“Preciso ser outra pessoa para ter um orgasmo”: o fantástico mundo do roleplay
Da criação de cenários a festas temáticas em São Paulo, Marie Claire ouviu duas mulheres adeptas do fetiche em que a tara está em criar um roteiro (literal) para o sexo
A fetichista Ravena, 39 anos, começou o atual relacionamento interpretando uma personagem. Mas, antes que você imagine algo, ela não é atriz, tampouco praticou um golpe de identidade: ela é adepta do fetiche conhecido como roleplay. A fantasia foi o ponto de partida de um casamento que já dura 11 anos.
Para os adeptos do roleplay, o tesão está em ser alguém diferente, seja para assumir uma profissão fictícia ou vivenciar alguma situação específica fora da realidade, de forma combinada. “Sempre gostei de interpretar personagens nas relações, mas, no início, eu não sabia nem que existia nome para isso”, conta Ravena.
“Todas as vezes que íamos transar, criávamos histórias. Eu podia ser secretária, professora, dona de hotel, uma mulher perdida na estrada ou estar em um lugar proibido, correndo perigo.”
O marido dela, conhecido no mundo fetichista como Doguinho, entrou no jogo desde que se conheceram em um app de namoro. Ravena sempre assume o papel dominante. “No início a minha maior fantasia era viver uma situação de professora e aluno, e ele me ajudou a realizar”, diz. “Ele entende que, para eu chegar no orgasmo, preciso imaginar que sou outra pessoa.”
Entre as fantasias preferidas dos dois está uma que envolve um encontro casual em um hotel de estrada. “Sou uma turista que procura um hotel e descobre que não tem mais vaga. Aí conheço um homem, no caso o meu marido, e peço para dividir o quarto com ele”, ela descreve. “A partir daí a noite fica mais interessante, se é que me entende.”
O que é roleplay?
O roleplay é um fetiche erótico que envolve a interpretação de papéis durante o sexo. A ideia é que as pessoas envolvidas assumam personagens ou situações fictícias para criar uma narrativa que estimule desejo.
A interpretação pode acontecer apenas como parte da fantasia durante a transa, com elementos imaginativos, ou envolver cenários, figurinos e roteiros mais elaborados.
Até descobrir o fetiche, Ravena conta que chegou a se preocupar com os próprios desejos. “Perguntei para uma psicóloga se era normal. Foi quando entendi que fantasias fazem parte da sexualidade de muita gente, e que não era nada estranho.”
Darth Vader e hospitais: o desejo roteirizado
Se para Ravena o roleplay começou como uma fantasia íntima entre quatro paredes, para a criadora de conteúdo adulto Nara Neveu, 33 anos, o roleplay chegou em um patamar mais profissional.
Nara transformou a própria casa em um set fixo para interpretar seus personagens. Criou cenários de hospital, escritório, academia e duas masmorras, que usa tanto para gravar vídeos explícitos quanto para ter prazer no dia a dia.
O desejo é quase dirigido e roteirizado como uma cena de filme, mesmo quando as câmeras não estão gravando. “Para mim, tudo fica mais interessante quando tem história”, afirma Nara.
O hospital cenográfico, um dos cenários mais elaborados da casa, nasceu de um pedido de Nara. “A relação médico e paciente sempre foi um dos meus roleplays preferidos. Lá no cenário temos instrumentos hospitalares, roupas, móveis, tudo para realmente performar a fantasia”, explica.
Para ela, o roleplay começa bem antes do sexo ou da gravação, na preparação. “Foi muito divertido ir em uma loja de insumos hospitalares e comprar as coisas. As pessoas que nos atendiam nem imaginavam que não usaríamos em uma clínica de verdade.”
O casal também cria personagens inspirados na cultura pop. Uma das performances mais marcantes de Nara foi inspirada no universo de Star Wars. “Chegamos a fazer um dildo com LED para simular um sabre de luz e um flogger [tipo de chicote] com o visual do personagem”.
O maior atrativo para Nara é justamente a possibilidade de experimentar diferentes identidades. “Posso ser uma médica na segunda, uma personal trainer na terça, uma CEO na quarta e o Darth Vader na quinta”, brinca.
Do quarto para a festinha
Depois de anos vivendo o roleplay e frequentando festas no universo liberal, Ravena percebeu que a experiência que vivia com o marido poderia virar uma experiência coletiva.
Foi assim que nasceu a Circus Roleplay, festa temática que ela organiza em São Paulo em uma casa noturna voltada ao público liberal. A entrada, é claro, só é permitida para maiores de 18 anos. Ravena tem todo o cuidado com a segurança e preza por contextualizar, com naturalidade, as fantasias propostas em cada edição.
“A ideia era fazer uma festa que acolhesse pessoas iniciantes no meio fetichista do roleplay. Um lugar para ser quem quiser”, explica. Esse também virou o lema do evento: “Seja quem você nasceu para ser, sempre dentro da consensualidade, dos combinados e da segurança.”
Criada há pouco mais de um ano, a festa tem temas diferentes a cada edição. “Já tivemos uma de detetive, em que as pessoas interpretaram suspeitos e investigadores. Teve também uma de Volta às aulas, em que apareceram professoras e alunos, por exemplo.”
Ravena pensa que a alta procura pela festa mostra como o roleplay pode ser uma porta de entrada para quem está começando a explorar as fantasias sexuais. “É um fetiche lúdico, leve e que permite brincar. Ao encontrarem um ambiente acolhedor, as pessoas se fantasiam e entram na história”.









