Sexo
Por
Isadora Marques
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo (SP)

Você já deve ter ouvido falar de homens que sentem tesão em ver suas mulheres transando com outros homens. São os famosos cuckolds. O fetiche em ser corno, que é motivo de orgulho para muitos, também pode ser desejo para elas: as cuckqueans. Algumas dessas mulheres gostam só de olhar. Outras preferem ouvir os relatos dos encontros. Enquanto Marina*, 30 anos, além de tudo isso, também gosta de participar. “Me descobri cuckquean depois da vontade de fazer sexo a três. Na primeira vez, já fiquei louca de tesão. É muito gostoso ver meu marido ‘comendo’ outra”, diz.

Sasha Cuck, 30 anos, conta que começou a sentir vontade de compartilhar os parceiros desde a adolescência. “Ainda não sabia da existência do fetiche e não era algo tão combinado como é hoje. Até gostava de ver meu ex com outras mulheres, mas ele tinha uma mania de incitar rivalidade entre elas e eu, o que não me deixava confortável”, compartilha.

Foi no seu relacionamento atual que Sasha se sentiu acolhida para explorar seu lado cuckquean de uma forma mais saudável. “Cheguei para ele e propus que a gente experimentasse. Fui atrás de uma pessoa e apresentei para ele. Foi algo bem diferente de como acontecia no passado, muito mais prazeroso.”

O que significa ser cuckquean?

Cuckquean é uma versão feminina do fetiche conhecido como cuckold. São mulheres que sentem prazer em ver ou saber que seus parceiros estão transando com outras parceiras.

Por mais que algumas gostem de serem chamadas de cornas, o fetiche não tem nada a ver com traição. “É tudo combinado entre o casal — e sim, a gente sente prazer de verdade, a ponto de ter orgasmos em assistir”, explica Sasha. Traição para elas é quando algo é feito fora dos acordos do relacionamento. Por exemplo: se o combinado é uma das partes poder sair com outras mulheres, está tudo certo.

Para a criadora de conteúdo adulto Nay Soprano, 25 anos, o que acontece é um tipo de role play. “É como se fosse uma falsa traição. É um joguinho em que estou vendo meu marido com outra, mas estou consentindo tudo.”

‘O ciúme vira uma sensação prazerosa’

Sasha conta que conhece mulheres que gostam de ser cuckqueans justamente por sentirem ciúmes dos seus parceiros. “É como se virasse o combustível para o fetiche acontecer. Tipo numa relação BDSM, em que as pessoas sentem prazer ao sentir dor. O ciúme vira uma sensação prazerosa.”

Diferente do cuckold, em que o homem que fará o papel de “amante” da parceira é colocado em posição dominadora, no cuckqueaning não existe uma regra fixa. As mulheres que transam com homens comprometidos com consentimento da parceria são chamadas de cakes — e não vão necessariamente assumir o papel de dominantes na cena.

Algumas podem ser passivas, interagir com a cuckquean ou seguir as orientações que ela dá durante o sexo. Há quem goste de assumir uma posição mais dominadora e provocativa, chamar de corna e partir para uma humilhação erótica, como já aconteceu com Sasha: “Uma vez, uma cake perguntou se poderia me bater na hora, mas não permiti. Não curto esse tipo de interação ou xingamentos”, conta. O papel da cake varia de acordo com o que for acordado entre os três e o que cada um está disposto a fazer.

Para ser cuckquean, os acordos são essenciais

No fim das contas, o cuckqueaning é sobre criar uma experiência conjunta, baseada no desejo compartilhado — e isso não exige que nenhuma das partes siga um roteiro fixo. Se há algo que define essa prática é a liberdade de explorar os limites com respeito, transparência e tesão. Para tudo funcionar, são necessários acordos, regras e muito consentimento envolvido.

No caso de Nay, há duas regras principais: ela não gosta de presenciar o parceiro transando com outra, e ele não pode fazer sexo com a mesma mulher mais de uma vez. “Só prefiro saber de tudo, das conversas, onde e quando vai ser, gosto até de escolher a roupa dele”, conta.

“Outra regra é que todas as transas precisam ser gravadas para eu assistir depois. Uso para me masturbar. Sinto como se estivesse admirando uma obra de arte. Tenho muito tesão em ver a pessoa que amo sentindo prazer e saber que eu estou proporcionando esse momento para ele”, diz Nay.

Marina diz que ela e o marido não têm um acordo super restrito. Ela costuma sair e se encontrar com as mulheres antes, e só depois adiciona o marido na equação. “Sempre usamos camisinha e só aceito que ele goze dentro de mim. Ele também não pode ter contato com as mulheres antes e depois da relação”, descreve.

Já Sasha tem uma vivência bem diferente das duas. Além de cuckquean, ela também se considera submissa dentro da relação. Há um contrato geral que dita os pilares da sua relação com seu parceiro dominador. Mas, para as relações com uma terceira pessoa, os dois costumam conversar antes de cada date. “Chamamos esse período de negociação. A gente senta e expõe o que cada um está com vontade de fazer e até onde estamos dispostos a ir. Depois, conversamos com a outra pessoa e alinhamos as expectativas”, explica.

Mesmo que não participe sempre do sexo junto com o parceiro, Sasha faz questão de estar sempre presente para assistir. Além disso, gosta de “dar uma mãozinha” na hora H. “Fico disponível para pegar uma camisinha ou um lubrificante se ele pedir. Se ele quer fazer alguma coisa com a outra mulher e precisa que eu ajude a segurar o corpo dela, seguro. Mas tudo isso sempre com o consentimento da terceira pessoa”, explica.

‘Sou cuckquean porque gosto, não porque meu casamento não vai bem’

Tudo que envolve sexualidade feminina acaba sendo alvo de vários julgamentos, preconceitos e uma boa dose de desinformação. Quando se trata do cuckqueaning, os estigmas crescem ainda mais, especialmente para quem vê o fetiche de fora.

Marina diz que sempre escuta piadinhas de pessoas que dizem que o marido vai trocá-la por outra mulher, ou que ela vai querer que ele fique com outro homem.

“Tem gente que acha que, só porque gostamos disso, nosso casamento está em crise ou estamos tentando salvar a relação. Sou cuckquean porque gosto, não porque meu casamento vai mal. Muito pelo contrário, transamos muito juntos, temos muito diálogo e parceria”, afirma Marina.

Outro julgamento comum, segundo Sasha, é que as mulheres que se identificam como cuckqueans estariam, de alguma forma, reforçando o machismo. Para ela, essa crítica parte de um olhar raso e sem fundamento. “As pessoas vêm com esse discurso, presumem que a mulher não está tendo prazer com o fetiche. Ninguém pergunta se isso é uma escolha nossa. Faço porque gosto. É uma decisão minha”, comenta.

O cuckqueaning, como qualquer outro fetiche, carrega particularidades que nem sempre são compreendidas por quem não faz parte do universo. A regra é sempre a mesma: desde que haja consentimento genuíno, todas as formas de vivenciar o prazer são dignas.

Sasha deseja que o mesmo respeito deve ser estendido às cakes. “Não é porque elas topam sair com um cara comprometido, com a presença e consentimento da parceria, que estão erradas. Além do tesão que elas sentem, também ficam mais seguras por estarem na presença de outra mulher, numa dinâmica com acordos bem definidos”, pontua Sasha.

Para Nay, viver a experiência como cuckquean mudou totalmente a forma como enxerga a própria sexualidade. “A gente cresce cheio de regras, tabus impostos pelas gerações mais antigas. Mas, quando você se escuta de verdade, entende que o sexo é liberdade. Daí, começamos a viver nosso prazer com mais intensidade.”

*O nome foi alterado para para preservar a identidade da personagem

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