Prazer em ser submissa: ‘Tenho tesão em servir o homem no sexo e além dele. Ele pensa nas coisas por mim’
Desde que posição fará na cama até dar permissão para sair sozinha ou não, o dominador de Sasha Cuck é quem dita as regras sexuais e de convivência de ambos. Adepta do fetiche de submissão e dominação, ela conta que tudo é registrado em contrato e fala para Marie Claire dos detalhes de sua vida como submissa
Foi aos 17 anos que Sasha Cuck (pseudônimo que usa em suas redes sociais) se interessou pela primeira vez pela submissão. Até então, não tinha nenhum conhecimento sobre BDSM, e foi apresentada ao universo por um namorado da época. “Me surpreendi quando tive orgasmos múltiplos pela primeira vez ao experimentar a dinâmica de submissa e dominador”, lembra.
No começo, a entrega era restrita ao sexo. Mas com o passar do tempo, ela entendeu que sua submissão ia além da cama. Hoje, aos 30 anos, vive uma dinâmica em que o jogo de poder e obediência também se manifesta em outros âmbitos da sua rotina.
Ela descreve que é uma escolha baseada no prazer de servir e realizar determinadas tarefas que são satisfatórias para ela, que podem ir desde realizar vontades do seu dominador durante o sexo, quanto cozinhar para ele (o que entra numa prática nomeada de submissão doméstica).
“Brinco que é meu momento chef”, diz. “Sabe quando os participantes daqueles realities de cozinha recebem elogios dos jurados? Sinto algo parecido quando cozinho para ele. Me dá uma sensação de realização e prazer”, continua.
Por mais decidida que estivesse em explorar seu lado submisso, Sasha conta que ir às vias de fato não foi uma tarefa fácil. “Só funcionou quando eu cheguei num nível extremo de confiança com uma pessoa que mostrou ter aptidão para cumprir esse papel. Quando finalmente me entreguei, foi como se um peso tivesse saído das minhas costas.”.
“Posso relaxar e ficar tranquila, sabendo que estou segura nessa relação. Não preciso pensar em tudo, ele que vai pensar nas coisas e fazer por mim. Conforme aumentei meu nível de autoconhecimento como pessoa, percebi que gostava de estar numa relação pré-negociada em que meu parceiro lidera as situações.”
O tesão de uma mulher em ser submissa ao homem no sexo
O tesão que Sasha sente quando assume o papel de submissa entre quatro paredes é tão grande que o toque, às vezes, nem é necessário para levá-la ao clímax. “Só a forma como ele fala comigo já é o suficiente para me deixar à beira de um orgasmo. Ele tem um jeito de falar com firmeza, olhando nos meus olhos e sem titubear. Um exemplo é quando ele fala ‘vire-se’, especialmente sem o maior contexto, cria um suspense por eu não saber o que vai acontecer. Será que vou apanhar, será que é uma surpresa? Fico sempre com muito tesão.”
A lista de fetiches de Sasha é extensa e cheia de camadas. Shibari, bondage, spanking, tease and denial (fetiche de provocação e controle do orgasmo) são só alguns.
Mas o que aguça mais seus sentidos e prazeres é o fato de se considerar uma cuckquean — uma variação do fetiche cuckold só que na ótica feminina. Ou seja, Sasha adora ver seu parceiro com outras mulheres — ou saber que ele teve alguma aventura sexual com outra. “Gosto muito de ouvir ele contando o que fez numa transa com outra mulher ou que gostaria de fazer com ela. Fico incrivelmente excitada”, conta.
Todos esses fetiches estão dentro do BDSM e, para acontecerem com segurança e conforto, seguem as normas SSC (Seguro, São e Consensual). Mas Sasha também se engaja em práticas consideradas mais extremas ainda. É o caso do CNC (Consentimento Não Consensual): consiste em práticas sexuais que se desenrolam num tipo de role play como se não fossem consensuais — como, por exemplo, a encenação de uma violência sexual.
Por mais polêmico e alarmante que possa parecer, tudo é combinado antes por Sasha e seu dominador. São feitos acordos gerais ou pontuais e as palavras de segurança podem ser usadas a qualquer momento.
Tipos de contratos de submissão e dominação
Se você já assistiu ou leu Cinquenta Tons de Cinza, se lembra de quando o fetichista Christian Grey entrega para Anastasia Steele um contrato de regras para a relação dos dois. O mesmo vale para dinâmicas de submissão e dominação fora da tela: é feito um contrato geral, em que se descreve os limites de cada um, regras e quais funções cada pessoa deve desempenhar.
Vale lembrar que por mais que algo esteja escrito no contrato, é necessário que as duas (ou mais) pessoas concordem com tudo o que está ali inteiramente.
Existem alguns tipos de contrato: a EPE (em tradução livre Transferência de poder na esfera erótica), em que a entrega de poder só valer no sexo; a PPE, que é a troca de poder parcial; e a TPE, que é a troca de poder total.
Nessas duas últimas, a pessoa submissa entrega ao dominador o poder em outras partes da sua vida, como acontece na relação de Sasha. No caso dela, o dominador tem aval para decidir, por exemplo, se ela pode sair sozinha ou não.
“Vivemos uma relação de poder parcial. Ele vai influenciar em diversos aspectos da minha vida, porém não totalmente. Existem alguns aspectos que eu tenho total autonomia como o meu trabalho [que está fora do universo BDSM], isso é algo que ele não pode interferir de forma alguma. Mas em outros que já concordamos antes, eu realizo do jeito que ele pedir. Uma das regras é: não posso sair para festas, bares e afins sem ele. Mas vejo isso como algo para me manter segura e evitar que outros homens me abordem”, explica.
O tipo de contrato escolhido por eles ainda conta com uma cláusula que permite que os combinados sejam revisados sempre que necessário. “Não é sobre a gente se apontar dedos, é sobre dizer como se sentiu. Então, vamos ajustando, porque às vezes na nossa cabeça tem coisas que parecem muito legais na imaginação e na prática é outra coisa”, reforça.
‘Ser submissa, é primeiramente, me agradar’
Sasha rejeita a ideia vinda do senso comum de que a mulher que vive o fetiche da submissão abre mão de sua liberdade para agradar um homem. Uma das premissas que a leva a dizer isso é que esse tipo de dinâmica não acontece só em relações heterossexuais.
“Se é uma mulher sendo submissa a uma outra mulher, ninguém diz que ela está fazendo isso para agradar a outra mulher. Na minha opinião, as pessoas não veem problema na dominação em si, mas sim por ser um homem na posição dominante”, reflete.
Ao mesmo tempo, Sasha entende que o estigma está ligado à forma como o patriarcado, historicamente, demandam a submissão de mulheres contra a vontade delas. O erro, ela diz, está em projetar esse passado em relações nas quais a pessoa escolhe, conscientemente, viver dessa forma.
“Um outro ponto é que os acordos que vivemos são muito mais respeitados do que os que são feitos numa relação baunilha. Quando não queremos realizar uma prática, existe a palavra de segurança. Nas relações fora do BDSM, isso normalmente não acontece”.
Para ela, fazer parte do universo BDSM é uma forma de viver seus desejos mais autênticos — ainda que, para isso, precise esconder essa escolha de familiares e conhecidos, como acontece no seu caso. “Viver a submissão é, primeiramente, me agradar. Acho que a gente não deveria ter tanto tabu para falar que gosta de servir e se entregar.” Apesar disso, não vê uma necessidade de enquadrar sua escolha como algo libertador ou empoderado só para se sentir aceita socialmente. “É sobre o prazer, minha satisfação e, em essência, assumir a missão de servir”, finaliza.









