O que é ser switcher no BDSM? Conheça quem vive entre a dominação e a submissão: ‘O melhor dos dois mundos’
No BDSM, nem tudo precisa ser oito ou oitenta: os switchers quebram estereótipos e mostram que é possível se divertir sem escolher um papel fixo. Marie Claire conversou com duas pessoas que alternam entre submissão e dominação para proporcionar e sentir prazer
Diferente do que se imagina no BDSM, nem sempre é preciso escolher entre dominar ou obedecer. Existem pessoas que gostam de transitar entre os dois lados do jogo: são os switchers, que não se limitam a papéis fixos e sentem prazer tanto em assumir o controle quanto em se entregar durante as dinâmicas.
O produtor de eventos Yultã Nutoj, 26 anos, acredita que sua vivência enquanto pessoa pansexual e não binária foi o que o motivou a explorar mais de um lado da moeda. “Sempre tive essa tendência de querer viver os dois lados. Porém, sinto que tenho mais questões para me submeter do que para dominar, talvez por conta de questões de gênero. Não tenho tanto conforto e segurança em me submeter a homens cis como tenho com as mulheres, por exemplo”, explica.
Yultã é o nome pelo qual elu prefere ser chamado quando está sob a persona dominadora. Os apelidos ou nomes fictícios vão além de puramente esconder a própria identidade fora do fetiche: na verdade, são uma forma de ativar gatilhos mentais que ajudam na performance de quem é switcher. “Yultã tem origem do noruegês Jotun, que significa ‘gigante de gelo’. Esse nome desperta em mim o desejo de performar uma presença mais autoritária, firme e imponente”, explica. “Quando sou submisso, geralmente uso o apelido Pingo, que tem uma sonoridade fofa e me coloca num estado mais vulnerável.”
Quando a jornalista Fernanda Bonfim, 27 anos, entrou no universo do BDSM e começou a estudar sobre as práticas, já tinha uma leve ideia de qual papel desempenharia. O lado da submissão e o masoquismo foram as primeiras coisas que chamaram sua atenção. “Sentia que como bottom, eu poderia ter uma folga de todas as responsabilidades e preocupações que nós, mulheres, temos no nosso dia a dia. Estamos sempre resolvendo coisas, perguntando, organizando... A submissão surgiu como uma prática em que eu podia simplesmente me entregar e aliviar a pressão”, conta.
Foi numa conversa com um dominador que surgiu a curiosidade de experimentar e descobrir como se sentiria do outro lado. “Comecei a praticar a dominação e percebi o quanto é possível explorar a criatividade. Sadismo não é só sobre causar dor. É pensar em como os acessórios e os estímulos que você faz provocam reações. Ser a pessoa que cria esse tipo de sensação em alguém é muito gostoso”, diz Fernanda.
Para ela, ser switcher é “unir o melhor dos dois mundos” e ter a possibilidade ampla de atuar da forma que se sentir mais à vontade no momento.
O BDSM na vida de Fernanda vai além dos jogos: foi objeto de estudo do seu mestrado, que inspirou a criação do Censo Fetichista — iniciativa que reuniu dados sobre as práticas, com mais de 700 praticantes de todo o Brasil. A pesquisa, desenvolvida pelo Centro de Referência Cetim (do qual é uma das fundadoras), tornou-se combustível para a criação de conteúdo educativo sobre o universo fetichista nas redes sociais.
Acostumados a vê-la em vídeos assumindo a posição dominadora, os seguidores dela muitas vezes se surpreendem ao saber que Fernanda também é submissa. “Isso cai muito nos estereótipos do que é dominar e se submeter. Não existe um manual, você pode se comportar de muitas formas. Acho que quando se tem o primeiro contato com o BDSM, não dá para imaginar o quão flexível tudo pode ser”, reflete.
O que é ser switcher no BDSM?
Ser uma pessoa switcher é sentir prazer em atuar como dominador (também chamado de top) ou submisso (bottom). Ou seja, ser switcher é aplicar as práticas, mas também recebê-las. Isso não significa que a mudança de posições vai acontecer ao mesmo tempo ou numa mesma sessão, mas existe a possibilidade de alternar entre um dos dois lados.
Para Yultã, ser switcher é muito valioso para aprimorar suas percepções dentro do BDSM. “Dá pra fazer uma sessão enquanto top mais interessante, e complexa quando você já experienciou a mesma dinâmica como submisso. Você vai saber qual é a sensação que está proporcionando a outra pessoa”, explica.
Porém, ressalta que isso não é uma regra. “Você pode ser um excelente top, mesmo que você não tenha se submetido em algum momento. No entanto, acho delicioso transitar entre os dois”, diz Yultã
Qual é a sensação de estar dos dois lados da dinâmica?
Por mais que switchers sintam prazer tanto em conduzir quanto em ser conduzido, cada papel oferece uma vivência única, que desperta sensações diferentes. Para Fernanda, a primeira coisa que muda é a mentalidade que ela precisa adotar.
Quando ela está no papel de dominante ou sádica, por exemplo, explica que precisa manter a atenção redobrada e assumir uma postura de total responsabilidade. “Penso o tempo todo: ‘Isso está sendo feito certo? Qual é a reação que a pessoa está tendo? Até onde preciso aliviar a intensidade?’ Já quando estou no papel de submissa, posso simplesmente me entregar”, descreve.
Isso não quer dizer que o bottom não precise estar alerta aos próprios limites. A diferença, segundo Fernanda, está justamente na possibilidade de quem se submete poder se permitir entrar em um estado mental alterado.
Yultã cita a confiança como o grande prazer que envolve os dois lados das práticas. “Quando domino, é muito bom pensar que a pessoa está fazendo tudo aquilo porque confiou em se entregar para mim. Se a pessoa está lambendo o chão foi porque eu mandei. Naturalmente, em nenhuma outra ocasião ela faria isso.”
No lado da submissão, o prazer está na sensação de merecimento dos estímulos que recebe do dominador; além da possibilidade de prover o que é mandado. “Gosto muito de me sentir útil a quem me domina”, diz.
Os limites e preferências de um switcher podem variar conforme o papel que se está desempenhando. Fernanda explica que há práticas que prefere conduzir quando está como top, e outras que só gosta de viver como bottom. “Gosto de podolatria, mas prefiro estar como dominadora. Adoro ter meus pés estimulados, mas não gosto tanto de interagir com os pés de outras pessoas, por exemplo.”
Como funciona a dinâmica de switcher?
No BDSM, as dinâmicas só funcionam na base da negociação, inclusive para decidir quem vai desempenhar qual papel em cada sessão ou dentro de uma relação fixa.
Yultã, que é não monogâmico, tem uma relação fixa de parceria de jogo com a dominatrix Lunna Queen, em que só atua como bottom. Isso porque Lunna, ao contrário delu, não é switcher: ela assume somente o papel de dominadora. É com outras parcerias que pode adotar papéis mais flexíveis.
Em uma outra situação, Fernanda se relacionou com um casal em que o homem era sempre dominante, e a mulher, sempre submissa. Ela se posicionou no meio disso: era submissa com o marido e dominadora com a esposa. “Ou seja, conseguia viver os dois papeis em uma mesma sessão, mas com pessoas diferentes.”
Como os switchers são vistos pela comunidade BDSM?
Por mais que Yultã nunca tenha tido sua postura versátil descredibilizada, elu observa que há invalidação dessa vivência, sobretudo na internet. “Parece muito com a invisibilização da bissexualidade. São argumentos muito parecidos: ‘Não existe switcher, você só tá confuso’, ‘Em algum momento você vai virar um ou outro’”, compara.
Assim como a bissexualidade — ou qualquer forma de vivência que não se prende ao binarismo — ser switcher é uma identidade válida dentro do BDSM. Mesmo que passe mais tempo atuando como dominante ou como submisso, isso não apaga a existência das preferências de cada um, apenas reflete contextos e desejos do momento.
Fernanda também teve a sorte de não ter a sua vivência questionada por outras pessoas. O que costuma acontecer com ela é a definição do papel que vai assumir na fase de negociações. “Algumas pessoas já me disseram que não gostariam de me ver enquanto submissa, somente dominadora. Não vejo problema. Faz parte dos acordos.”
“Poder brincar com as possibilidades como switcher é muito divertido. Independentemente do papel ou da responsabilidade que assumimos em cada situação, existe uma sensação quase mágica que faz o mundo lá fora sumir. Tudo o que importa é o que está acontecendo ali — uma experiência intensa e profundamente prazerosa”, completa.









