Um Só Planeta
Por
Mariana Gonzalez
, em colaboração para Marie Claire — São Paulo

Aos 4 ou 5 anos, Tamikuã Txihi brincava com outras crianças em uma roça de mandioca afastada na Terra Indígena Pataxó, na Bahia, quando encontrou três filhotes de gato. Animada, levou os filhotes para a aldeia, mas logo os adultos perceberam que não se tratava de gatinhos, e sim de filhotes de onça-pintada, um dos animais mais perigosos da floresta. “Foi preciso muito cuidado para devolver os filhotes à mãe, que provavelmente estava caçando. Nos pintamos com lama e nos aproximamos devagar para que ela não nos notasse”, relembra Tamikuã, hoje com 31 anos.

Ela é uma multiartista e liderança indígena respeitada, vivendo na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo, desde 2015. Esse encontro marcante com os filhotes de onça foi o início de uma série de ensinamentos que Tamikuã recebeu de sua mãe e avó sobre a relação com esses animais. “Minhas ancestrais me ensinaram como lidar e respeitar as onças. Elas são parte do nosso povo. Minha família carrega nomes ligados a elas, e meu nome, Tamikuã Txihi, remete à estrela originária, que é a onça na nossa cultura”, explica.

Além de serem importantes para o ecossistema da Mata Atlântica, as onças têm um profundo significado cultural e espiritual para o povo Pataxó. Elas simbolizam a luta pela vida e pela preservação dos povos indígenas e da natureza. “A onça é um ser que conhece o céu, as águas e a terra. Quando nos pintamos, temos a força dela”, diz Tamikuã, resgatando as histórias que sua mãe e sua avó lhe contavam na infância.

As onças também são a principal inspiração artística de Tamikuã. Elas aparecem em suas obras, que incluem pinturas corporais, telas, esculturas e murais. Sua arte já foi exposta em importantes instituições, como a Pinacoteca de São Paulo, o Itaú Cultural, o Museu da Língua Portuguesa e Tufts University Art Galleries, em Boston, nos Estados Unidos. Em 2022, Tamikuã foi indicada ao Prêmio PIPA, uma das maiores premiações de arte contemporânea no Brasil.

'A onça é um ser que conhece o céu, as águas e a terra. Quando nos pintamos, temos a força dela' — Foto: Paulo Vitale
'A onça é um ser que conhece o céu, as águas e a terra. Quando nos pintamos, temos a força dela' — Foto: Paulo Vitale

As onças também estão presentes em outro importante projeto de Tamikuã: a Toka da Onça Oka, um espaço cultural que ela fundou há quase dez anos na Terra Indígena Jaraguá. Dedicado à memória viva, à recuperação da Mata Atlântica e ao fortalecimento da cultura indígena, o espaço reúne pequenas construções erguidas por Tamikuã, incluindo a casa onde vive, com ilustrações de onças nas paredes, e a “casa de fazer farinha”, um local de produção coletiva onde recebe parentes de comunidades próximas. Lá, além de produzirem alimentos, como farinha e bebidas de mandioca, eles praticam a cultura indígena por meio de cânticos, trocas de saberes e aulas de guarani para crianças.

“Tudo aqui é feito por nós, não por falta de recursos, mas porque isso é vida. A terra ama ser manipulada pelas nossas mãos. Para nós, ela é sagrada”, afirma. A Toka da Onça Oka reflete essa conexão profunda com a terra e as tradições indígenas. “Trabalho para que as futuras gerações mantenham viva a cultura indígena da Abya Ayala (América Latina)”, diz ela, orgulhosa de seu legado.

'Tudo aqui é feito por nós. A terra ama ser manipulada pelas nossas mãos. Para nós, ela é sagrada' — Foto: Paulo Vitale
'Tudo aqui é feito por nós. A terra ama ser manipulada pelas nossas mãos. Para nós, ela é sagrada' — Foto: Paulo Vitale

Nascida na Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, na Bahia, Tamikuã enfrentou dificuldades desde cedo. Aos 7 anos, presenciou a morte de sua mãe, Honorina Sussuarana, assassinada em sua frente, durante um conflito de posse de terra. Ela também foi ferida a tiros, ficando com cicatrizes no ombro direito. Criada pelas irmãs mais velhas, Tamikuã se emancipou aos 16 anos. Aos 21, mudou-se para São Paulo, a convite do cacique Ari Augusto Martins, que liderava a recuperação do território do Jaraguá. Seu objetivo era fortalecer a luta pela terra e pela preservação da cultura indígena.

Apesar das adversidades, incluindo a falta de recursos para pagar transporte até a faculdade – o que a fez caminhar cinco horas para as aulas –, Tamikuã se formou em Serviço Social. “Estudar fortalece nosso povo. Com o diploma, ganhei mais ferramentas para lutar pelos nossos direitos”, afirma.

Em 2019, Tamikuã foi convidada para participar da Mostra Regional M’Bai, em Embu das Artes (SP), junto a outros artistas indígenas. No entanto, na véspera da exposição, o Centro Cultural foi invadido e algumas de suas esculturas de onças foram destruídas. “Foi um momento de muita dor, especialmente em um contexto político tão difícil no Brasil. As esculturas foram quebradas e urinaram sobre elas”, lembra.

Mesmo diante desse ataque, Tamikuã transformou o ato de violência em resistência. No ano seguinte, ela expôs as esculturas quebradas ao lado de outras onças na Pinacoteca de São Paulo, como símbolo da força e da conexão ancestral.

A luta de Tamikuã pela preservação dos territórios indígenas e da cultura de seu povo reflete um cenário mais amplo de resistência. Sua história está entrelaçada com a de outros importantes ativistas indígenas, como Galdino Jesus dos Santos, assassinado em 1997, e Nega Pataxó, morta em janeiro deste ano, ambos em meio à luta pela demarcação de terras. Essas perdas trágicas ressaltam a urgência da luta pelos direitos indígenas no Brasil, um tema que está no centro da vida e da obra de Tamikuã.

“Através da minha arte, quero ser uma ponte entre culturas e preservar a memória do meu povo. A arte é uma ferramenta de luta, como arco e flecha, que lança nossos sonhos para o futuro”, finaliza.

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