Sexo
Por
redação Marie Claire
— São Paulo (SP)

Uma mulher de 23 anos pede a opinião de um fórum de homens no Reddit sobre o que poderia dar de presente de aniversário para o namorado. "Ele tem sido um namorado incrível para mim e eu quero deixá-lo feliz. Ele tem me falado para não gastar dinheiro com ele", ela escreve. Em seguida, compartilha que pensou ser uma boa ideia que o presente fosse fazer sexo anal pela primeira vez.

"Sei que ele sempre quis experimentar, mas eu sempre disse não porque não estava pronta. Ultimamente, tenho considerado isso como uma surpresa de aniversário. Até comprei alguns plugs de treino para começar a me preparar e não tenho certeza de quanto tempo vai levar para eu me sentir confortável com isso. Mas estou determinada."

A reação em sequência é um tanto surpreendente: a maior parte dos comentários desencoraja que ela faça isso. "Sexo não deveria ser tratado como um presente ou uma recompensa. Uma vez que você o transforma em moeda, será difícil voltar atrás", diz um usuário. "Não faça sexo como presente. Você pode odiar, sentir dor e vai se ‘obrigar’ a aguentar porque você ‘prometeu’”, aconselha outro.

A lógica é um tanto comum. Para marcar uma ocasião especial, você dá algo novo no sexo. O sexo anal é um campeão conhecido (já que é considerado tabu até os dias de hoje e, por isso, mexa muito com a libido), mas você pode substituir isso por ir a uma casa de swing, fazer um ménage ou testar um fetiche do BDSM, por exemplo. Experimentar coisas novas sempre é legítimo e é uma forma saudável de explorar o próprio prazer e fortalecer a conexão. Mas dar algo novo de presente é realmente uma boa ideia?

Sexo não deve ser barganha, nem recompensa

Práticas pouco frequentes, não experimentadas ou consideradas extremas e muito diferentes da rotina podem ganhar um tom de comemoração. Mas a sexóloga e terapeuta de casais Mari Williams diz que essa é uma armadilha.

"É muito importante que o sexo não vire moeda de barganha no relacionamento, seja por ser aniversário, porque ele recebeu uma promoção ou porque tratou você bem ao longo do dia”, defende. Por mais que essa máxima seja verdadeira, por muito tempo mulheres foram incentivadas a viver o sexo a partir dos desejos do marido. Eles se colocam no papel de cobradores e são quem dita o que vai se fazer e como — muitas vezes, independentemente da vontade da parceira. É dentro desse cenário que podem aparecer ameaças como “Se você não fizer, eu vou procurar na rua.”

“Nós, mulheres, tentamos nos enganar muitas vezes pensando ‘Eu até queria’ ou ‘Fiz porque era mais fácil do que dizer não’. Mas a gente sabe quando a gente quer e quando não quer. Precisamos silenciar um pouco a voz externa e tentar dar voz de verdade ao nosso desejo sem que isso vire um problema na relação.”

Quando falamos de sexualidade feminina, deve-se lembrar que, até, elas são ensinadas a não se interessassem por sexo, enquanto os homens são incentivados desde muito cedo a serem muito sexuais. Dentro do patriarcado, essa lógica ensina a eles que mulheres “devem sexo” para eles e que são os homens quem ditam as regras — ou seja, o que vai ser feito e de que jeito. Mesmo em tempos em que se fala sobre consentimento e existam leis que protejam mulheres, no dia a dia podem surgir momentos em que parece difícil negar algo por não estar confortável ou simplesmente por não querer. “É um problema se o companheiro não sabe ouvir um não na cama.”

Sem vontade genuína de todo mundo envolvido, o presente pode virar uma espécie de recompensa. Falamos mais disso, por exemplo, ao pensar se é saudável ou não fazer (e gostar de) sexo de reconciliação. “É como se a gente tivesse que conquistar práticas sexuais, não que essas práticas sexuais tenham que ser permitidas pelo nosso desejo. Temos que fazer na cama o que temos vontade, e não porque achamos que temos que agradar o outro”, diz Williams.

Experimente, sim! Mas escolha outro momento

Não nos entenda errado: não estamos dizendo que por conta disso tudo você não pode desejar muito testar sexo anal ou qualquer outra prática. O que a sexóloga recomenda é que você faça isso em outra ocasião e somente se tiver vontade genuína e estiver confortável. Tudo bem se você não se sentir pronta, confortável ou não quiser fazer: respeite seu momento e seus desejos sempre. "Práticas sexuais têm que ser consentidas pelas duas pessoas, não importa quando”, reforça.

Se você topar testar e quer que fique claro os momentos em que está confortável ou não, você pode querer conhecer mais sobre consentimento entusiasmo: é quando um conjunto de ações, gestos e palavras indicam um “sim” sem nenhuma dúvida. Desta maneira, você pode comunicar melhor seus limites.

Agora, se a ideia for um presente, existem outras formas muito melhores. Vocês podem, por exemplo, testar um sex toys a dois; apostar em lingeries, trajes e fantasias para colocar um desejo que já amam em prática; ou descobrir um jogo sexual para a tensão sexual crescer aos poucos. Deixe para testar o novo em outro momento (mas só se você quiser, tá?).

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