'A arte é uma ferramenta de luta': a história da multiartista indígena Tamikuã Txihi
A multiartista Tamikuã Txihi, 31 anos, deixou a Terra Indígena Pataxó, na Bahia, para ajudar na recuperação da Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo. Hoje, ela coordena a Toka da Onça Oka, espaço dedicado à preservação da Mata Atlântica, à cultura indígena, e cria obras em telas, murais, esculturas e pinturas corporais que celebram sua ancestralidade
Aos 4 ou 5 anos, Tamikuã Txihi brincava com outras crianças em uma roça de mandioca afastada na Terra Indígena Pataxó, na Bahia, quando encontrou três filhotes de gato. Animada, levou os filhotes para a aldeia, mas logo os adultos perceberam que não se tratava de gatinhos, e sim de filhotes de onça-pintada, um dos animais mais perigosos da floresta. “Foi preciso muito cuidado para devolver os filhotes à mãe, que provavelmente estava caçando. Nos pintamos com lama e nos aproximamos devagar para que ela não nos notasse”, relembra Tamikuã, hoje com 31 anos.
Ela é uma multiartista e liderança indígena respeitada, vivendo na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo, desde 2015. Esse encontro marcante com os filhotes de onça foi o início de uma série de ensinamentos que Tamikuã recebeu de sua mãe e avó sobre a relação com esses animais. “Minhas ancestrais me ensinaram como lidar e respeitar as onças. Elas são parte do nosso povo. Minha família carrega nomes ligados a elas, e meu nome, Tamikuã Txihi, remete à estrela originária, que é a onça na nossa cultura”, explica.
Além de serem importantes para o ecossistema da Mata Atlântica, as onças têm um profundo significado cultural e espiritual para o povo Pataxó. Elas simbolizam a luta pela vida e pela preservação dos povos indígenas e da natureza. “A onça é um ser que conhece o céu, as águas e a terra. Quando nos pintamos, temos a força dela”, diz Tamikuã, resgatando as histórias que sua mãe e sua avó lhe contavam na infância.
As onças também são a principal inspiração artística de Tamikuã. Elas aparecem em suas obras, que incluem pinturas corporais, telas, esculturas e murais. Sua arte já foi exposta em importantes instituições, como a Pinacoteca de São Paulo, o Itaú Cultural, o Museu da Língua Portuguesa e Tufts University Art Galleries, em Boston, nos Estados Unidos. Em 2022, Tamikuã foi indicada ao Prêmio PIPA, uma das maiores premiações de arte contemporânea no Brasil.
As onças também estão presentes em outro importante projeto de Tamikuã: a Toka da Onça Oka, um espaço cultural que ela fundou há quase dez anos na Terra Indígena Jaraguá. Dedicado à memória viva, à recuperação da Mata Atlântica e ao fortalecimento da cultura indígena, o espaço reúne pequenas construções erguidas por Tamikuã, incluindo a casa onde vive, com ilustrações de onças nas paredes, e a “casa de fazer farinha”, um local de produção coletiva onde recebe parentes de comunidades próximas. Lá, além de produzirem alimentos, como farinha e bebidas de mandioca, eles praticam a cultura indígena por meio de cânticos, trocas de saberes e aulas de guarani para crianças.
“Tudo aqui é feito por nós, não por falta de recursos, mas porque isso é vida. A terra ama ser manipulada pelas nossas mãos. Para nós, ela é sagrada”, afirma. A Toka da Onça Oka reflete essa conexão profunda com a terra e as tradições indígenas. “Trabalho para que as futuras gerações mantenham viva a cultura indígena da Abya Ayala (América Latina)”, diz ela, orgulhosa de seu legado.
Nascida na Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, na Bahia, Tamikuã enfrentou dificuldades desde cedo. Aos 7 anos, presenciou a morte de sua mãe, Honorina Sussuarana, assassinada em sua frente, durante um conflito de posse de terra. Ela também foi ferida a tiros, ficando com cicatrizes no ombro direito. Criada pelas irmãs mais velhas, Tamikuã se emancipou aos 16 anos. Aos 21, mudou-se para São Paulo, a convite do cacique Ari Augusto Martins, que liderava a recuperação do território do Jaraguá. Seu objetivo era fortalecer a luta pela terra e pela preservação da cultura indígena.
Apesar das adversidades, incluindo a falta de recursos para pagar transporte até a faculdade – o que a fez caminhar cinco horas para as aulas –, Tamikuã se formou em Serviço Social. “Estudar fortalece nosso povo. Com o diploma, ganhei mais ferramentas para lutar pelos nossos direitos”, afirma.
Em 2019, Tamikuã foi convidada para participar da Mostra Regional M’Bai, em Embu das Artes (SP), junto a outros artistas indígenas. No entanto, na véspera da exposição, o Centro Cultural foi invadido e algumas de suas esculturas de onças foram destruídas. “Foi um momento de muita dor, especialmente em um contexto político tão difícil no Brasil. As esculturas foram quebradas e urinaram sobre elas”, lembra.
Mesmo diante desse ataque, Tamikuã transformou o ato de violência em resistência. No ano seguinte, ela expôs as esculturas quebradas ao lado de outras onças na Pinacoteca de São Paulo, como símbolo da força e da conexão ancestral.
A luta de Tamikuã pela preservação dos territórios indígenas e da cultura de seu povo reflete um cenário mais amplo de resistência. Sua história está entrelaçada com a de outros importantes ativistas indígenas, como Galdino Jesus dos Santos, assassinado em 1997, e Nega Pataxó, morta em janeiro deste ano, ambos em meio à luta pela demarcação de terras. Essas perdas trágicas ressaltam a urgência da luta pelos direitos indígenas no Brasil, um tema que está no centro da vida e da obra de Tamikuã.
“Através da minha arte, quero ser uma ponte entre culturas e preservar a memória do meu povo. A arte é uma ferramenta de luta, como arco e flecha, que lança nossos sonhos para o futuro”, finaliza.









