Mumificação: fetiche que aparece em cena de Euphoria é prática do universo BDSM, mas traz riscos
Cena com Jules (Hunter Schafer) mostra prática de imobilização erótica; especialista explica a Marie Claire sobre o fetiche e seus limites
A terceira temporada de Euphoria não está poupando narrativas sobre sexo que causam desconforto e curiosidade. Depois das polêmicas envolvendo a personagem Cassie (Sydney Sweeney) e a produção de conteúdo adulto, foi a vez de Jules (Hunter Schafer) se envolver no mundo dos fetiches, com uma dinâmica conhecida como mumificação.
No episódio que foi ao ar no último domingo (26), acompanhamos a nova empreitada de Jules, que passa a atuar como sugar baby para bancar a vida enquanto cursa a faculdade de artes. Ela começa a se envolver com diferentes homens, cada um com desejos bem específicos. Um deles é Elis (Sam Trammell), um cirurgião plástico que tem tesão pela mumificação.
Na cena Jules aparece sendo envolvida dos pés à cabeça em plástico filme, com os braços erguidos, deixando apenas a boca livre para respirar, enquanto Ellis observa seu corpo imóvel como parte da sua excitação.
Apesar do estranhamento que a sequência pode causar à primeira vista, o fetiche de mumificação existe fora da ficção e, ainda que seja visto como uma prática “extrema”, pode ser uma fonte de prazer para algumas pessoas.
O que é o fetiche da mumificação?
O fetiche da mumificação é uma prática sexual em que a pessoa tem o corpo envolvido — total ou parcialmente — com materiais como plástico filme, fitas, bandagens ou tecidos para restringir os movimentos. Inserido no universo do BDSM, a mumificação é uma forma de bondage, dinâmica que usa a imobilização como fonte de prazer. É uma prática considerada extrema e deve ser realizada por pessoas com um vasto conhecimento dentro do BDSM, para que a dinâmica seja segura.
A excitação pode morar tanto na sensação de perda de controle do próprio corpo quanto na dinâmica de poder estabelecida entre quem é imobilizado e quem conduz a prática. Para a sexóloga Michelle Sampaio, integrante da Diretoria Executiva da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS), essa perda temporária de controle pode, para algumas pessoas, não ter nada a ver com desespero.
“Quem se identifica com a mumificação pode experimentar um estado de relaxamento profundo e uma excitação muito grande”, explica Sampaio. Segundo a sexóloga, a prática também costuma envolver uma sensação de “perigo seguro”; “A pessoa vai até o próprio limite, mas dentro de um cenário previamente combinado. Isso inclui negociação, consentimento, definição clara de até onde ir e o uso de palavras de segurança”, diz.
Quais são os riscos na mumificação erótica?
Além das sensações de prazer que podem ser inúmeras, a prática também pode envolver uma necessidade de regulação emocional. Já que envolve lidar com estímulos físicos e psicológicos sem perder a consciência do próprio corpo.
Sampaio alerta que existem riscos físicos relevantes, especialmente por se tratar de uma restrição quase total de movimentos e respiração. “Como, por exemplo, a asfixia, um superaquecimento do corpo e, às vezes, a incapacidade de pedir ajuda. Por isso é preciso tomar muito cuidado”, adverte.
Nesses casos, é fundamental que quem conduz a prática esteja atento aos sinais da parceria, principalmente quando a comunicação verbal fica limitada. Por isso, é indispensável que tudo seja previamente combinado e ajustado durante a dinâmica. “É preciso definir válvulas de segurança como safewords ou outros sinais para interromper a experiência se houver desconforto”, aconselha Sampaio.
Como a representação de fetiches em séries como Euphoria podem influenciar a percepção sobre as práticas?
Para Sampaio a presença de fetiches como a mumificação em séries como Euphoria ou qualquer outra obra midiática podem ajudar a ampliar o repertório sobre sexualidade. “A mídia muitas vezes retrata o que já existe. Quando os fetiches aparecem, podem ajudar a expandir o vocabulário sobre desejo e até diminuir preconceitos em relação a práticas pouco visibilizadas”, explica.
Por outro lado, a especialista ressalta que nem sempre as cenas ficcionais retratam os cuidados necessários e podem gerar uma percepção distorcida. No caso da cena de Jules, por exemplo, o foco está apenas na imobilização, sem mostrar o que vem depois ou os combinados feitos antes da prática.“É importante ter cuidado com essas representações, porque elas podem passar a ideia de que é algo simples ou para todo mundo, quando, na verdade, exige responsabilidade, negociação e limites muito bem estabelecidos”, finaliza Sampaio.









