Conheça o Fear Play, fetiche do BDSM que causa prazer pelo medo
Dentro do BDSM, o medo pode ser um gatilho importante para construir o prazer. Dominadoras contam para Marie Claire como o pavor pode ser excitante e de que jeito praticar o Fear Play com segurança e cuidado
A dominadora Valentina Severo, 47 anos, tem seus desejos atendidos de diversas formas por seus submissos em sua própria masmorra, localizada na Zona Sul de São Paulo. Mas, em nome do prazer, costuma encarnar o bicho papão de muitos machões e mocinhas. Sentir o desespero e o medo crescerem durante jogos sinistros é o que mais atrai ao Fear Play — o fetiche em sentir ou causar medo.
“Trabalho o psicológico para causar a sensação assustadora. Apesar da adrenalina, é um jogo completamente consensual”, explica. Assim como muitas pessoas gostam de assistir filmes de terror pesados por diversão — principalmente em épocas como o Halloween —, os adeptos do Fear Play sentem tesão justamente em se sentirem amedrontados.
Longe de querer fugir do perigo, os submissos que curtem a prática se entregam por completo; e gostam disso.
“[Amo me imaginar] trancada em um quarto escuro, sozinha, com uma trilha sonora de terror ao fundo: barulhos de passos, porta abrindo e fechando... Só brincar com a minha audição já seria capaz de me levar à loucura”, contou a fetichista Roxy Lust em um episódio do podcast Chicotadas, em que é cohost. No episódio, que foi ao ar em 2024, ela diz que os jogos que envolvem medo e tesão são seus favoritos.
Fear Play: o fetiche em sentir medo
Se não ficou evidente até o momento, saiba que é um tipo de perigo controlado. Do mesmo jeito que é possível desligar a televisão se o filme ficar pesado demais, o Fear Play pode ser interrompido a qualquer momento com uma palavra de segurança previamente combinada.
Valentina considera o Fear Play uma extensão natural da dominação. “Numa dinâmica BDSM, dominar requer causar um pouco de medo na pessoa submissa. O medo entra quando dizemos, por exemplo, que, caso ele não se comporte, terá que aceitar as consequências.”
Só que o Fear Play pode envolver situações consideradas mais extremas. “Posso, por exemplo, conduzir uma cena de 'sequestro' ou knife play [jogo com facas] e mesclar medo com dominação de forma mais profunda”, ela detalha.
O medo como gatilho sexual
A também dominadora Mary*, 32 anos, teve interesse em conduzir os jogos de Fear Play desde que se tornou adepta do BDSM, há cerca de dois anos e meio. Mas ela só conseguiu colocar o fetiche recentemente, com o atual parceiro.
“Lidar com medos e com o psicológico de outra pessoa exige muito cuidado, responsabilidade e confiança mútua”, conta. Uma de suas dinâmicas preferidas é deixar seu submisso de olhos vendados — sem necessariamente aderir a imobilização ou restrição física.
“Impedir o sentido da visão deixa a pessoa mais vulnerável e apreensiva, já que a visão é o principal recurso de orientação do ser humano”, relata. “A pessoa não sabe qual ferramenta estou usando, se é leve ou pesada, o que gera tensão e expectativa. Às vezes, apenas posicionar o objeto do lado dele já é suficiente para causar tremores e ansiedade.”
Mini guia de boas práticas para explorar o Fear Play
O que é o Fear Play?
O Fear Play é um tipo de jogo do BDSM em que a pessoa dominante usa elementos sensoriais ou físicos para estimular o medo do submisso, causar excitação e intensificar a experiência erótica.
Quando falamos de medo e relações que envolvem sexo, é normal que surjam dúvidas sobre até onde isso pode ser saudável e aceitável. É importante dizer que, como qualquer dinâmica do BDSM, tudo é combinado previamente na negociação entre dominador e submisso dentro dos princípios do SSC (São, seguro e consensual), lema do mundo fetichista.
O que pode ser considerado Fear Play?
- Jogos de sensações que misturam privação sensorial (como visão, fala, tato e estímulo da audição);
- Knife play, em que o dominador usa as facas como objeto do medo;
- Needle play, que consiste em perfurações feitas com agulhas em pontos específicos do corpo que podem ou causar sangramento (o que é chamado de blood play).
“Gosto de mostrar as facas, descrevê-las, ressaltar o quanto estão afiadas e dizer para o submisso não se mexer em hipótese alguma”, relata Valentina.
A dominadora também conta que o jogo de cócegas, chamado de tickling, é um exemplo de Fear Play mais leve. “Digo frases como ‘Olha o tamanho das minhas unhas’, ‘Vou te rasgar’, enquanto faço cócegas na pessoa. É um tipo de medo que cria uma tensão divertida e erótica”, explica.
Por que o medo pode ser prazeroso?
Mary, que também é body piercer, diz que sua profissão a ajudou a entender como conduzir as pessoas diante do medo da melhor maneira. Ela conta que é muito comum as pessoas questionarem o porquê estar amedrontado seria prazeroso para alguém.
A resposta está relacionada à forma como o cérebro reage a uma experiência assustadora. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, descobriram por meio de um estudo em 2017, que a amígdala central presente no cérebro — ligada ao prazer e à recompensa — é quem controla essa resposta ao medo.
O psicólogo Lee Chambers, especializado em bem-estar e local de trabalho, definiu numa entrevista em 2021 que que o medo causa uma “descarga bioquímica de neurotransmissores que faz você se sentir incrível”.
Por isso, durante o jogo, a liberação de adrenalina pode vir acompanhada de dopamina, ocitocina e endorfinas, o que cria uma sensação de bem-estar. “A pessoa percebe que enfrentou algo que a assustava, e isso gera um sentimento de coragem e confiança”, diz Mary. “Essa superação cria uma conexão forte entre dominador e submisso, pois ambos compartilham uma experiência de vulnerabilidade e poder.”
O que pode ser considerado extremo no Fear Play?
Valentina lembra que uma das cenas mais intensas que já conduziu foi uma simulação de sequestro (reforçamos: totalmente consentida entre todas as partes). “Estava com dois submissos, um homem e uma mulher. Parei o carro, coloquei uma venda e a algemei antes de colocá-la no porta-malas. O percurso até o motel foi curto, cerca de duas quadras”, lembra.
“Quando chegamos, a tirei do porta-malas e levei para o quarto. Ela estava com medo, mas também muito excitada. Fiz alguns toques, fui mais bruta, e mantive o papel de ‘sequestradora’. Criei um personagem para tornar o jogo mais real, mas ela sabia que era eu o tempo todo”, esclareceu.
Embora a submissa não soubesse quando o “sequestro” aconteceria, ela sabia que poderia acontecer — o que mantinha o tesão no susto e o elemento surpresa sem romper o consentimento.
Como praticar com segurança e garantir que os limites sejam respeitados?
Os limites e métodos de segurança se baseiam na negociação. Antes de qualquer cena, dominador e submissos conversam sobre limites inegociáveis, medos que desejam explorar e preferências.
“Como dominadora, sou responsável por provocar o medo, mas também por garantir que a experiência seja prazerosa e segura. É essencial que a vivência traga algo positivo”, destacou Mary.
“Por isso, mantenho a atenção constante para não ultrapassar limites. Caso algo saia do controle, cabe a mim identificar e conter os danos”, completou.
Outro ponto muito importante é o aftercare. Ou seja, os cuidados depois da dinâmica acontecer. Principalmente em cenas com altas doses de adrenalina, que podem deixar o submisso introspectivo quando acaba.
“No caso da cena do ‘sequestro’, percebi que a minha submissa ficou reclusa depois do jogo. Cheguei junto, conversei para saber se estava bem e deixei que dormisse comigo para garantir que estivesse tranquila e sem pesadelos”, lembra.
*O nome foi alterado a pedido da entrevistada para preservar sua identidade.









