Sexo
Por
Isadora Marques
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo (SP)

Sempre achei que um orgasmo potente nasce da junção de uma atração quase elétrica entre dois corpos e os estímulos feitos nos lugares certos com bastante vontade.

Dito isso, me surpreendi quando uma terapeuta sexual, com quem não tinha nenhum vínculo, me fez chegar no orgasmo mais intenso da minha vida, um tipo que até então, era desconhecido para mim. O que prometia ser uma experiência meramente orgástica se tornou uma grande reflexão sobre a minha sexualidade.

Tudo aconteceu por detrás de um portão amarelo no Itaim Bibi, um dos bairros mais caros de São Paulo. Um cenário comum, com paredes de tons vivos de amarelo e rosa. É lá onde funciona a Nana Tantra, um espaço focado em sessões de terapia sexual holística. Quem me recebe é Silvana-Nana, a dona da casa. Ela sorri com tranquilidade.

Nana atua exclusivamente com educação sexual e com o que chama de terapia holística orgástica. Seu trabalho, como define, é ajudar pessoas a se reconectarem com a energia do prazer.

Para ela, respondo sobre minha relação com o orgasmo, como sinto minha energia sexual e quanto tempo faz desde minha última transa.

Estou ali para experimentar a OM’15 e receber uma massagem orgástica. As duas podem ser feitas tanto a sós quanto acompanhadas para desenvolver a energia sexual em conjunto. O preço das sessões começa em R$ 390, e o curso para casais — que engloba vários encontros — pode chegar a R$ 1.270

Como lidar com uma pessoa desconhecida tocando seu corpo?

Fico receosa quando entendo que a massagem incluiria toques genitais. Como eu me sentiria sendo tocada por uma pessoa que acabei de conhecer?

Não que eu seja uma completa puritana. Já vivi aventuras em nome do tesão. Falta de orgasmo nunca foi um problema desde que comecei minha vida sexual, aos 20 — apesar de ter demorado algumas transas até ter um que fosse realmente intenso. Sempre me envolvi com pessoas que se preocupavam com meu prazer.

Por outro lado, o desafio está na relação com meu corpo. O tamanho dele já me impediu de me soltar completamente no sexo.

Não me sentia digna de ser desejada, nem de ousar em posições diferentes, porque pensava em coisas como “E se minha barriga balançar quando eu ficar por cima?”. Essa insegurança fez com que eu perdesse a virgindade alguns anos depois da maioria das minhas amigas.

Já a masturbação sempre foi natural. Começou quando nem sabia o que estava fazendo. Era uma sensação gostosa, quase instintiva, que buscava antes de dormir. Não tinha nenhum apelo sexual, mas para ter um momento meu, de aconchego e relaxamento.

Junto dos questionamentos e da dúvida vem uma curiosidade enorme. Me sinto quase uma Jane Sloan, uma das jornalistas que protagonizam a série The Bold Type. Ela embarca sem medo em várias aventuras consideradas esdrúxulas pela maioria das pessoas — tudo em nome de uma boa reportagem. Me pergunto também: “O que Glória Maria faria nessa situação?”

O roteiro do orgasmo

Entro numa sala de massagem aquecida, iluminada por tons vermelhos. Tiro a saia e a calcinha. Deito num colchão forrado com uma manta térmica, com a vulva coberta por uma toalha.

Ouço um mantra ao fundo. Não consigo olhar para Nana, prefiro fechar os olhos. Partimos, então, para a OM’15.

Nana diz ser a pessoa responsável por trazer a OM’15 para o Brasil. O nome vem do inglês Orgasmic Meditation, e os números indicam a duração de 15 minutos. É uma técnica de meditação que trabalha a consciência corporal para perceber os sinais que o corpo dá quando o orgasmo está vindo.

Ela me conduz com cuidado: pede para abrir mais as pernas, soltar o quadril, ajustar o joelho. Antes de me tocar, faz uma leitura da minha vulva. Me descreve seu formato e texturas.

A confiança entre nós cresce, e a estranheza de ter minha vulva exposta vai diminuindo. O primeiro toque começa nas minhas coxas e, lentamente, sobe para perto da virilha. Meu corpo reage imediatamente.

Nana acaricia minha vulva com a palma da mão e dá atenção completa à ela. Movimentos circulares, ritmados e suaves são feitos, e a intensidade muda conforme as respostas do meu corpo. Espasmos surgem de forma involuntária, o calor se espalha — tanto o da manta quanto do toque.

Minha expectativa pelo toque no clitóris só cresce, até que quando ele acontece, me sinto estranha. Mas logo consigo aproveitar bem os estímulos.

Sinto o orgasmo se aproximar algumas vezes enquanto Nana explora toda a vulva. O clitóris fica de lado por um tempo. Ela percebe o clímax chegando, mas mantém a mesma frequência, sem acelerar nem intensificar nenhum toque. Depois, ela me contaria que, ao contrário do que todo mundo pensa, a chave para o orgasmo está em manter os movimentos em vez de intensificá-los.

Os quinze minutos passam lentamente. Fim do primeiro ato. Estou em um estado de quase transe — mesmo com todos os sentidos aguçados, ao mesmo tempo é difícil sair desse espaço de relaxamento em que mergulho.

Nana me desperta, conversa comigo, pergunta o que sinto. Tento explicar — como faço agora —, mas na hora me faltam palavras.

Um orgasmo que cabe nas pontas dos dedos

Partimos para a massagem orgástica. Digamos que é um complemento à meditação: busca expandir o autoconhecimento do corpo, liberar possíveis tensões que impeçam de sentir prazer — ansiedade de desempenho, estresse e questões emocionais ou traumáticas —, transformar a entrega no sexo e relaxar profundamente.

Pergunto se não é a mesma coisa que uma massagem tântrica. Nana confirma que as funções e benefícios das duas são iguais. A diferença está apenas no nome. “As pessoas costumam virar a cara quando falamos em Tantra. A palavra ‘orgástica’ é mais atrativa”, ela diz. Isso faz diferença, já que algumas pessoas tendem a associar que existe sexo na massagem tântrica, o que não é verdade.

Como a massagem orgástica envolve toques em todo o corpo, Nana me diz que ela contribui com aumento de autoestima e libera emoções reprimidas por meio do orgasmo. No começo, fico cética. Jamais imaginei que esses dois casos poderiam ser meus. Mas eram.

Nana pede que eu tire o restante da roupa — “a experiência funciona melhor com o corpo totalmente nu”, diz — e me deito de barriga para cima.

Chegamos ao que, para mim, é uma das melhores partes: o toque sensorial. Com a ponta dos dedos, ela explora cada centímetro de pele do meu corpo de um jeito leve, suave e demorado.

Penso em como esse tipo de estímulo nunca foi comum em minha vida. Não sei se é porque nunca comuniquei que gostaria de sentir isso, ou porque as pessoas normalmente não se importam em explorar outras zonas erógenas no sexo. Ao menos, não com paciência ou desejo genuíno.

Um simples toque na nuca faz meu corpo arder. Descubro que meu lado esquerdo é mais sensível, meu canal vaginal é curto — o que derruba aquele mito de que “só um pênis grande me faria gozar” e explica porque sempre fui feliz com pênis medianos — e que, por mais que o clitóris seja uma estrela, estímulos ao redor dele me agradam muito.

Por falar no clitóris, descubro novas formas de estimulá-lo. Ele é pinçado com os dedos enquanto a vulva é massageada com a mão aberta e esfregado com as costas dos dedos — o que me deu um prazer intenso. Tudo isso sem ser penetrada, até agora.

Nana se acomoda perto de mim e me pergunta se tenho algum problema com esse tipo de proximidade. Respondo que não. O contato pele com pele me faz sentir acolhida. Me esforço para não pensar nela como alguém que está ali para me dar prazer, mas sim como uma guia da minha experiência.

Não quero despersonalizá-la como profissional, e busco separar o prazer que sinto de um desejo sexual direto por ela — em algum momento, é natural que surja a vontade de tocá-la de volta.

Depois, pergunto à ela se já viveu situações desconfortáveis nesse sentido. Alguém já borrou os limites ou desenvolveu alguma atração? “Alguns homens que atendo costumam perguntar se podem me tocar ou partir para o sexo depois. Deixo claro que não faço isso e corto na hora.”

Ela pede para deixar os sons saírem — gemidos, suspiros, qualquer barulho que viesse junto da respiração. No começo, reajo mecanicamente. Tenho vergonha e, mentalmente, respondo que não quero fazer isso. Mas aos poucos os gemidos se tornam inevitáveis. Meu corpo treme. Às vezes, Nana leva as mãos para perto do meu coração, nos seios. É uma maneira de conduzir a energia para o alto e fazê-la circular pelo corpo todo.

Só agora o vibrador entra em cena. É uma varinha mágica, o preferido de Nana, já que as vibrações percorrem toda a vulva ao mesmo tempo. Sei que vou gozar a qualquer momento. Quando chego lá, agarro com força o lençol. É uma sensação tão explosiva que meu cérebro não a entende. Quero pedir que Nana pare, ao mesmo tempo em que quero que continue.

A massagem termina. A próxima memória que tenho é de mim mesma me olhando no espelho. No meu corpo nu, vejo uma beleza gigantesca e sinto uma conexão intensa. Enxergo que esse corpo que admiro é o mesmo corpo que, às vezes, trato com tanto desrespeito.

Reflito: Por que sentimos tanto pudor e vergonha do nosso corpo? Falo isso como uma mulher gorda que, tantas vezes, já sentiu constrangimento ao ficar pelada na frente de alguém. Sempre achei que a outra pessoa gostaria de ter uma visão diferente de mim, não aquela que eu apresentava.

Visto as roupas. Nana me abraça e me orienta a fazer, ao menos, uma segunda sessão. A explicação dela é que nenhuma massagem orgástica é igual, e seria interessante entender outras nuances que ela pode proporcionar.

Pego um táxi. Ainda sinto que vou gozar a qualquer momento. O balanço do carro, com minha vulva e meu clitóris tão sensíveis roçando no banco traseiro, parece um estímulo a mais. A tremedeira toda só desaparece por volta das 18h — minha sessão com Nana foi às 11h. Ao longo dessas horas (e depois delas) resolvo diminuir o uso dos vibradores e só me masturbar com as mãos. Quero aprender a aproveitar o momento em vez de ir direto ao orgasmo.

Minha energia sexual se manteve alta por umas duas semanas. Passo os próximos dias com a libido lá em cima, e tenho vontade de me tocar todos os dias. Ao mesmo tempo, sinto que passo a olhar meu corpo de forma diferente, com mais carinho.

Quantos sentimentos cabem num orgasmo?

Um mês depois, volto à mesma sala de massagem. As dúvidas da primeira sessão dão lugar a uma expectativa altíssima. Quero sentir tudo de novo. Mas minha energia sexual não era a mesma.

Para contexto: na primeira vez em que estive aqui, vivia uma pseudo relação que tinha certeza que acabaria em sexo. Desta vez, deito na manta térmica com a frustração da transa que não se concretizou. A massagem me leva para um lugar diferente. Por mais que meu corpo esteja pronto e entregue, minha mente está consciente demais.

Acredito que é isso o que faz com que eu demore para chegar ao orgasmo. Quando ele vem, é forte, mas menos intenso do que a primeira vez.

Ficamos em silêncio por alguns minutos. Nana diminui a música e começo a sair do transe. Dessa vez, sou tomada por uma grande melancolia. Digo que tenho vontade de chorar. “Chora. Não segura nada. Sente tudo”, ela encoraja. Então choro por uns bons minutos, sem entender de onde vem o sentimento de solidão.

Chego à conclusão de que o que me deprimiu foi pensar que essa experiência intensa tinha vindo pelas mãos de uma profissional. Ou seja, uma pessoa que é paga para despertar essas sensações. Me choca pensar que nenhuma outra pessoa conseguiu me proporcionar um prazer parecido.

Nana me acalma e reforça: cada sessão é única. Além disso, meu choro não precisa ser visto como ruim. Só quer dizer que esse orgasmo atingiu uma parte diferente de mim do que na primeira vez. “Ele soltou algo que o corpo precisava deixar ir”, diz.

Sinto uma frustração, uma vontade de gritar meus pensamentos e inseguranças sobre mim. Divido isso com Nana, e falo que me senti um pouco desconectada com a minha energia sexual durante a sessão. Me questiono e tento entender o que essa reação pós orgasmo quer me dizer.

No fim, relaciono o choro a uma urgência, até então, adormecida: entendo que ainda tenho muito a descobrir sobre mim mesma. Aos 31 anos, pensei que já sabia tudo (ou quase) sobre mim. Mas percebo o quanto deixei minha sexualidade de lado sem sequer perceber.

Se tem algo que aprendi é como gosto de ser tocada — tem gente que passa a vida toda sem descobrir isso — e que as possibilidades são infinitas. É clichê dizer que me sinto uma nova mulher. Mas não é clichê dizer que se sentir digna de prazer muda tudo.

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