Um Só Planeta

Por Carolina Ingizza


“É o modo de vida das pessoas ribeirinhas, das comunidades tradicionais e dos povos indígenas que mantém a floresta de pé e os rios protegidos. Há de se garantir a qualidade de vida dessas pessoas para que o ecossistema esteja saudável e vivo.”

Essa é a visão que a líder indígena Vanda Ortega, do povo witoto, tem de sustentabilidade. “É um equívoco quando a pauta ambiental está exclusivamente centrada na proteção da floresta e dos animais sem considerar a vida das pessoas”, ela continua.

É só a partir da ocupação desses espaços que podemos lutar para efetivação das políticas públicas para indígenas.
— Vanda Witoto

A líder indígena de 35 anos, formada como técnica de enfermagem, contou a Marie Claire que foi para defender seus ideais que disputou um cargo público pela primeira vez. Na eleição de 2022, saiu como candidata da Rede Sustentabilidade para a Câmara dos Deputados. “É só a partir da ocupação desses espaços que podemos lutar para efetivação das políticas públicas para indígenas.”

Vanda Witoto — Foto: Divulgação
Vanda Witoto — Foto: Divulgação

Apesar de não ter sido eleita, recebeu mais de 20 mil votos só na cidade de Manaus, o que abre espaço para sua candidatura como vereadora em 2024. “Vivemos um momento histórico, sobretudo com a indicação de uma mulher indígena para ocupar o maior escalão do governo com um ministério”, afirma Vanda sobre a nomeação de Sonia Guajajara pelo presidente Lula para ocupar o recém-criado Ministério dos Povos Indígenas do Brasil.

A nomeação de sua companheira partidária Marina Silva para a Pasta do Meio Ambiente e Mudança do Clima também foi recebida com alegria por ela. “Estou com o coração cheio de esperança de que os próximos quatro anos serão de fortalecimento das políticas indígenas e das políticas ambientais no nosso país.”

A terrível pandemia

Formiga Brava: o nome indígena witoto de Vanda não poderia ser mais representativo de sua luta no Amazonas. A ativista ficou conhecida internacionalmente durante a pandemia por seu trabalho com os indígenas do Amazonas. Ao ver seus parentes adoecer e morrer sem cuidados na comunidade do Parque das Tribos, onde moram mais de 700 famílias indígenas em Manaus, cansou de esperar pelo poder público e organizou uma unidade própria de cuidados usando redes e doações de oxigênio.

“A pandemia foi terrível para nossa comunidade, especialmente com a morte do nosso cacique. Vimos a negligência do Estado para a população indígena, mas isso também nos fez ampliar a voz para dizer o que o Estado brasileiro faz com os povos originários”, conta Vanda.

Seu trabalho de saúde na comunidade chamou atenção e, em janeiro de 2021, foi convidada para ser a primeira pessoa vacinada contra o coronavírus no estado. Com cocar de penas coloridas, pintura indígena e chocalho maracá, recebeu a primeira dose da vacina Coronavac. “Depois de ver os governantes não atender o nosso povo, mesmo estando em uma capital, percebi que precisávamos ocupar o espaço político.”

Do igarapé à política

O acolhimento da Igreja manteve vivo o meu povo fisicamente, mas provocou um etnocídio. Cresci sem falar a nossa língua e sem praticar os rituais witotos

Vanda nasceu e cresceu até os 10 anos de idade na Aldeia Colônia, na região do Alto Solimões, a cerca de 900 quilômetros de Manaus. Da infância, diz se lembrar da relação da comunidade com o igarapé Porto Ortega. “Aprendia a nadar e depois ia para a roça da família, onde tínhamos na plantação macaxeira, banana, cana, abacaxi, cará e pupunha.”

A líder política diz que foi só depois de adulta que revisitou as memórias de criança para entender sua herança witoto. Esse povo indígena, que originalmente era da Colômbia, fugiu da escravidão da borracha em direção ao Brasil há cerca de 120 anos. Foi a bisavó de Vanda que chegou na região de Porto Ortega e foi acolhida pela Igreja Católica no território chamado de Aldeia Colônia. “O acolhimento da Igreja manteve vivo o meu povo fisicamente, mas provocou um etnocídio. Cresci sem falar a nossa língua e sem praticar os rituais witotos”, conta Vanda.

Com estudos sobre seu povo, percebeu que os bailes que a avó organizava para os santos católicos traziam muito da cultura witoto. “No período dos festejos minha avó oferecia comida, matava animais de caça, porcos, galinhas e peixes. A colonização não conseguiu tirar do meu povo essa memória alimentar, essa conexão com o que a terra nos dá”, diz Vanda.

Aos 10 anos, Vanda deixou a comunidade em direção à cidade de Amaturá ao lado da sua família – a mudança foi motivada pelo desejo de seu pai de que ela tivesse oportunidades melhores de estudo. “Fiquei seis anos por lá, até ser levada para Manaus para ser babá e empregada doméstica.”

A educação é uma ferramenta de transformação e um caminho para que a gente possa ser livre para contar a própria história.

Seus primeiros anos em Manaus foram os mais difíceis. Ficou oito anos trabalhando e morando com outras famílias como empregada doméstica, ganhando cerca de R$ 100 por mês.“Vivenciei exploração e assédio sexual nas casas em que passei”, diz. Para ela, foi a educação que a salvou. Sem perder um dia de aula, ficou próxima de professores e colegas de sala, que eram seu refúgio da realidade. Foi uma de suas professoras de colégio que, em 2009, conseguiu para ela uma oportunidade de trabalho em uma doceria da cidade, o que permitiu que alugasse um espaço próprio.

Determinada a continuar estudando, Vanda chegou à gerência de uma das unidades da doceria e pôde pagar um curso de enfermagem. Quatro anos mais tarde, realizou o sonho do pai e começou a cursar Pedagogia na Universidade Federal do Amazonas – curso que concilia hoje com a carreira política. “A educação é uma ferramenta de transformação e um caminho para que a gente possa ser livre para contar a própria história.”

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