Elas são mães e trabalham com sexo para sustentarem a casa: ‘Não permito que meu filho passe por privações’
Marie Claire conversou com mulheres que encontraram no trabalho sexual e na criação de conteúdo adulto uma forma de sustentar a casa. Elas falam do preconceito, do julgamento e do medo de perderem seus filhos
Maya Prado, 24 anos, conta que quando entrou no mercado da criação de conteúdo adulto, não tinha o objetivo de ter uma vida luxuosa. A decisão foi tomada depois do término de uma relação em que ela se viu desamparada financeiramente. “Eu trabalhava como camareira em um motel, mas a minha renda não era suficiente para pagar as contas. Faltava o básico dentro de casa”, conta ela para Marie Claire.
Ela, que já tinha pensado em trabalhar com sexo, conta que teve medo do julgamento e que o bem-estar do filho se tornou sua prioridade. “Entendi que não podia permitir que meu filho passasse por privações”, afirma. “Agora, vejo que a estabilidade que o conteúdo aulto me trouxe foi fundamental não só para minha evolução, mas também para a segurança que ofereço ao meu filho.”
Histórias como a de Maya ajudam a explicar como as mulheres encontram no mercado adulto uma forma de sustentar seus filhos. Segundo dados da Pesquisa de Comportamento feita por uma plataforma de agenciamento de trabalhadoras do sexo, cerca de 40% das acompanhantes cadastradas no site são mães. “As mulheres entram para o trabalho sexual para sustentar os filhos e suas famílias. Esse perfil tem crescido muito com a expansão dos últimos anos", explica a antropóloga Natânia Lopes.
O mercado sexual cresceu e se diversificou, especialmente com a popularização das plataformas de conteúdo adulto por assinatura. Há até o conceito de “sexo transacional”, citado pela antropóloga Adriana Piscitelli. Ela usa a expressão para se referir às relações nas quais existe algum tipo de recompensa financeira ou material em troca de sexo.
‘Vou conseguir levar minha filha ao shopping?’
Para Nina Sag, 41 anos, a entrada no mercado adulto também veio depois de uma crise financeira. Após a separação, em 2017, ela tentava sustentar a casa com um pequeno negócio de polpas de fruta, mas a renda já não era suficiente para pagar as contas e acompanhar as necessidades da filha.
“Passava pela minha cabeça coisas simples como: ‘vou conseguir levar minha filha ao shopping? Comprar um tênis sem precisar me organizar financeiramente durante meses?”, relembra.
Segundo Nina, antes ela passava o dia inteiro trabalhando para ganhar cerca de R$ 200 com a venda dos produtos. Como acompanhante, conseguia faturar cerca de R$ 300 em apenas uma hora de atendimento. “Depois que entrei nesse trabalho, pude fazer muitas coisas com a minha filha. Fiz festa de aniversário em um parque de diversão, levei para viajar.”
Como lidar com a dupla jornada?
Quando falamos sobre mães, a presença de dupla (e até tripla) jornada já faz parte da realidade de muitas mulheres, independentemente da profissão. Mas, no caso de mães que trabalham no mercado adulto, principalmente com atendimentos presenciais, existe uma camada extra: a necessidade constante de administrar o sigilo por conta do preconceito, especialmente se os filhos são pequenos.
Maya conta que teve que separar totalmente a vida como profissional do sexo da maternidade como forma de proteção. Ela organizava os atendimentos em horários específicos e buscava manter a rotina do filho o mais estável possível.
“Eu fazia questão de estar presente nos momentos livres, levava ele ao parque, passeávamos e compartilhávamos tempo de qualidade. O sigilo, sim, foi uma forma de proteção tanto para mim quanto para ele.”
Já Nina afirma que a flexibilidade de horários que o trabalho sexual proporcionou foi justamente o que permitiu acompanhar mais de perto a criação da filha. “Cinco horas da tarde eu encerrava tudo para buscar ela na escola. À noite, meu tempo era totalmente dela”, relembra.
Ela também afirma que tomava uma série de cuidados para evitar qualquer contato da filha — que tinha 8 anos na época — com a profissão. “Enquanto ela estava em casa, eu evitava atender ligações perto dela e tomava cuidado com fotos e mensagens no celular”.
Segundo a antropóloga Natânia Lopes, essa gestão do segredo faz parte da vida de muitas profissionais do sexo. Por conta do estigma que esse tipo de ocupação sofre na sociedade. “Como é possível uma mulher ser mãe e ser prostituta? São dois papéis que, em termos simbólicos, são incompatíveis para muitas pessoas.”, explica. “É todo um cálculo estratégico de quem vai saber e quem não vai”.
A pesquisadora também afirma que, apesar do imaginário de isolamento, muitas dessas mulheres constroem redes de apoio para conseguir conciliar trabalho e maternidade. “Uma irmã sabe, primas, amigas. Então, isso ajuda muito a mulher conseguir fazer o manejo necessário dos segredos.”
O medo de perder os filhos
Um dos principais medos das mães do mercado adulto é ter sua maternidade questionada por causa da profissão — e, a partir disso, perder a guarda dos filhos.
Lopes relata que casos de disputa de guarda e ameaças relacionadas à maternidade aparecem com frequência em suas pesquisas sobre mulheres trabalhadoras do sexo. “Mulheres pobres em geral, convivem há muito tempo com a ameaça de terem os filhos tirados pelo pai, principalmente quando o genitor possui uma condição financeira melhor”, explica.
No caso de Nina, o receio se tornou realidade. Após descobrir que ela trabalhava como acompanhante, o pai da filha entrou com processo judicial com o pedido de guarda. Ela buscou apoio jurídico e auxílio em associações de defesa de profissionais do sexo, mas mesmo com laudos técnicos afirmando que a filha não corria riscos, Nina perdeu a guarda.
“Eu era acompanhante e ele era pró-reitor universitário. Eu não tinha muitas chances”, afirma Nina. A mãe conta que toda a sua trajetória foi colocada em xeque durante o processo. “Eu sempre fui presente, sempre fui a mãe que levava e buscava na escola e nas atividades que fazia durante a tarde”, relembra.
A advogada especializada em gênero Mayra Cotta afirma que, legalmente, a profissão de uma mãe não deveria ser usada como critério para decisões de guarda. “Os únicos fatores que deveriam influenciar são qualquer tipo de demonstração de prática do cuidador que coloque a criança em risco, o que não é o caso do trabalho sexual exercído de forma privada”, explica.
Para a especialista, decisões desse tipo acabam atravessadas por julgamentos morais sobre o trabalho sexual. “Como se o exercício da profissão fosse um indicativo dela ser ou não uma boa mãe. Isso não deveria acontecer.”
A relação com os filhos em meio ao preconceito
Maya afirma que o preconceito continua sendo uma das partes mais difíceis da profissão. “São comuns os comentários como ‘imagina o que seu filho vai pensar quando descobrir’ ou ‘você não tem medo dele saber?’”, relata. Ainda assim, acredita que a sua criação baseada na construção de valores dentro de casa vai evitar que o filho a rejeite de alguma forma. “Eu ensino ele a respeitar todas as pessoas independentemente da profissão, então, ele também vai me respeitar.”
pesar de ter perdido a guarda judicial na época, Nina e a filha sempre tiveram uma relação próxima.“Hoje, na fase adulta, ela entende que, graças ao meu trabalho, eu sempre pude pagar boas escolas, plano de saúde, viagens e oferecer conforto”, conta.
Para Natânia Lopes, reduzir o estigma em torno do trabalho sexual é um dos caminhos para diminuir a vulnerabilidade dessas mães. “O movimento de prostitutas tem atuado muito nessa frente de conscientização de que o trabalho sexual é um trabalho como qualquer outro”, explica.
Maya e Nina acreditam que a regulamentação do trabalho sexual seria um passo fundamental para garantir proteção jurídica às profissionais. “Quando não temos uma regulamentação dizendo que podemos ser mães e trabalhar no mercado adulto de forma segura, muitas mulheres acabam perdendo o direito de viver a maternidade plenamente”, afirma Nina. “E, muitas vezes, essas crianças são tiradas das mães e levadas para outros ambientes familiares que nem sempre são mais funcionais, apenas porque a outra família exerce um trabalho considerado moralmente aceito pela sociedade.”
“Ser mãe, mulher e profissional do sexo é uma jornada desafiadora, que exige coragem todos os dias”, completa Maya.









