Ex-garota de programa se redescobre ao narrar sua vida sexual: ‘Achei que o sexo me salvaria’
Podcaster, escritora e ex-trabalhadora do sexo, Abhiyana transforma suas experiências sexuais em narrativa no podcast Textos Putos, em que fala sobre sexo sem idealizações. A Marie Claire, ela conta como se redescobriu ao falar de sexualidade sem tabus, ressignificando a própria história
Livre e sem se incomodar com os tabus, a escritora e podcaster Abhiyana, 50 anos, decidiu que não bastava apenas viver plenamente sua sexualidade. Ela sentia que precisava narrá-la com todos os detalhes — da mesma forma e com a mesma naturalidade que contava para suas amigas. Foi por isso que surgiu o podcast erótico Textos Putos, que entrou em sua 5ª temporada agora em 2026.
No podcast, disponível em todas as plataformas de áudio, ela transforma vivências íntimas em narrativa. Em seus episódios, relata encontros casuais, experiências do período em que atuou como garota de programa e histórias como criadora de conteúdo audiovisual.
A podcaster conta sem rodeios as aventuras sexuais que já viveu. São relatos explícitos e crus de orgias, sexo com desconhecidos, sadomasoquismo e muito sexo anal — assunto que foi tema de vários episódios.
“Sempre quis falar sobre a minha vida sexual sem entender muito bem o porquê. Me perguntava: ‘Por que me expor tanto assim?’. Mas acho que essa necessidade nasceu de uma rebeldia e da vontade de provocar o sistema, de ir por um caminho que ninguém estava indo”, conta Abhiyana.
Como surgiu o podcast Textos Putos?
Antes da estreia em áudio, Abhiyana já experimentava outras formas de falar sobre sexo.
Em 2017, lançou o livro Pequenos Textos Putos e Ilustrações Pornográficas Aleatórias e, nesse meio tempo, já explorava o próprio corpo para além da linguagem.
“Sempre tive vontade de me expressar. Foi aí que abri um canal no Telegram, em que compartilhava conteúdos pagos, áudios, vídeos de masturbação e de sexo explícito. Mas, sempre tive uma pegada mais educacional”, explica a podcaster.
Foi nesse contexto que o podcast foi tomando forma. Abhiyana conheceu o diretor audiovisual Newman Costa, que enxergou em seu trabalho na internet um potencial projeto de áudio. Ele assumiu a direção das duas primeiras temporadas e ajudou a tirar o podcast Textos Putos do papel, o que aconteceu pela primeira vez em 2020.
“No começo era tudo meio improvisado, chegava e contava. Com o tempo, encontrei uma narrativa mais roteirizada e fui lapidando as histórias de uma forma mais poética”, diz Abhiyana.
Como trabalhar com sexo influenciou na produção do podcast?
Durante boa parte da trajetória do Textos Putos, algumas histórias eram sobre o período em que Abhiyana atuava como trabalhadora do sexo.
Para ela, cobrar pelas transas e vivenciar experiências com diversos homens ia muito além da necessidade financeira. Na verdade, passaram a ser matéria-prima das suas criações — e isso se misturava com o próprio prazer.
“Queria viver para contar. Me colocava como um corpo-ensaio para narrar essas experiências. Acredito que essa autenticidade em contar exatamente como foi, liberta, desmistifica o sexo e nos aproxima das pessoas”, conta.
Essa dinâmica funcionou por muito tempo e trouxe boas histórias, porém ela relata que se criou uma linha muito tênue entre o que era trabalho, desejo, necessidade financeira e autonomia. Até que isso começou a impactar diretamente na relação dela com o sexo e, consequentemente, com o podcast.
“Teve um momento que eu senti que só conseguiria escrever coisas eróticas se eu fizesse. E isso virou uma obsessão”, lembra.
Essa lógica tomou conta até das suas relações afetivas. Ela conta, que em determinado momento, começou a cobrar uma “mensalidade” de um namorado para manter a relação.
“Cobrava R$ 800 dele, só que não consegui sustentar isso por muito tempo. Foi numa época em que achava muita injustiça não receber pelo sexo.”
Foi justamente esse acúmulo de experiências nem tão prazerosas que fez Abhiyana se afastar do trabalho sexual e da produção do podcast. O sexo, que antes alimentava o processo criativo, começou a perder o brilho.
“Quando uma pessoa paga para transar com você, muitas vezes acha que você tem que fazer tudo o que ela quiser. Algumas vezes eu consegui me impor, mas muitas não. E isso começou a me machucar”, explica Abhiyana.
O podcast Textos Putos teve uma pausa em 2023 e retornou em janeiro de 2026. Abhiyana conta que não perdeu a vontade de falar de sexo, mas precisou desse tempo para que a narrativa continuasse existindo sem um grande custo emocional. “Eu achei que o sexo ia me salvar de tudo, botei muita fé nele, e ele não entregou tudo o que eu achei que entregaria”.
O que mudou depois que ela deixou de trabalhar com sexo?
Hoje, Abhiyana enfatiza que o projeto já não trata apenas sobre sexo — mesmo que ele continue presente ali, explícito e despudorado. O que mudou foi o lugar de onde essas histórias partem e, principalmente, a mensagem que quer passar.
“Eu falo de cu, falo de pau, falo de putaria, mas quero falar de amor”, explica. “É difícil dizer isso sem cair num clichê, mas existe um desejo de usar esse universo sexual como porta para falar de algo maior: espiritualidade e essa inteligência que move tudo”.
Essa virada fica mais evidente no episódio mais recente do podcast, “Homens Choram”. Nele, Abhiyana narra uma transa intensa com um homem que, no momento do clímax, chora sem conseguir explicar exatamente o porquê. Ela trata do sexo como afeto, gatilho de vulnerabilidade e emoção, além do prazer.
Essa nova fase continua com os dois novos episódios, “Vadia de Mil Homens”, que estreia em 12 de março e “Cão”, no dia 26 de março. Para além dessa temporada, ela sonha com um futuro em que possa continuar narrando suas experiências.
Mesmo sem saber exatamente qual será o próximo passo, Abhiyana entende que o podcast seguirá vivo enquanto houver algo que precise ser dito. “O Textos Putos, para mim, é amor no sentido do que anima, do que faz o coração bater, do que cria as coisas e do que movimenta a vida”, finaliza.









