Se Lorde não tem vergonha de sua vulva ao mostrá-la em ‘Virgin’, por que nós ainda temos?
Encarte do quarto disco da cantora, lançado nesta sexta-feira (27), causou repulsa por trazer a foto de uma parte de sua vulva. Será que esse mesmo sentimento é o que inunda nossa cabeça quando vemos corpos de homens em shapes trincados e virilha à mostra em ensaios?
Mais uma vez, o corpo e os desejos de uma mulher viraram pauta do dia na internet. Lorde lançou nesta sexta-feira (27) o aguardado “Virgin”, quarto disco da carreira e seu álbum mais íntimo até aqui — em que se abre sobre desejo, sexualidade e identidade de gênero. Para arrematar o conceito das 11 músicas, ela colocou uma radiografia sua na capa do álbum.
No encarte, está uma foto da vulva da cantora. Quer dizer, não exatamente: é um mero close de sua virilha com alguns pelos em uma calça transparente, fechada com um zíper bem na “racha”.
Mas só isso já foi o suficiente para dividir o X (sempre ele) na véspera do lançamento; com muitas pessoas — inclusive parte da fanbase de homens gays de Lorde — comentando, entre um retweet e outro de fotos de homens seminus e closes de pênis, como a cantora foi “longe demais”.
Um gif da Pabllo Vittar fazendo cara de nojo em um programa de culinária (que inclusive amamos), pessoas em choque porque não esperavam por isso (ok, legítimo) e até comentários sobre o quão nojenta é a “buceta da Lorde” tomaram várias vezes as timelines.
Mas vamos aos fatos: por que uma foto que destaca uma semi vulva de uma das artistas mais influentes da música pop hoje causa tanta repulsa? Será que esse mesmo sentimento é o que inunda nossa cabeça quando vemos corpos de homens em shapes trincados e virilha à mostra em ensaios?
Como bem disseram vários comentários que acharam a vulva da Lorde nada demais, o argumento foi: “Mas vocês nunca viram uma vulva na vida?”. Ou: “Pensei que veria uma xavasca peludona e aberta, mas é só… uma xavasca normal”. E muitos derivados.
Outro dos meus tweets favoritos diz o seguinte: “Baseado nos temas e conceitos que Lorde vêm explorando com "Virgin", sua foto claramente não tem a intenção de ser vista como sexy ou sensual, e é meio preocupante que as pessoas não consigam sacar isso.”
Então, seria o problema o fato de uma foto de vulva não estar inserida em um contexto puramente sexual? É demais para os nossos olhos ver alguém do calibre de Lorde mostrar a parte mais privada de seu corpo meramente como uma forma de vulnerabilidade, honestidade, intimidade e, mais importante, a normalização da genitália de pessoas que tiveram uma socialização feminina.
O desejo por vulvas padrões
A contracapa de "Virgin" e toda sua reação surge em um momento interessante, em que a extrema direita volta a encontrar/intensificar maneiras de tutelar os corpos dissidentes (mulheres, negros, indígenas, queer e por aí vai). O desejo é que esses corpos sejam vistos como vergonhosos, vulgares, algo a se temer e a ser escondidos. Afinal, negar a liberdade do próprio corpo físico é só uma das armas do patriarcado para fazer com que sejamos menores, acuados e, consequentemente, obedientes — se não acredita em mim, então acredite em Michel Foucault, que tem uma obra quase que inteiramente dedicada a isso.
Some isso ao fato de mulheres serem cotidianamente expostas a uma série de regras e padrões que devem cumprir para se encaixarem nos padrões de beleza e comportamento — inclusive sobre uma parte do corpo que, em muitos casos, é vista só por uma pessoa: você mesma.
Dados de 2024 da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética indicam que houve um aumento de 33% na realização de cirurgias de labioplastia (que reduz o tamanho dos pequenos lábios). Além disso, outro crescimento de 20% de pacientes que fizeram um "rejuvenescimento vaginal".
A entidade coloca o Brasil como líder na realização de cirurgias estéticas íntimas. Um estudo realizado pela Nielsen Brasil e Troiano Branding, encomendada pela marca de absorventes Intimus, mostrou em 2020 que 68% das brasileiras estavam insatisfeitas com a aparência de suas vulvas e vaginas.
Os tais pelos também entram aqui. Se você escolhe removê-los com uma depilação brasileira, ótimo, mas isso não tira o fato de que nenhuma vagina de uma pessoa adulta é completamente lisinha e problematicamente infantilizada — como as que em geral são expostas e arregaçadas na pornografia.
Uma breve história do ódio à vulva
Nem sempre a vulva foi motivo de vergonha e chacota. A quadrinista sueca Liv Strömquist — que, aliás, vem à Flip deste ano — dedicou um livro inteiro para contar a história da guerra travada por homens (lê-se o patriarcado) contra a vulva, a vagina e a menstruação, e como essa guerra foi a porta de entrada para conseguir tutelar mulheres e acentuar as desigualdades de gênero que enfrentamos até hoje — e, é claro, conseguirem poder às custas disso.
Um dos capítulos de A origem do mundo (Cia. das Letras, 144 págs., R$ 99,90) mostra como, na antiguidade, a vulva era, na verdade, sinal de boa sorte, um elemento de transmissão de força, sagrada.
Isso aparece no mito da deusa Deméter, de 600 a.C., que depois de perder a filha recobra as forças após a entidade Baubo mostrar a ela sua vulva. Também em festas na Grécia Antiga, em que mulheres dançavam mostrando suas vulvas, ou cultos em homenagem a Bastet, a deusa gato egípcia, em 5 a.C.
Ou ainda em pinturas rupestres do início da civilização, em rituais na Índia para yoni ou mesmo em estátuas da idade média em que seres andróginos eram representados com as vulvas à vista para trazer boa sorte — algumas delas gastas de tanto serem tocadas.
Perdemos essa relação com as vulvas a partir do momento em que homens perceberam que precisavam se unir para criar uma supremacia masculina de poder. Foi quando passaram a criar métodos de mutilação para impedir a masturbação e criar teorias em que a mulher é vista como pecaminosa ou incompleta — que vão de autores como Santo Agostinho a Jean Paul-Sartre — para conseguir, com sucesso, abafar a autonomia feminina por meio da sexualidade e do que elas tinham no meio das pernas.
O resultado disso, que perdura até hoje, está no estigma e na vergonha relacionada a corpos de mulheres (e outras dissidências); além, é claro, de impedi-las de expressarem e conhecerem os próprios desejos.
What was that?
Lorde definitivamente não foi a primeira artista de alcance global a mostrar sua (quase) vulva para o mundo todo. Lembremos de Madonna e o backlash amargo que ela enfrentou ao lançar seu livro Sex, com imagens dela e de outras pessoas ou nuas, ou em contextos erotizados e fetichistas.
De certa forma, dá para dizer que a reação é um tanto quanto similar ao de outra grande estrela do momento. Me refiro à capa do novo disco de Sabrina Carpenter, divulgada há menos de um mês, em que ela aparece numa postura submissa, de quatro, com um homem segurando seus cabelos.
Uma mulher ser dona de sua própria sexualidade — e de seu sexo, no caso de Lorde — fez conservadores espumarem pela boca, mas também uma ala feminista que dizia que Sabrina coloca em xeque tudo que o feminismo conquistou de representação positiva e independente até hoje (o que, sinceramente, subestima e muito os avanços importantíssimos conquistados pelo movimento).
Iniciativas artísticas com menos alcance global, mas tão potentes quanto, também vêm buscando galgar espaços para incluir a vulva novamente no panteão das deusas. Em 2016, a artista não binária Sam Hil Atalanta lançou o projeto The Vulva Gallery, uma galeria online dedicada à representação da diversidade da vulva.
“Notei que a representação de vulvas na mídia mainstream frequentemente não mostram diversidade, e não há muitas pessoas que falam abertamente sobre isso”, afirmou Atalanta em uma entrevista. "Tenho trabalhado para melhorar essa imagem estigmatizada da vulva."
Com mais de 700 mil seguidores no Instagram, ela desenha vulvas reais de mulheres do mundo todo — com pelos, vitiligo, piercings, estrias, de todas as cores e formatos — e publica suas histórias anonimamente. Por lá, você vai encontrar relatos de mulheres que passaram anos cruelmente tentando adequar suas vulvas em um padrão estético.
Em 2017, o Reino Unido recebeu a inauguração do primeiro museu do mundo dedicado à vagina: o Vagina Museum — antes que digam: sim, existe um Museu do Pênis, ele fica na Islândia. “Temos como visão um mundo em que ninguém tenha vergonha de seus corpos, todo mundo tenha autonomia sobre eles e que toda a humanidade trabalhe junto para construir uma sociedade igualitária e livre”, diz o texto institucional do museu.
O que Lorde e demais artistas e projetos buscam mostrar é que, simplesmente, a vulva é uma parte do corpo como qualquer outra. Se para uns essa é a artista desesperada por ter atenção, para muitas outras é uma mensagem de que mulheres e outros corpos dissidentes não vão mais perder tempo cedendo às tutelas que são impostas a elas.









