Sexo
Por
Isadora Marques
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo (SP)

A design Cora* de 31 anos, cultivava um crush por um cara que conhecia há uns 17 anos, mas que nunca tinha tido a oportunidade de ficar até então. Quando finalmente se encontraram para um date em um bar, ela percebeu que ele tinha uma tatuagem um pouco peculiar. “Quando olhei para o braço dele, eis que ele tem um relógio digital retrô tatuado que mais parecia uma tatuagem de chiclete. Para completar, no local onde ficaria a hora, estava escrito FUCK”, lembra ainda incrédula.

Cora diz que não acha que toda tatuagem precise ter um significado por trás, mas que, com certeza, o significado daquela era o pior possível. Caso você ainda não tenha entendido, é basicamente como se o relógio dele dissesse que era ‘hora de foder’.

Nesse momento todas as borboletas na barriga e o tesão de estar ali frente a frente com o seu crush evaporaram, dando lugar a uma sensação de vergonha alheia. “No dia achei que estava só sendo chata e eu não compreendia que era só uma ideia “cool” de tatuagem, mas o buraco era mais embaixo. A tatuagem foi só o estopim para começar a descobrir que ele não era um cara tão legal assim”, conta.

Além da tatuagem de gosto duvidoso, ela percebeu que o cara que já tinha seus 34 anos, não tinha evoluído em nada e continuava o mesmo imaturo que conheceu no passado.

Enquanto algumas pessoas podem se sentir mais atraídas por pessoas tatuadas — inclusive é um fetiche que tem até nome Estigmatofilia — algumas tatuagens podem causar o efeito contrário. Principalmente quando o desenho carrega símbolos ou mensagens ofensivas, ela pode causar repulsa e quebra de conexão.

Segundo a psicóloga e especialista em Sexualidade Humana, Cristina Moraes, perder o interesse por conta de uma tatuagem não é apenas uma reação superficial. “O desejo sexual reúne componentes biológicos, psicológicos e sociais — e imagens na pele podem funcionar como sinais simbólicos que ativam crenças, memórias e valores”, explica. “Nem sempre é o traço físico do desenho que “desliga” o desejo, mas o significado que a pessoa atribui a ele”, completa.

Se, no caso de Cora, o problema foi o mau gosto, há quem viva situações em que o desconforto vai muito além da estética. Como aconteceu com a social media Sabrina*, 31 anos, que se deparou com uma tatuagem polêmica em um date com um cara que conheceu em um aplicativo de relacionamento. Antes de se verem, ele mencionou que tinha uma tatuagem “meio polêmica”, se negava contar o que era até que se encontrassem. “Quando o vi, ele estava com uma camisa de botão entreaberta e dava para ver uma parte da tatuagem. Na hora gelei com o que estava vendo”, lembra.

“Pedi para ele abrir para eu ver direito o que era e, era simplesmente uma suástica, só que ao contrário. Mas assim, na hora que você vê um desenho de uma suástica, não dá para perceber que não é a ‘tradicional’. Não consegui seguir com o date”, conta.

Sabrina diz que ele tentou explicar que não tinha ligação com o nazismo e que usava o símbolo voltado para direita por ser budista. O que historicamente faz sentido, já que a suástica é um símbolo que representa a paz, prosperidade e boa sorte em algumas religiões como o budismo, hinduísmo e o jainismo.

Porém, por mais que a intenção dele tenha sido essa, ela não conseguia ignorar que, à primeira vista, a tatuagem era facilmente interpretada como referência ao nazismo. A tensão foi suficiente para quebrar a conexão.

Moraes diz que a reação acontece dentro do nosso cérebro tão rápido que é quase impossível controlar. “O estímulo visual gera um pensamento, que vira uma emoção — raiva, medo, ansiedade — e em seguida uma resposta corporal, como perda da excitação ou arrepio. É um processo automático.”

Às vezes, a tatuagem só era feia mesmo

A aparência pode importar bastante para muitas pessoas na hora de se relacionar, e o que cada um acha feio ou bonito é bem relativo. Isso também se aplica quando falamos das tatuagens. Se você pensar que vai ter que ver aquele desenho toda vez que forem transar ou até mesmo toda vez que olhar para a pessoa, pode ser realmente bem difícil relevar.

A escritora Mônica*, 30 anos, lembra do relacionamento que teve com um homem 21 anos mais velho. “Ele tinha muitas tatuagens feias, só que uma não dava para esquecer. Ele tinha um elefante bem malfeito tatuado na virilha, e você pode imaginar o que era a tromba”, revela.

Apesar do incômodo ela se relacionou com esse homem por um tempo, até descobrir que não era só a tatuagem que era um problema e ele era uma pessoa muito tóxica.

No caso da jornalista Letícia*, 26 anos, por sua vez, desenvolveu um ranço específico: tatuagens tribais. Sempre evitava se relacionar com caras com esse tipo de desenho na pele, pois para ela tinha um significado que ia além da estética. “Para mim, me passa um estereótipo de boy lixo que só vai sair comigo de segunda a sexta, porque final de semana é com a namorada, sabe?”, argumenta.

Mas esse julgamento não vem do nada, ela conta que no passado se relacionou com outros homens com tatuagem tribal e que foram babacas com ela, então toda vez que vê o tipo de tatuagem o desejo some por conta da associação.

De acordo com Cristina Moraes, quando recebe esse tipo de relato na clínica, avalia se a queixa é apenas estética e intervêm com terapias de comunicação e aceitação. Se a reação é mais emocional, vai explorar as raízes simbólicas e buscar ressignificações. “Vale reforçar que as tatuagens funcionam como estímulos visuais, mas sua potência para gerar ou retirar o desejo depende do significado atribuído pelo observador. O desejo não se regula apenas pelo visual e pelo corpo do outro mas por toda uma narrativa construída em torno dele . Entender essa dinâmica é essencial para diferenciar incômodos superficiais de bloqueios emocionais profundos”, finaliza.

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