‘Gostava de transar com pessoas amarradas’: conheça o shibari, prática artística que causa tesão e relaxamento por cordas
Mais do que uma prática erótica, o shibari é uma arte de entrega, conexão e prazer que transforma o corpo e a mente. Marie Claire conversou com mulheres praticantes do shibari que contam como a prática beneficia suas vidas (dentro e fora da cama)
A artista visual Akira Nawa, 37 anos, se apaixonou pelo shibari há 16 anos, quando foi apresentada à prática por uma ex-namorada dominatrix. “Comecei com o rope-bondage e para mim tinha um intuito totalmente sexual. Gostava muito de transar com as pessoas amarradas. Depois de um tempo aprendi o que era shibari e passei a usar como uma forma de expressar minha sexualidade”, relembra.
Para algumas pessoas, o primeiro contato com o Shibari acontece por meio de uma curiosidade erótica. Muitas vezes, esse início se dá pela prática do bondage — prática que envolve a restrição de movimentos com uso de algemas, cordas ou qualquer outro elemento que imobilize — antes de evoluir para o shibari. Como foi o caso de Akira, que é hoje uma das principais referências em shibari no Brasil.
Com o tempo, a curiosidade virou encantamento e Akira decidiu que queria estudar mais o tema. Na época que começou, não teve muita sorte em encontrar pessoas ensinando shibari no país. “Precisei optar por um curso por correspondência de um cara britânico para me aperfeiçoar”.
Em 2017, inaugurou o primeiro estúdio de shibari do Brasil, chamado Estúdio Karada, que ficava no Rio de Janeiro. Até que, em 2024, abriu em São Paulo o Espaço Shibari, onde atua desde então.
O caminho de Mari Rezlivre, 29 anos, até as cordas do shibari, surgiu depois de fazer um workshop que ganhou de presente há dois anos. “Foi a primeira vez que encostei numa corda de juta [tipo de corda utilizada no shibari]. Já conhecia um pouco da estética, mas foi lá que me apaixonei de verdade”, conta. “Amo as marquinhas que ficam depois. Os beijinhos de corda, como chamamos, são muito bonitinhos”.
Depois disso, ela comprou suas próprias cordas e começou a praticar com mais frequência. “Resolvi começar a postar no Instagram o que estava aprendendo, e as pessoas vinham atrás de mim para que eu ensinasse. Não me sentia pronta pra isso na época”, diz Mari.
Mais tarde, surgiu a ideia de criar a sua versão do Atados do Parque — eventos de shibari organizados por adeptos em todo o país — em Belo Horizonte e chamar pessoas com mais experiência para participar com ela. “No nosso último evento, reunimos mais de 40 pessoas.”
Segundo Mari, o shibari trouxe diversas transformações para sua vida, especialmente nas relações interpessoais. A maior mudança veio da conexão com a comunidade que encontrou nesse universo. “Na minha vida pessoal, romântica e social, o shibari mudou tudo. Foi onde me senti pertencente”, afirma.
O que é shibari?
O shibari é uma arte de amarração com cordas que vai além da restrição física: se trata de uma forma de expressão erótica artística e de conexão sensorial.
A palavra shibari vem do verbo japonês que significa “amarrar” ou “prender”, mas a prática vai muito além disso. Suas origens vêm do hojojutsu — técnica usada por samurais para imobilizar prisioneiros. Com o tempo, o shibari se transformou em uma linguagem corporal com grande apelo estético, que valoriza e explora vários pontos do corpo por meio de nós e tensão das cordas.
Não é qualquer corda que pode ser utilizada no shibari. O tipo de corda mais usado é a de juta ou de algodão, por serem mais confortáveis na pele.
As amarrações podem variar desde nós bem simples até alguns mais complexos, que ressaltam os contornos do corpo. Podem ser usadas de forma performática, meditativa ou sexual. Além disso, as sessões são realizadas em suspensão total, parcial ou no chão.
Shibari tem a intenção de causar dor?
Por mais que o shibari seja amplamente praticado por pessoas do universo BDSM, a técnica por si só não causa dor. A suspensão, por exemplo, costuma doer, mas não se trata de uma dor aguda, e sim de uma pressão intensa.
“O shibari trabalha muito com o processo do desconforto e da dor. Se criam desafios para vencer o desconforto de certas posições. É recompensador quando você consegue. Vem uma sensação de alívio muito gostosa depois”, explica Akira.
Tudo vai depender da forma como a sessão é conduzida. Pode ser uma abordagem mais sensual e erótica, fraternal e carinhosa — conhecida como Aibunawa — ou ainda por uma linha intensa e sadomasoquista — chamada de Semenawa.
Cada estilo vai provocar sensações diferentes e pode ser adaptado conforme o desejo, limites e acordos entre as partes envolvidas.
“Curto bastante um lado humilhante também. Brincadeiras com o pé, ser subjugada... É bem divertido”, diz Mari. “Já fiz uma amarração de mamilo, que foi bem dolorida, mas deliciosa”, revela.
Amarrar ou ser amarrada?
Dentro do shibari, assim como em outras práticas do BDSM, você pode escolher amarrar ou ser amarrada.
Quem amarra é conhecido como rigger ou top (o equivalente ao lado dominador) e quem é amarrada é chamada de rope bunny ou bottom (o equivalente ao lado submisso).
Mari se considera switcher, tanto no BDSM como no shibari. Isso significa que se sente confortável em ambos os papéis. “Acho que as cordas trazem vulnerabilidade tanto para quem é amarrada quanto para quem amarra. Aprendi isso quando comecei a praticar a auto amarração. Foi uma forma de me conectar comigo mesma e ter um momento com o meu corpo”, comenta.
Akira diz que gosta muito dos dois lados, mas, por conta da experiência dela, as pessoas acabam se sentindo intimidadas para amarrá-la. “Mas quando acontece, só de passar a corda em volta do meu corpo, já desligo e viajo. Porque já sei chegar num lugar para ter prazer com as cordas muito fácil”, conta.
Já quando está no papel de rigger, Akira afirma que precisa estar com o nível de consciência alto, por estar responsável pela integridade física de uma outra pessoa. Beber em sessões, por exemplo, é estritamente proibido para qualquer um.
“Antes de qualquer sessão, pergunto se tem lugares que a pessoa não gostaria que fosse amarrada ou tocada e que tipo de condução a pessoa prefere. Isso vai ajudar muito a entrar num estado alterado de consciência”, diz.
Inclusive, em suas sessões para iniciantes, Akira gosta de começar com um tipo de amarração relaxante e que ajude na entrega. “Ela se chama Jiai e também é conhecida como Amarração do Auto Amor. Nela a pessoa fica com os dois braços para frente como se estivesse se abraçando. É uma amarração que traz um acolhimento maior. Você pode ficar nessa posição de conexão consigo mesmo por horas, já que ela não tem perigo de lesões”, ensina.
Sensações e efeitos emocionais do shibari
O que mais chamou atenção de Mari no shibari foi o sensorial das cordas, enquanto que, para Akira, foi perceber que era possível chegar num estado alterado de consciência.
No caso da modelo Amanda Stefanone, 31 anos, o que enche os olhos é a beleza das amarrações. “Achava tudo muito lindo. No começo, fui com a cabeça de que seria algo mais sexual, mas o shibari se tornou mais performático e meditativo para mim”, diz. “Me amarro para reconhecer diferentes sensações do meu corpo.”
Amanda reforça que a entrega que o shibari propõe faz com que os seus sentimentos sejam aprimorados. “O shibari me proporcionou uma abertura a um lugar mais vulnerável que antes não era familiar para mim, nem para o meu corpo e nem para a minha mente. Aos poucos, se tornou uma experiência íntima para mim mesma”, comenta.
Ela relata que, quando está sendo amarrada, sente como se estivesse oferecendo uma parte muito bonita de si para a outra pessoa. “Gosto de ser olhada nos olhos, ser tocada com cuidado, mesmo que haja mais intensidade no toque. O cuidado é sempre muito importante”, diz Amanda.
Como usar o shibari no sexo?
Akira explica que você pode usar o shibari para transar. É possível combinar a prática com vibradores, dildos, sugadores ou outros brinquedos. “É muito divertido quando o estímulo genital é mesclado com o das cordas”, afirma.
No entanto, ela observa que esse tipo de prática não é tão comum entre os adeptos quanto se imagina. “O shibari é uma experiência feita para se sentir no corpo todo. Quando se concentra a atenção só no genital, perde um pouco da proposta da prática”, pondera.
Mesmo assim, ela indica maneiras criativas para unir as duas coisas. “Dá para se amarrar de uma forma e deixar o vibrador funcionando preso no corpo da pessoa. É muito divertido.”
Mari viveu uma situação intensa envolvendo amarrações e um vibrador em uma festa de shibari que costuma frequentar na sua cidade. “A ideia era ser uma performance interativa. Eu estava amarrada em um bambu, vendada e usando um vibrador por controle remoto. O controle ia passando na mão de todas as pessoas que estavam ali e eu não conseguia ver quem estava mudando as vibrações. Foi uma performance muito gostosa de fazer”, lembra.
É possível ter um orgasmo só com o toque das cordas do shibari?
Akira ressalta que, para muitas pessoas, o próprio ato de ser amarrada já é suficiente para causar prazer e até orgasmos sem estímulos genitais diretos. “É um tipo de orgasmo gerado pelo corpo e pela mente”, conta.
Segundo ela, pessoas mais sensíveis e com alguma experiência com sexo tântrico conseguem chegar lá com mais facilidade. Ainda assim, é algo acessível a qualquer pessoa, desde que exista entrega. Tudo vai depender do processo interno de cada um. “Não é só o shibari que vai levar a pessoa ao orgasmo. O sensorial da corda deslizando na pele e o aperto são como uma sugestão para a pessoa sentir algo e ir para algum local dentro da mente”, ressalta Akira.
Como praticar o shibari com segurança
Por mais que o shibari não seja considerado uma prática perigosa, existem alguns riscos aos quais as pessoas iniciantes devem ter atenção.
“Em primeiro lugar, você não deve começar a amarrar alguém sem ter um mínimo conhecimento sobre segurança. Não é simplesmente comprar uma corda na loja de material de construção e amarrar o parceiro na cama”, afirma Akira.
É fundamental estudar sobre anatomia para saber quais lugares do corpo não podem receber amarrações. “O pescoço, articulações e os nervos que ficam expostos como o nervo radial [parte superior do braço], que é responsável pelos movimentos do punho e do polegar, não devem ser amarrados pois podem causar lesões e sequelas sérias”, alerta Akira.
O consentimento também é muito importante. Conversar antes de começar é primordial para combinar tudo o que vai acontecer antes de amarrar a pessoa. Principalmente se as intenções envolverem sexo ou algum toque mais íntimo que não tenha sido conversado previamente.
“Não adianta perguntar se a pessoa topa fazer outras coisas que não foram acordadas depois que ela já está amarrada. Além de estar numa posição vulnerável, ela poderá dizer sim para algo que ela não quer por estar num estado mental alterado.”
Se decidir começar a praticar o shibari, o ideal é procurar alguém profissional, tanto para estudar quanto para se amarrar pela primeira vez. “O shibari é delicioso de muitas maneiras. Mas é preciso ter paciência para aprender antes de praticar. É um processo demorado, mas garanto que vale a pena”, finaliza Mari.









