Sexo
Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)

Os suplementos alimentares estão em todos os lugares, seja na creatina pré-treino ou nas gummies que prometem acelerar o crescimento do cabelo e das unhas. Agora, eles estão indo parar na cama: depois da onda de consumo de testosterona para aumentar o tesão lá há alguns anos, vieram aí os suplementos que prometem aumentar a libido. O público alvo são, principalmente, mulheres.

Na falta de um “viagra feminino”, o Brasil vende ao menos oito suplementos alimentares que prometem aumentar o desejo sexual de mulheres e demais pessoas com vulva*. Em descrições em páginas de vendas, prometem “melhor lubrificação, redução de sintomas como candidíase e libido em dia”, “transformar o ciclo menstrual” ou promover “energia, desejo e equilíbrio feminino diário”. “Redescubra a energia e a vitalidade dos seus melhores anos”, apela outro num tom meio questionável.

Dona da marca de produtos de bem-estar Lemme, Kourtney Kardashian lançou em março as gummies Lemme Play. O “segredo” está no uso de ingredientes naturais — como maca peruana e gengibre orgânico —, mas também na molécula Complexo S7®, que aumenta os níveis de óxido nítrico e otimiza o fluxo sanguíneo. Com gosto de cereja, 30 cápsulas são vendidas por US$ 30 (R$ 160, na cotação atual**). Três frascos saem por US$ 80 (R$ 428).

Assim como tudo que leva o toque de Midas da família Kardashian, não demorou até que vídeos de resenhas explodissem no TikTok. A maioria deles chamavam o produto de “revolucionário” e faziam questão de avisar que “os estoques estão acabando”. Outras fazem o mesmo, mas não sem antes destrinchar como o Lemme Play “salvou seus casamentos” e que foi “uma virada de jogo para mães cansadas demais para conseguir transar e culpadas demais por não darem atenção aos parceiros”.

"Essa é a melhor coisa que aconteceu com as mulheres", diz a última resenha vista pela reportagem. Parece bom demais para ser verdade. Só uma pílula por dia parece ser capaz de fazer o possível e o impossível para acender o tesão, render boas transas e “salvar” uma vida sexual tida como quebrada e imperfeita. Mas até que ponto um suplemento alimentar pode, de fato, fazer tudo isso?

Lemme Play, os suplementos alimentares para libido de Kourtney Kardashian — Foto: Divulgação
Lemme Play, os suplementos alimentares para libido de Kourtney Kardashian — Foto: Divulgação

O que está por trás dos suplementos para libido

Os suplementos que prometem acender o fogo têm ingredientes naturais — alguns usados há milênios por diversos povos para fins terapêuticos — ou ativos específicos, às vezes patenteados, em suas bases.

Juliana Vieira Honorato, ginecologista e especialista em sexualidade, e Ricardo Barroso, endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), dizem que é comum ver composições com maca peruana, ginseng coreano, múcuna, feijão-da-flórida e damiana.

São ingredientes que têm “alguma evidência científica”. Por isso, os médicos dizem que alguns suplementos que contam com eles podem até dar resultado, desde que prescritos por profissionais após avaliação cuidadosa do caso.

Contudo, “suplementos alimentares não são medicamentos”, nas palavras da própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A agência reforça que a suplementação é destinada “a pessoas saudáveis” e que tem como função “fornecer nutrientes, substâncias bioativas, enzimas ou probióticos em complemento à alimentação”.

Os suplementos se tornaram famosos, entre outros motivos (falaremos deles), por não apresentarem efeitos colaterais ou riscos à saúde, diz Honorato. A composição é “mais light” do que a de um remédio e não altera o organismo de forma significativa.

Por isso mesmo, passam por uma avaliação muito menos rigorosa do que as usadas para medicamentos. Enquanto um remédio tem inúmeros critérios testados (como eficácia, segurança, dosagem etc), a regulação da Anvisa só precisa identificar que o suplemento é seguro para consumo.

Ou seja, não é necessário provar que um suplemento tenha eficácia no que promete fazer ao chegar nas prateleiras das farmácias. “Pode até existir uma tendência de que isso gere uma disposição ou um determinado efeito, mas não necessariamente houve o mesmo rigor científico que de um medicamento”, diz a pesquisadora e divulgadora científica Mari Krüger.

Ela acrescenta que ingredientes como cafeína (indicado para desejo sexual pela função na circulação do sangue) e cranberry (conhecida por prevenir infecção urinária) também estão em alguns dos produtos atualmente em circulação no Brasil.

Isoladamente, são mesmo ingredientes com comprovações de que, se consumidos com moderação, podem trazer efeitos positivos para a saúde sexual. Mas Krüger diz que não faz diferença colocá-los num suplemento que conta com um mix de outras vitaminas que “não vão fazer diferença”.

“Pagamos caríssimo por um blend de nutrientes que podem ser consumidos de outras formas que são até mais saudáveis e baratas, como em sucos ou a própria fruta”, pondera.

Para além do corpo

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (ABIAD) indicou um aumento de 8% no consumo de suplementos no país em 2020. Outro levantamento, do Instituto Locomotiva e Neo Química, mostra que, no mesmo ano, ao menos uma pessoa consumia suplementação em 59% das casas brasileiras.

A ABIAD atribui o boom à preocupação maior dos brasileiros com o bem-estar. Mas existem mais nuances. À primeira vista, alguns suplementos saem mais barato do que um medicamento. Hoje, qualquer pessoa pode comprar um frasco sem receita ou acompanhamento médico, mesmo sem acompanhamento médico ou sequer saber se há uma deficiência vitamínica.

Some isso ao fato de que em um país com um histórico profundo de desigualdades sociais e econômicas, as pessoas buscam por uma solução rápida para um sintoma específico. Com isso, podem acabar sobrecarregando o organismo ou mesmo mascarando condições de saúde mais sérias, como deficiência de vitaminas D e B12 ou ansiedade e depressão (a maioria das razões pela falta de libido), entre outras.

"Muitas pessoas não têm acesso a bons profissionais ou aos cuidados da saúde de uma forma sustentável. Se o mercado oferece uma solução parcelada com cupom de desconto, obviamente as pessoas buscam esse atalho para resolver tudo rápido. Só que isso não acontece na maioria dos casos, o que pode gerar um gasto enorme e muita frustração”, avalia Krüger, que se posiciona publicamente contra o consumo suplementar, sobretudo no mercado de wellness.

Nas regras da Anvisa, desenvolvedoras de suplementos são proibidas de se auto afirmar como medicamento, afirmar que promove cura ou que trata doenças e nem alegar propriedades terapêuticas não aprovadas — como em alguns exemplos usados no começo desta reportagem. Além disso, precisam indicar que são suplementos alimentares de forma clara na embalagem, próximo ao nome do produto. Em muitos casos, essa regra é descumprida. Krüger diz que é o caso dos suplementos de libido pesquisados por Marie Claire. “Eles não possuem evidência científica das alegações que fazem, e cabe denúncia.”

Até agora, é possível entender que suplementos não vão ter o mesmo efeito para cada pessoa. “Um acompanhamento ginecológico anual já daria conta do recado”, diz Krüger. Mas se a questão não é química e/ou biológica, por que algumas mulheres estão sem libido?

Por que mulheres sentem baixa na libido?

Em números, há fundamentos que abrem espaço para que mulheres cogitem recorrer a uma cápsula sozinhas em vez de um consultório médico ou mesmo o próprio parceiro. Um estudo publicado em 2025 pela Universidade do Planalto Catarinense, no estado de Santa Catarina, aponta que 67,2% relatam queixas frequentes de diminuição de desejo sexual em idades férteis. Os motivos vão de estresse e fadiga, passam por interferências na rotina diária e chegam a reações adversas ao uso de métodos anticoncepcionais hormonais.

Honorato e Ricardo Barroso afirmam que é difícil determinar um fator específico que pode melhorar ou piorar a libido. Grosso modo, dá para dizer que é a vontade de suprir um desejo sexual, ativado por gatilhos mentais, físicos e hormonais. Mas não só. “A vontade de transar depende de disposição física, fase de vida, logística, disponibilidade tempo, autoestima, educação sexual… E todos esses fatores são muito comprovados cientificamente”, diz Honorato.

Dito isso: não basta simplesmente tomar uma cápsula e esperar que o corpo automaticamente passe a ter picos de tesão todos os dias.

Assim como tudo nessa vida, a libido também é atravessada por desigualdades de gênero. Krüger diz: “Enquanto a libido da mulher é construída ao longo do dia, a do homem ativa muito mais fácil”. Isso não é demarcado por aspectos biológicos. “Há muitos motivos para isso acontecer, inclusive sociais, comportamentais e machistas, como a exploração no trabalho ou a jornada tripla, em que a mulher cuida da casa, dos filhos e do trabalho.”

Mulheres cisgênero dedicam 9,6 horas a mais em tarefas domésticas do que homens, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mulheres negras gastam 1,6 hora a mais que as brancas. Devido à estrutura misógina e racista do Brasil, elas ainda são as que têm menos acesso de oportunidade no mercado de trabalho, recebem rendimentos menores e são mais expostas a situações de violência, por exemplo.

No mesmo ano, 7 em cada 10 brasileiras tinham um diagnóstico de depressão e ansiedade no Brasil, segundo o Institute For Health, Metrics and Evaluation. “O que chamam de amor chamamos de trabalho não remunerado”, diria Silvia Federici.

Some isso ao fato de que as mulheres são mais afastadas do que homens de qualquer tipo de educação sexual que as coloque no centro. Pelo contrário, as que se relacionam com homens seguem não só cansadas como sentem que “devem sexo” aos parceiros — o que pode abrir margem para uma série de violências, inclusive estupro marital ou a coerção para forçar uma relação.

É curioso perceber que uma parte significativa das resenhas no TikTok sobre o suplemento para libido de Kourtney Kardashian, as mulheres parecem se sentir cansadas demais e em desespero por não conseguir “satisfazer o próprio marido sexualmente”.

"Quando você é mãe, um 'momento sexy' é a última coisa que está na sua cabeça”, diz uma delas. “Entre as crianças me tocando o tempo todo, as contas e o estresse, não quero nem tocar no meu marido. Me sinto culpada por ele pensar que não o amo mais enquanto ele não entende que a libido cai muito quando você tem filhos.”

No mesmo vídeo, ela diz que “tudo mudou” depois de testar o Lemme Play. “Quando acordei, senti que estava no mood. Se você é mãe e está lutando para transar com seu parceiro, indico que tente.”

Será que os suplementos são pensados para que mulheres tenham prazer e se sintam plenas em suas vidas sexuais? Ou buscam apenas garantir que elas tenham alguma força para conseguir transar com seus maridos e “cumprir o sexo” com uma obrigação conjugal?

Entre uma das poucas resenhas negativas sobre o suplemento, uma mulher aparece frustrada na câmera. Ela foi influenciada por esses vídeos a fazer o teste, mas não sentiu nada daquela euforia sexual que muitas relataram sentir. "Sejam honestas. Se você não ganhou uma compensação, diga isso. Nós, as mulheres normais que compram isso, ficaríamos mais gratas do que comprar algo que não funciona."

Ou seja, nas palavras de Krüger: “Tem tanta coisa envolvida na falta de libido de mulheres que parece absurdo colocarmos a soluções e a resolução dentro de um comprimido, como se isso fosse resolver todos os outros problemas.” O que parece é que, talvez, o que vá “consertar” a libido das mulheres não esteja numa pílula.

*Aqui, estamos incluindo algumas pessoas trans, não binárias e/ou intersexo.
**Consulta realizada em 12 de setembro de 2025, às 17h.

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