Rita Lee, Tina Turner e mais: as mulheres do rock que falam abertamente de sexualidade
Seja nas músicas ou fora dos palcos, essas artistas conseguiram romper barreiras para as mulheres ao abordar temas como desejo, amor e prazer com autonomia e naturalidade
Mesmo que tenha sido criado por uma mulher negra (Sister Rosetta Tharpe, na década de 1930), o rock já foi visto como “coisa de homem”; não só, mas o gênero era dominado por eles, e mulheres que ousassem chegar perto de uma guitarra ou agir como rockstars eram vistas como subversivas — e eram mesmo.
Enquanto homens podiam cantar à vontade sobre sexo e mulheres (às vezes de forma questionável, para dizer o mínimo) e serem vistos como admiráveis, o mesmo não poderia ser dito pelas roqueiras, que ou eram sexualizadas ou consideradas promíscuas. Ao longo dos anos, no entanto, essa lógica começou a se inverter quando várias delas começaram (arduamente) a ocupar esse terreno e abrir espaço para que outras artistas femininas pudessem brilhar no gênero.
De pouco em pouco, elas arrombaram as barreiras com seus vocais poderosos, letras afiadas e são, até hoje, celebradas por colocarem no mapa do rock as vivências das mulheres. Nas mãos delas, o rock enquanto ferramenta política também ficou mais pulsante, com várias delas trazendo reivindicações de liberdade e autonomia para elas — inclusive sexual.
A seguir, Marie Claire relembra — e reverencia — roqueiras que usaram suas músicas, plataformas e mesmo suas vidas pessoais para tratar abertamente da sexualidade e do prazer de mulheres.
Joan Jett
É impossível falar da história do rock sem falar de Joan Jett, que foi quem conseguiu abrir vários espaços para que mais mulheres conseguissem não só tomar parte dentro do gênero, mas também viverem suas próprias verdades. Ela o fez logo no início ao integrar o The Runaways, banda dos anos 1970 formada apenas por mulheres, e seguiu com a postura aguerrida e cheia de marra na carreira solo — tanto no estilo punk rock quanto pela sonoridade e temas que aborda. Entre eles, Jett sempre se abriu para falar de sexualidade e prazer feminino.
Em várias entrevistas, ela, que é bissexual, já afirmou que mulheres devem ser donas da própria sexualidade (seja no palco ou fora dele), defendeu que mulheres no rock desafiem as normas de gênero e já até comparou uma mulher no rock como uma forma de ter agência sobre si mesmas — inclusive sexualmente.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Do You Wanna Touch Me (Oh Yeah) e Dirty Deeds
Patti Smith
Chamada de mãe da poesia punk, Patti Smith é uma das figuras mais autênticas do rock alternativo. Por anos fez parte da cena underground, em que popularizou o spoken word acompanhado de riffs frenéticos de guitarra — que hoje, por conta dela, são muito mais encontrados. Ela ainda abriu portas para falar de questões existencialistas sob a ótica de uma mulher, adotando uma estética andrógina e difícil de confinar em uma caixa só.
Toda a vida de Patti foi marcada pela busca por liberdade e por uma abordagem honesta sobre diversas questões de sua vida. Além das músicas, isso fica marcado em seus livros — principalmente Só Garotos (ed. Cia das Letras, 280 págs., R$ 89,90). Em várias ocasiões, a artista se mostrou não só aberta a falar normalmente sobre sexo, mas também o definiu como algo sagrado, uma demonstração forte de conexão emocional. Também disse que um orgasmo intenso é um jeito de se comunicar com uma força maior.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Gloria, Redondo Beach e We Three
Rita Lee
A rainha do rock brasileiro não poderia ficar de fora dessa lista. Afinal, ela não só não teve qualquer vergonha de falar de sexualidade e prazer feminino como o fez numa época de muita repressão, em meio à ditadura militar. Rita foi pioneira ao tratar de temas envolvendo liberdade e desejo — com as lentes sempre focadas em sua relação com Roberto de Carvalho, companheiro de vida e de trabalho. E de forma tão leve, mas ao mesmo tempo tão potente, conseguiu não só peitar o machismo dentro do rock, mas a caretice da sociedade de um país inteiro.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Amor e Sexo, Banho de Espuma, Mania de Você, Lança Perfume e Doce Vampiro
Joni Mitchell
Cantora, compositora e artista plástica, Joni Mitchell foi uma das vozes mais importantes de sua geração. Com sensibilidade, tom confessional e muita honestidade, ela conseguiu capturar a revolução social que acontecia nos Estados Unidos entre 1960 e 1970 — inclusive as transformações de gênero. Em sua música, ela explora a sexualidade de uma forma muito mais poética e política, mirando sempre no desejo por liberdade e no encorajamento para autodescoberta; ao mesmo tempo em que criticava o moralismo da sociedade norte-americana sobre as mulheres.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Chelsea Morning, Woman Of Heart and Mind, Down To You e todo o álbum Blue
Janis Joplin
A voz rouca e visceral, o visual hippie cheio de cores, o cabelão armado e a postura desaforada foram algumas das características que fizeram de Janis Joplin a rainha do blues e do rock. Com seu jeito irreverente, ao mesmo tempo melancólico, ela conseguiu trazer uma abordagem cheia de camadas para a sexualidade feminina, ao explorar temas como liberdade, desejo e tesão sem ter medo de ser colocada no centro de julgamentos. Vale lembrar que em seu período de atividade, nos anos 1960, a conversa social sobre libertação sexual estava voltando a engrossar — e Joplin, com certeza, foi um dos faróis que as mulheres tiveram naquele momento.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Piece of My Heart, I Need a Man to Love e Try (Just A Little Bit Harder)
Cássia Eller
Toda a carreira musical de Cássia Eller teve onze anos (porque foi interrompida pela morte dela, em 2001, aos 39 anos), mas já foi o suficiente para marcar seu brilhantismo no rock brasileiro para sempre. A postura nada feminilizada no palco, a voz andrógina e os posicionamentos que pregavam a liberdade foram marcantes para cantar os amores do Brasil, mas sobretudo fazer com que muita gente fosse plenamente vista.
Cássia era bissexual, vivia um relacionamento com Maria Eugênia e falava abertamente de suas experiências sexuais em plenos anos 1990. Inclusive, era desde aquela época uma grande defensora de relacionamentos não monogâmicos. Com ela, a sexualidade feminina voltou a ser visibilizada, e tanto sua vida quanto obra conseguiram fazer tremer as estruturas patriarcais e homofóbicas do Brasil.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Noite do Prazer, Rubens e Eles
Ann e Nancy Wilson (Heart)
Com grande influência do hard rock, as irmãs Ann e Nancy Wilson se uniram para criar o Heart, que chegou a seu auge nos anos 1980 tratando de assuntos como liberdade feminina e sexismo na sociedade e na música. Inclusive, já na época falavam sobre a dificuldade de serem vistas como musicistas sérias por serem ou sexualizadas, ou objetificadas.
O maior hit da banda, Barracuda, foi uma resposta a um homem que ironizou que as irmãs seriam, na verdade, namoradas. Ou seja: poderiam tentar freá-las, mas as duas não só seguiam firmes como respondiam à altura, sem medo. Por meio de suas obras e entrevistas, falaram em muitas ocasiões sobre sexualidade feminina de uma maneira acolhedora.
🔥 Destaques fogosos da discografia: All I Wanna Do Is Make Love To You e There's The Girl
Kate Pierson e Cindy Wilson (The B-52s)
Ao mesclar elementos do surf rock, letras irreverentes e uma estética mega colorida e completamente camp, o grupo The B-52s conseguiu se destacar no mainstream não só como uma banda queer, mas majoritariamente formada por pessoas LGBTQIA+. Por meio dos visuais performáticos, das letras e da postura fora do palco, os integrantes da banda borravam qualquer norma de gênero, e usavam de imagens e metáforas sugestivas para falar de sexo com humor. Parte do sucesso está em Cindy Wilson e Kate Pierson. Por mais que Wilson fosse reservada sobre sua vida pessoal, Pierson é abertamente bissexual e falou em muitas ocasiões de relacionamentos que teve com homens e mulheres.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Lava, Love Shack, Roam, Dirty Back Road e Private Idaho
Tina Turner
A rainha do rock n' roll era magnética, com uma presença de palco incendiária, figurinos belíssimos e imponentes e uma voz inconfundível. Tina Turner foi, talvez, uma das figuras mais importantes para falar de uma sexualidade liberta e empoderada. Parte de sua trajetória foi marcada pela violência doméstica e sexual — a qual foi submetida pelo ex-marido, Ike —, mas por meio de suas composições e postura destemida, não só conseguiu dar a volta por cima como se consagrou como um símbolo importante de empoderamento para as mulheres — em especial, mulheres negras. Para além disso, sua performance no palco era sempre carregada de uma sensualidade inerente e hipnotizante: Turner dançava, elétrica, com seus looks com muita pele à mostra, e se posicionava com assertividade, o que fazia com que muitos homens e mulheres caíssem a seus pés.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Private Dancer, Steamy Windows e What's Love Got To Do With It
Pat Benatar
Em uma época em que poucas mulheres conseguiam fazer uma carreira solo acontecer no rock, Pat Benatar conseguiu alçar voos enormes na década de 1980. Por mais que tenha sido categorizada como uma sex symbol para os homens, sua presença de palco destemida, o estilo punk e a voz potente e rouca a colocaram como um símbolo de liberdade para mulheres expressarem seus estilos e se empoderarem de seus desejos. Some isso às composições certeiras que, muitas vezes, debocha de comportamentos tóxicos dos homens em relacionamentos.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Sex As a Weapon, I Need a Lover e We Live For Love
Sinead O’Connor
Sinead O'Connor não foi só uma artista memorável de seu tempo, mas uma incansável ativista irlandesa. Destemida, não tinha medo, por exemplo, de falar em violência sexual (inclusive na Igreja Católica), body shaming, silenciamento de mulheres na música e sexo. Aliás, muito sexo. O'Connor falava abertamente sobre seus desejos e via a sexualidade como algo muito natural e importante para ela. Em 2011, por exemplo, ela lamentou que passava muitos períodos sem transar numa entrevista, e relacionava o sexo a algo sagrado. Antes de sua morte, em 2023, também falou com franqueza das mudanças em sua sexualidade enquanto envelhecia.
🔥 Destaques fogosos da discografia: todo o álbum How About I Be Me (And You Be You?)
Debbie Harry (Blondie)
Um dos rostos mais marcantes do New Wave, Debbie Harry liderou o Blondie com maestria. Com a postura provocativa de Harry, letras rebeldes e arranjos dançantes, a banda se tornou uma espécie de local seguro para conseguir abordar temas que empurravam diversas barreiras sociais, em especial de mulheres. A personalidade blasé de Harry, como quem diz o que precisa sem se importar com as críticas, fizeram dela uma grande inspiração para falar de desejo, sexo e amor.
Fora dos palcos, Harry é, até hoje, uma grande incentivadora para alavancar outras mulheres à música, direta ou indiretamente. Sem contar que a artista já falou incontáveis vezes sobre sua bissexualidade de forma aberta, honesta e bem humorada, numa tentativa de não só naturalizar outras identidades sexuais, mas para desestigmatizar e romper com a heterossexualidade compulsória e papéis de submissão.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Look Good in Blue, Call Me, Maria e Rifle Range
Kathleen Hanna
Figura fundamental do movimento Riot Grrrl, Hanna foi a fundadora do Bikini Kill, Le Trige e The Julie Ruin, bandas que levam em seu cerne a voz do movimento feminista sem rodeios, desafiando normas patriarcais (inclusive no rock, a cultura do estupro e culpabilização de vítimas de violência sexual e a tutela de homens sobre os corpos das mulheres, só para citar alguns temas. Hanna fez isso por meio das músicas, mas também de sua postura aguerrida para retratar a admiração entre mulheres, mas também a agência delas sobre seus próprios corpos, identidades e desejos.
🔥 Destaques fogosos da discografia: Sugar (de Le Tigre) e Feels Blind (de Bikini Kill)









