Sexo
Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)

Para todo lugar que a universitária paulistana Luana*, 21 anos, olha, é como se o mundo estivesse enviando uma mensagem nada subliminar. “Sexo é maravilhoso e essencial, e quem não quer transar definitivamente tem algum problema, já que sexo é o que faz a vida valer a pena.” Tem só uma coisa: Luana não sente a mesma necessidade. Então, é como se esses sinais mostrassem a ela que está “errada”. Isso a fez desenvolver uma certa aversão sexual.

"Não é que eu tenha nojo por uma cena de sexo em filmes ou uma música, mas parece que estão jogando na minha cara que é algo muito comum e agradável sendo que não consigo sentir o mesmo", ela explica.

"Não gosto de falar sobre sexo e nem ouvir pessoas falando sobre. Me sinto "excluída", já que é algo que realmente nunca vou conseguir entender. Parece que estou perdendo algo incrível e que, por algum motivo, não me foi dada a capacidade de sentir tesão e vontade de transar."

Esse foi um dos pilares que fez Luana entender que é uma pessoa assexual (ou seja, que sente pouca ou nenhuma atração sexual, uma orientação afetiva totalmente válida e saudável. Ao mesmo tempo, deve-se levar em conta que aversão ao sexo não significa, necessariamente, estar dentro do espectro da assexualidade (explicamos mais sobre isso mais a frente neste texto).

Também não quer dizer que uma pessoa que não tem tesão não se apaixone. Luana mesmo sabe bem o que é estar apaixonada. “Mas tesão? O que leva alguém a ter vontade de transar? Sei que é extremamente normal e até saudável, então me pergunto se há algo biologicamente errado comigo", diz.

O que é a aversão sexual e por que mulheres são mais afetadas?

Direto ao ponto: aversão sexual é um termo usado para definir um desconforto sentido sobre o sexo — não só o ato em si, mas pensar, falar, assistir, ler ou ouvir algo que envolva sexo. O sentimento pode variar de uma repulsa ou nojo ou mesmo tristeza e inadequação.

Karoline Oliveira, psicóloga clínica, fundadora da healthtech hotina e idealizadora da Clínica Possível, explica que existe um Transtorno de Aversão Sexual (TAS) no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), classificado como DSM-5. Por mais que leve este nome, é caracterizado atualmente como uma disfunção sexual.

Oliveira explica que a aversão sexual pode estar atrelada a outros transtornos comportamentais, como depressão e ansiedade, mas também é um sofrimento emocional totalmente influenciado pelo contexto social e político em que existimos.

"Pode aparecer em quem viveu experiências traumáticas, como abuso e agressão sexual, ou acompanhada de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT); experiências da infância e adolescência; ou em vivências religiosas, em que existe uma repressão sexual rigorosa que associa sexo a pecado", explica.

Ela acrescenta outros fatores sociais e políticos que podem influenciar muito mais algumas pessoas do que outras. Por mais que a aversão sexual ainda não seja tão estudada, o pouco do que a ciência produziu mostra que as mulheres sentem muito mais essa repulsa do que homens.

Essa explicação está relacionada a forma como o sexo é pautada socialmente: pela ótica da heteronormatividade e do patriarcado, em que o prazer de homens cisgênero é sempre colocado no centro. Some isso à cultura misógina e masculinista que se mostra mais aflorada com o avanço do conservadorismo no mundo todo.

No X, um post ilustra essa insatisfação: duas mulheres comentam a publicação de um homem, que afirma que, depois do orgasmo, sentiu vontade de bater na mulher com quem transou. "A forma como homens falam sobre sexo e sobre as mulheres com quem transam me fez ter aversão sexual desde que eu era adolescente", diz uma. "Outro exemplo certeiro do porquê de a Geração Z transar menos: estamos todas com nojo de homens", acrescenta outra.

"A indústria pornográfica, por exemplo, causa muitas disfunções por ser performática e colocar as mulheres como meros objetos úteis ao prazer dos homens. Isso faz com que a relação delas com sexo e o próprio corpo seja distorcida a ponto de mulheres começarem a sentir nojo do próprio corpo e do sexo em si, mesmo quando estão em relacionamentos saudáveis", explica Oliveira.

Essa perspectiva pode ficar mais aflorada em mulheres não brancas, não heterossexuais e não cisgênero. “O corpo de mulheres negras é sempre hiperssexualizado. Lélia Gonzalez [importante intelectual e ativista brasileira] definiu que a imagem construída é de que todas estão sedentas por sexo ou precisam se dar prazer pelo corpo do outro”, explica. “Quando uma delas é colocada neste lugar, mas não o quer, pode estar exposta à aversão. Muitas delas são abordadas na rua com homens oferecendo dinheiro ou o número de telefone”, acrescenta.

As mulheres trans e travestis vivem algo parecido, já que, por conta da falta de oportunidades e a desumanização que vem da cisheteronormatividade estrutural, são empurradas compulsoriamente para o trabalho sexual. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) estima que 90% da população trans recorre ou já recorreu à prostituição para sobreviver.

A aversão sexual também pode aparecer para mulheres lésbicas, bissexuais e pansexuais por meio de outros tipos de abusos, como o estupro corretivo (quando homens a estupram para “ensiná-las” a ser hétero), terapias de conversão ou mesmo pela heterossexualidade compulsória.

Entenda o que é aversão sexual — Foto: Reprodução/Unsplash
Entenda o que é aversão sexual — Foto: Reprodução/Unsplash

Aversão ao sexo não é a mesma coisa que assexualidade

A gente avisou lá em cima que assexualidade não é a mesma coisa que aversão ao sexo. Neste caso, é preciso levar em consideração que a assexualidade em si NÃO é um transtorno ou uma forma errada de sentir. Portanto, não deve ser vista como doença ou algo para se "consertar".

O que acontece no caso de pessoas assexuais, Oliveira enfatiza, é que a aversão sexual acontece por uma pressão externa para que essa população seja “consertada”. Ao se impor que assexuais se enquadrem em uma norma sexualizada, cria-se um problema sobre algo que não é um problema.

"É como se a mídia e conteúdos eróticos e pornográficos estivessem impondo que essa pessoa tenha desejo, o que acaba gerando um trauma e até um abuso psicológico ao tentar reforçar que uma pessoa se comporte da mesma forma que todo mundo em relação ao sexo”, enfatiza Oliveira.

Também vale enfatizar que nem toda pessoa assexual sente o mesmo nível de desejo. Existem diversas sub-orientações dentro da assexualidade:

  • Assexual estrito: pessoa que não sente nenhuma atração sexual.
  • Assexual fluido: pode transitar entre se sentir como um demissexual, grayssexual ou assexual estrito. É alguém que transita entre orientações assexuais.
  • Demissexual: pessoa que não sente atração sexual, mas pode passar a sentir caso desenvolva um vínculo afetivo com outra pessoa.
  • Grayssexual: pessoa que só sente atração sexual em situações muito específicas.

Como tratar a aversão sexual?

Karoline Oliveira afirma que a forma mais indicada para tratar a aversão sexual é em psicoterapia — lembrando que, aqui, a ideia não é "consertar" ninguém, mas ouvir os motivos que criam essa repulsa e conseguir trabalhar para desmantelar determinadas crenças que podem causar o sofrimento. O mesmo vale para que pessoas assexuais consigam entender suas orientações sexuais e saberem como lidar com a pressão externa.

Em casos graves — envolvendo abuso sexual, por exemplo —, o tratamento pode ser mais intensivo e multidisciplinar, englobando ainda psiquiatras e fisioterapeutas pélvica. Mas, Oliveira explica, é questão de tentativa e erro, já que essa repulsa pode ser duradoura e resistente a alguns tipos de tratamento. “Isso porque a aversão sexual afeta diretamente a pessoa que tem, não o outro. No caso de um casal heterossexual, não vai afetar o homem porque a liberdade sexual dele está muito mais exposta na sociedade do que qualquer outra — mesmo que de modo distorcido.”

*Apenas o primeiro nome foi usado, a pedido da fonte, para preservar sua identidade.

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