‘Meu namoro terminou porque ele era brocha’: por que homens ‘brocham’? (Spoiler: não é por falta de amor)
Disfunção erétil não tem a ver com falta de tesão ou desejo pela parceria. Marie Claire conversou com especialistas para entender exatamente o motivo pelo qual homens e demais pessoas com pênis podem ‘brochar’ — e como lidar com isso da forma mais tranquila possível
Dos 11 meses que Tamiris*, 31 anos, passou com seu último namorado, ela conta nos dedos de uma mão quantas vezes foram parar na cama. “Acho que transamos umas quatro vezes em todo esse tempo. É seguro dizer que meu namoro terminou porque ele era brocha”, conta. “Tentei de tudo: dormir com pouca roupa do lado dele, carícias pelo corpo, beijos caprichados… Nada fazia o cara subir nem se interessar por algo a mais.”
A primeira vez dos dois durou dois minutos contados por ela no relógio, e nas outras três vezes tudo pareceu desengonçado demais. “Ele chegava a ficar duro, mas era só abaixar a calça que passava. Desde então, sempre que eu queria transar, ele inventava uma desculpa”, lembra.
A própria Tamiris sabe que as coisas não são preto no branco: homens (e outras pessoas com pênis, como mulheres trans, algumas pessoas intersexo e não binárias) podem brochar por vários motivos. Hoje, ela consegue entender que o ex vivia um momento difícil: uma doença na família, um trabalho insatisfatório e um sentimento de não saber o que fazer com a própria vida. Mas ao longo daqueles 11 meses uma pergunta ecoou com força na cabeça dela: “Será que a culpa é minha?”
Primeiro de tudo: brochar não é culpa de ninguém
Mulheres e outras pessoas com vulva sabem bem que o tesão tem a ver com vários fatores que vão além da simples vontade de querer transar, que vão de causas físicas e psicológicas a comportamentais e até sociais. Socialmente, existe uma concepção de que para homens e outras pessoas com pênis, é tudo mais fácil já que o órgão é externo (ou seja, mais sensível).
Por mais que isso tenha um fundo de verdade, não é assim que funciona. Acontece que essas pessoas também podem ser impactadas pelas mesmas questões. É o que explicam a terapeuta sexual Tamara W. Zanotelli, que integra a Associação Brasileira dos Profissionais da Saúde, Educação e Terapia Sexual (Abrasex), e o urologista Rogério Saint-Clair, especialista em estética íntima.
"A disfunção erétil é uma uma condição muito comum. Por trás dela, existem causas biopsicossociais. Ou seja, é resultante de uma interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais", conta Zanotelli.
Saint-Clair complementa que é possível que isso seja um momento pontual, ligado, por exemplo, a períodos delicados emocionalmente que dificultam a entrega aos prazeres da carne. "Mas isso pode ser um sinal de alerta para outras questões de saúde, como doenças cardiovasculares e neurológicas, diabetes ou quadros de ansiedade, depressão e baixa autoestima", diz.
"Muitas vezes o ciclo é cruel: a preocupação com o próprio desempenho acaba gerando ainda mais ansiedade, o que piora o quadro de disfunção erétil. O estilo de vida também não pode ser ignorado: consumo excessivo de álcool, tabagismo, uso de drogas, sedentarismo e a privação de sono são hábitos que, além de prejudicarem a saúde como um todo, impactam diretamente na vida sexual", ele complementa.
Zanotelli diz que, no caso dos homens cisgênero, não conseguir transar tem uma grande carga de estigma, já que "ficar duro" está relacionado diretamente (e equivocadamente, vale dizer) ao nível de "virilidade" e "masculinidade".
"Há uma cobrança para que o homem já chegue ereto na relação sexual e se mantenha assim sempre. Isso tem a ver com a nossa cultura machista. Precisamos lembrar que, indiferente de gênero, todos temos fases, dias e horas difíceis. O processo da masculinidade tóxica transforma esta ereto em cobrança, o que pode desencadear um processo de ansiedade", pontua a especialista.
Se meu parceiro brochou, ele não me ama?
Se parece simples tocar meio minuto de punheta e ficar ereto, saiba que o processo de excitação do corpo é bastante complexo. Saint-Clair diz que, para um pênis ficar duro, é preciso que o cérebro, o sistema nervoso, os vasos sanguíneos e os hormônios trabalhem numa sincronia perfeita.
"Quando uma pessoa fica excitada, o cérebro envia sinais elétricos pelos nervos até o pênis, que estimulam a liberação de óxido nítrico, uma substância responsável por relaxar os músculos dos vasos sanguíneos no pênis", explica o médico.
"Isso permite que uma quantidade grande de sangue flua pelas estruturas internas do pênis. À medida que esses espaços se enchem de sangue, o pênis fica rígido, e válvulas venosas se fecham para que esse sangue permaneça ali, sustentando a ereção."
Quando uma ereção não acontece ou é interrompida, isso quer dizer que algum ponto de todo esse processo não funcionou como deveria.
Outro consenso entre Saint-Clair e Zanotelli é de que isso mostra como não conseguir ficar duro não tem nada a ver com falta de amor ou desejo pela parceria. O urologista diz que essa é uma visão muito simplista que, na maioria das vezes, não é verdadeira.
"Existem diversos elementos que podem impactar o processo, como momentos de estresse, cansaço, excesso de preocupações, distrações, desconexão emocional momentânea, problemas neurológicos e cardiovasculares, entre muitos outros", diz.
"O mais importante é entender que, quando a ereção falha ou se perde, isso não significa fraqueza ou problema de caráter. É, na verdade, um sinal de que algum ponto desse sistema físico, emocional ou hormonal precisa de atenção e cuidado. E, felizmente, há tratamento", complementa.
Quando a disfunção erétil está ligada ao relacionamento, Zanotelli explica, o "problema" não está necessariamente ligado à parceria. "A falta de conversa e os problemas emocionais afetam a questão erétil. Sem contar que isso por si só dificulta a intimidade, porque o 'ciclo vicioso' muitas vezes leva ao afastamento do parceiro por vergonha e baixa autoestima."
Meu parceiro brochou. Como lidar da melhor forma?
Para quem está vivendo a disfunção erétil, o melhor é não se culpar, entender que é comum e que pode acontecer com qualquer pessoa. "Isso não tem relação direta com falta de amor, desejo ou masculinidade", reforça Saint-Clair. Ele e Zanotelli recomendam que o melhor é conversar abertamente com a parceria para diminuir inseguranças e gerar compreensão.
"O ideal é ressignificar o momento e lembrar que a intimidade não se resume à penetração. Existem muitas formas de conexão e prazer, como carícias, beijos, toques e conversas que fortalecem ainda mais o vínculo do casal", diz o urologista, acrescentando que buscar ajuda profissional, seja um terapeuta sexual, médico ou psicólogo, pode fazer toda diferença.
Zanotelli acrescenta ainda que, além do tratamento (nos casos em que ele for necessário), há técnicas de relaxamento que podem ser incluídas e feitas até a dois. As de respiração profunda, por exemplo, aliviam estresse e ansiedade e deixam o corpo mais consciente.
Para quem está do outro lado, é fundamental, primeiro, se lembrar de que o que está acontecendo não é sobre você, mas sobre sua própria parceria que está enfrentando a questão.
"É importante que esses episódios sejam tratados com compreensão, sem atribuir culpa ou fazer suposições simples que podem magoar o outro. Explorem outras formas de carícias e tenham a noção de que essas dificuldades são temporárias", aponta a terapeuta sexual.
Beijos, palavras de afirmação — como “tudo bem, vamos deixar para depois” ou “eu te amo” acompanhado de um abraço — podem ser algumas formas de lidar na hora.
É importantíssimo manter a conversa em momentos não sexuais. Pode ser a hora chave para que as duas pessoas consigam se abrir sobre inseguranças e sentimentos e impulsionar que a pessoa com disfunção erétil fique confortável em buscar ajuda.
Ah, e evite palavras como “impotência” ou mesmo “brochar”. Zanotelli alerta que elas têm uma conotação negativa que atribui culpa: opte por disfunção erétil ou outras formas mais cuidadosas de abordar o problema.
Quando buscar ajuda?
O urologista e a terapeuta sexual enfatizam que se isso acontecer uma vez ou outra, é comum e pode estar relacionado a questões ligadas a estresse e cansaço. Sabe aqueles dias em que você está de cabeça cheia e não consegue pensar em mais nada? Pois é. O mesmo pode acontecer em casos de uso de medicamentos contínuos que podem inibir a libido (como os antidepressivos), por exemplo.
Mas se a disfunção acontece entre 50% e 75% das vezes em que for transar, fazendo a pessoa perder o interesse em sexo ou mesmo outras áreas da vida, aí sim é necessário ligar o sinal de alerta. Zanotelli também alerta para sintomas como dor, alteração do aspecto do pênis e problemas de saúde que, silenciosamente, podem levar à dificuldade de ereção.
Saint-Clair ainda chama atenção para condições cardiovasculares (como hipertensão e aterosclerose, que impactam a circulação sanguínea), diabetes, desequilíbrios hormonais, doenças neurológicas, lesões na região pélvica ou medula espinhal, transtornos emocionais e de comportamento ou hábitos não saudáveis (como sedentarismo, tabagismo e uso excessivo de álcool e drogas).
"O mais importante é lembrar que esse assunto merece ser tratado com acolhimento, empatia e sem tabus. Existem caminhos, tratamentos e soluções. O primeiro passo, sempre, é pedir ajuda e buscar informação", conclui o médico.
*O nome foi alterado para preservar a identidade da personagem.









