCA deixar a pessoa que está amarrada ou presa em algum local sozinha e fora do seu campo de visão”, acrescenta.

Além disso tudo, Gabriele acha extremamente importante ter cuidado com o pós da sessão. “É imprescindível que a comunicação seja clara e que meus limites sejam respeitados. Por exemplo, costumo deixar tocar nos meus seios, mas detesto que toquem na minha bunda. Esse é um dos limites que gosto de deixar bem claro”.

Para quem tem curiosidade, mas tem medo ou receio de praticar, Lunna aconselha a viver o desejo sem se privar de nada (apenas dos movimentos).

“Está tudo bem sentir desejo e prazer em realizar práticas fora do convencional. É natural se perguntar por que certos fetiches nos despertam prazer, mas, com o tempo, entendemos que é parte da nossa individualidade. Ao longo do caminho, você vai perceber que não está sozinho e que existem muitas pessoas com desejos parecidos com os nossos por aí.”

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