Sexo
Por
Isadora Marques
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo (SP)

Já está consolidado que, para qualquer prática envolvendo sexo, precisamos de consentimento total das partes envolvidas, certo? Quando falamos “qualquer coisa”, é tudo mesmo: do toque às palavras, dos fetiches às posições, passando por cada questão que envolve intimidade. Mas o que nem sempre fica claro é que o consentimento pode ser confirmado de várias formas. Uma delas é o chamado consentimento entusiasmado.

Se você entende que o consentimento não é apenas a “ausência de não”, mas também a “presença de um sim”, você já está a meio caminho andado de entender o conceito. A ideia é focar no “sim”, uma forma de questionar interpretações ambíguas que podem surgir e também para reforçar a ideia de que o consentimento não deve ser presumido, ele tem que ser percebido sem outra interpretação possível.

O que é consentimento entusiasmado?

É um “sim” que não deixa dúvidas. O consentimento entusiasmado é nada mais do que a presença ativa da vontade, quando a parceria demonstra, de forma clara, que quer participar daquela dinâmica sexual.

Na prática, esse “sim” pode vir de vários jeitos: com palavras diretas como “quero muito isso”, “sim”, no engajamento mútuo e até mesmo em gestos, como o balançar de cabeça, gestos positivos com as mãos e até quando o parceiro toma a iniciativa. O ponto principal é que o desejo precisa ser visível ou falado em voz alta.

Essa atitude serve não só para comunicar os seus desejos como também para evitar que a outra pessoa precise interpretar tudo nas entrelinhas. Ela também evita que um ultrapasse os limites do outro. Se você tem dúvidas e o “sim” não veio claramente, interrompa imediatamente.

Como identificar um “sim” entusiasmado na prática?

Segundo a sexóloga Marina Rotty, na hora de identificar esse entusiasmo, o que importa é como a pessoa se expressa como um todo. “O corpo responde ‘sim’ com um sorriso largo, a entonação de voz entusiasmada. O corpo vibra junto”, diz.

Por outro lado, quando a pessoa só está “indo no fluxo” e não está tão a fim assim, os sinais tendem a ser mais ambíguos. Sabe aquela máxima de que se parece um “talvez”, na verdade é um “não”? É bem por aí.. Mesmo que exista um “sim” verbal, a falta de convicção pode ficar visível no comportamento — na hesitação, no tom de voz, na ausência de envolvimento ou numa postura mais passiva.

“Geralmente um ‘sim' entusiasmado vem com um complemento, como ‘sim, eu quero’ ou ‘sim, vamos logo”, explica Rotty. Esse tipo de resposta não só confirma a vontade que a pessoa sente, como elimina as dúvidas que um “sim” neutro pode gerar.

Para ilustrar, Rotty recorre a exemplos do dia a dia: como quando alguém pergunta se pode postar uma foto em grupo e nem todo mundo reage com a mesma empolgação — nesse caso, o melhor é não postar. “Ou em em pedidos de casamento, em que é fácil perceber quando o “sim” vem acompanhado de alegria genuína com pulos, lágrimas e felicidade, ou quando parece só uma resposta para não passar vergonha”, exemplifica.

Como praticar o consentimento entusiasmado?

Se a ideia é sair do automático e ir além do “tanto faz”, é preciso em primeiro lugar reconhecer o seu próprio desejo. Entender o que você quer, o que você gosta e o que você faz só para agradar ao outro.

Sabemos que dentro de uma relação é natural querer fazer um agrado e se abrir para experiências sexuais novas — mas, mesmo nesses casos, é importante ter certeza de que a vontade é real. Esse é o primeiro passo para conseguir comunicar com clareza.

Vale trocar respostas vagas por afirmações mais diretas. Apostar em “eu quero”, “estou com vontade”, “vamos”, “tô muito a fim” ou até guiar a situação com atitudes e iniciativa, não só nas palavras.

Essa comunicação não precisa ser algo engessado ou “formal”. Pode ser natural da forma que você se sentir mais à vontade. Também envolve se sentir confortável para dizer “não” ou mudar de ideia no meio do caminho sem precisar se justificar demais. Um bom indicativo de que o consentimento entusiasmado é bem aplicado é quando existe liberdade para recusar sem dramas.

No fim, deixar claro que você está a fim não só evita mal-entendidos como torna a experiência mais segura e bem mais prazerosa para todo mundo.

Quando o consentimento pode ser mal interpretado

Um dos cenários mais comuns que podem acontecer durante o sexo, é quando o tesão de uma das pessoas fala mais alto do que a capacidade de ler os sinais da outra. “Quando a parceria quer muito testar uma posição diferente e, diante de um ‘sim’ neutro, vai em frente mesmo assim”, explica Rotty.

Nesses casos, o problema não é apenas a resposta em si, mas ignorar a dúvida ou insegurança do outro. A falta de entusiasmo já deveria ser lida como um alerta.

Mas pode ter pessoas que digam que falar sobre consentimento quebra o clima e tira a espontâneidade do sexo. Para a especialista, essa ideia precisa ser ressignificada. “O consentimento deve fazer parte da preliminar. Se há algo que a pessoa quer muito fazer e sabe que não é muito comum, vale perguntar antes de começar”, aconselha.

Ela também reforça que o consentimento é dinâmico: algo que parecia ok no início pode deixar de ser a qualquer momento. Apesar da importância da leitura corporal, a palavra ainda é a ferramenta mais segura. “Na dúvida, pergunte. O desconforto da pergunta é infinitamente menor do que o trauma de ultrapassar um limite”.

O que o meio liberal pode ensinar sobre consentimento entusiasmado?

Marina Rotty, que é adepta ao meio liberal há 20 anos, afirma que, nesse contextos (liberais e não-monogâmicos) existe uma abertura maior para falar sobre sexo, desejos e limites. Mas ela alerta que não é uma garantia de comunicação clara.

Ainda assim, a especialista enxerga aprendizados importantes. Um deles é tirar o sexo do campo “instinto puramente espontâneo” e levá-lo para o da intenção e do diálogo. “No meio liberal, a conversa sobre o que vai acontecer faz parte da excitação”,diz.

Em outras palavras: falar sobre o que dá prazer, o que desperta curiosidade — e também o que não funciona — antes mesmo de tirar a roupa pode aumentar o desejo e tornar o sexo ainda mais conectado. De quebra, ainda deixa o consentimento entusiasmado muito mais evidente.

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