'Penso em um famoso na cama com meu marido': é normal fantasiar com outra pessoa no sexo?
Marie Claire ouviu histórias reais de mulheres que já fantasiaram com uma terceira pessoa ao transar com o par. Especialistas explicam como isso influencia o prazer e os relacionamentos
Imagine a cena: você está com a sua parceria no bem bom, está tudo uma delícia, mas sua cabeça vai para outro lugar — ou melhor, para outra pessoa. De repente, quem está ali é um crush antigo, uma colega de trabalho ou o vocalista da sua banda preferida. A esteticista Marcelly*, 28 anos, já viveu essa cena algumas vezes ao longo de dois anos e meio de casamento.
“É como se não fosse meu marido na cama comigo. Imagino que quem está ali é um amigo da época da escola. Tem horas que visualizo um sexo mais carinhoso; em outras vira uma transa selvagem”, conta.
Marcelly está longe de ser exceção. Pesquisas sobre comportamento sexual mostram que imaginar terceiros na cama é bem comum. Um exemplo é um levantamento de 2023 feito pela One Poll em parceria com a Lelo, nos Estados Unidos: das 2 mil mulheres e homens ouvidos, quase metade (48%) admitiram pensar em alguém que não é a própria parceria no sexo.
A administradora Thais*, 35 anos, vive uma crise no casamento, e diz que pensar em outra pessoa virou um hábito. “Penso em um ex-ficante com quem tinha uma química surreal. Considero um dos melhores sexos da minha vida.”
Em outras ocasiões, sua imaginação viaja até pessoas mais inalcançáveis, como seus ídolos. “Imagino o Joe Jonas me pegando de jeito e fazendo tudo aquilo comigo”, conta. “A frustração só bate quando volto para a realidade e vejo que quem está ali de verdade é o meu cônjuge.” Por mais que não precise pensar em ninguém para gozar, a estratégia dela deixa as coisas mais quentes no ato.
O que significa pensar em outra pessoa durante o sexo?
A excitação ao imaginar outra pessoa no sexo com maridos, esposas, namorados ou seja lá com quem você transa tem nome: alorgasmia, que se refere às fantasias que levam a transa para um patamar alto de prazer, de uma forma que, para algumas pessoas, só os estímulos da parceria não conseguiriam alcançar.
Segundo a sexóloga e terapeuta sexual Tamara W. Zanotelli, grande parte das pessoas, mesmo em relacionamentos estáveis, podem ter fantasiado com uma pessoa fora da relação.
“Esse tipo de fantasia nem sempre tem a ver com insatisfação ou vontade de viver algo fora do relacionamento. Muitas vezes, ela cria um contexto, não sobre substituição do parceiro. O que excita é o risco e a intensidade do momento”, explica.
Para Marcelly, a sensação é bem essa: o proibido e perigoso coloca fogo no sexo com o marido. “Não é que ele seja ruim de cama, mas pensar se com outro seria melhor mexe com a minha imaginação. Faço comparações na minha mente, como quando me perguntando se o pênis da outra pessoa com quem fantasio não seria maior”, descreve.
No caso da jornalista Júlia*, 28 anos, um relacionamento em crise foi o que abriu espaço para a fantasia. O “amante” era um crush platônico da academia — um típico “olhante”, como chamam nas redes sociais aquela paquera que você só olha e nunca trocou nenhuma palavra.
“Na minha imaginação era sempre assim: eu estava na academia, esse cara chegava, me oferecia ajuda e a gente começava transar ali mesmo”, lembra.
Pensar em outra pessoa no sexo pode ser considerado traição?
A regra de ouro é: fantasiar é diferente de colocar em prática. O conceito de traição pode variar dependendo dos combinados dentro de cada relação, é claro. Então, a resposta vai variar de acordo com cada casal.
Mesmo assim, Zanotelli diz que pensamentos e fantasias são processos internos, naturais e incontroláveis. “Em geral, sentir atração por alguém ou criar um cenário imaginário não significa infidelidade ”, explica. Isso acontece porque o cérebro busca por novidades o tempo todo. O que é considerado arriscado e proibido dentro de uma cultura pode virar um verdadeiro afrodisíaco natural. “Para se excitar, o corpo recorre à imaginação e cria cenários com corpos e estímulos diferentes”, observa.
Para saber se a fantasia ultrapassa ou não um limite, é preciso entender o que o casal define como lealdade. Júlia, por exemplo, nunca traiu o namorado com o cara da academia. Mesmo assim, já sentiu culpa.
“Tinha vergonha até de levar o assunto para a terapia por medo de ser julgada. Naturalizei com o tempo, mas levei quase um ano para aceitar esse desejo.”
“Essa culpa é muito influenciada pelas ideias que cada um aprendeu sobre sexo. As mulheres tendem a sentir mais culpa porque foram ensinadas desde cedo a controlar a própria sexualidade”, destaca a sexóloga e educadora sexual Graça Tessarioli.
Quando pensar em outra pessoa no sexo pode virar um problema?
Tessarioli explica que a situação vira problema quando a própria pessoa entende que aquilo se tornou incômodo. “É importante lembrar que a fantasia faz parte do processo sexual. O foco não é ‘parar de fantasiar’, mas entender o significado disso.”
A especialista diz que vale ficar de olho se:
- a fantasia gera culpa excessiva;
- causa ansiedade ou sofrimento;
- vira a única forma de excitação ou orgasmo;
- faz você sentir como se estivesse violando a confiança da parceria
“Se está te causando mais ansiedade do que prazer, é sinal de que algo precisa ser observado. Em alguns casos, vale buscar ajuda terapêutica e psicológica”, recomenda Zanotelli.
Para Júlia, a percepção de que só conseguia gozar pensando no gostoso da academia foi um dos motivos que a fez decidir terminar o namoro. “Entendi que não conseguimos mais nos satisfazer juntos. Somado a outras questões, percebi que não dava para continuar”, relata.
Fantasiar com uma terceira pessoa pode ser positivo dentro da relação?
Sim! Tudo vai depender como o casal se comunica sobre intimidade. Quanto mais abertura e liberdade para falar, mais fácil será de abordar desejos e fetiches.
Zanotelli reforça que tirar as fantasias do rol de “assuntos proibidos” ajuda a aprofundar a intimidade. Marcelly, por exemplo, decidiu contar ao marido sobre o que imaginava com o amigo. A reação dele foi entrar na brincadeira.
“Ele fingiu ser esse amigo numa transa, entrou em uma encenação como se eu estivesse traindo o meu marido — que era ele mesmo”, lembra. “Foi surreal. Percebi que nossa ligação e confiança é mais forte do que eu imaginava.”
O caminho para começar pode ser, por exemplo, se abrir com parceria sobre fetiches que gostaria de experimentar ou mostrar de que forma quer ser tocada. Perguntar se a pessoa já pensou em algo diferente enquanto transa com você é um dos caminhos recomendados por Zanotelli para começar. Se vocês estão começando essa conversa agora, o ideal é deixar claro que não existe nenhum tipo de “pegadinha”, mas convidar ao diálogo.
*Os nomes foram alterados a pedido das entrevistadas.









