‘Tenho medo que façam comigo o mesmo que fizeram com meu pai’, diz Angela Mendes, filha de Chico Mendes
Em entrevista para Marie Claire, a ativista socioambiental fala sobre o trabalho de manter vivos o legado e a memória de Chico Mendes, que completaria 80 anos neste domingo. Também conta da criação longe da família e do dia em que recebeu a notícia da morte do pai, assassinado em dezembro de 1988: 'O chão se abriu sob os meus pés'
Era um final de tarde de dezembro de 1988 quando Angela Mendes, aos 19 anos, recebeu a notícia que tanto temia: seu pai, Chico Mendes, líder seringueiro e ativista ambiental, havia sido assassinado. “O chão se abriu sob os meus pés”, descreve em entrevista a Marie Claire. Não havia telefone na casa onde vivia em Rio Branco e foi um vizinho quem a contou da morte do pai, que neste domingo (15) completaria 80 anos. “Não sei o que aconteceu depois, tive um apagão.”
Angela ainda era bebê quando foi levada do seringal onde nasceu para viver com os tios na capital do Acre, para tratar de questões de saúde. “Ninguém sabia o que era, não tinha diagnóstico. Chamavam de ‘doença de criança’”, conta. Dois anos antes do assassinato, Angela e o pai se reaproximaram em Xapuri. Passou a visitá-lo e entender o tamanho da importância de Chico Mendes.
“Por mais que a gente soubesse das ameaças, não imaginava perdê-lo naquele momento. Estava tão bom conviver com ele, aprender com ele, ver a necessidade que o mundo tinha dele. Descobri ali que o amava e que não o teria mais, e nem recuperaria o tempo que passamos longe, que era o que estávamos tentando fazer nos últimos anos.”
Na noite do assassinato nasceria o Comitê Chico Mendes, criado por lideranças políticas e de direitos humanos para exigir que o crime não ficasse impune. Dois anos depois, em dezembro de 1990, a justiça condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva e seu filho, Darcy Alves Ferreira a 19 anos de prisão pela morte. A principal testemunha do caso foi um empregado de 13 anos da fazenda de Darly, Genésio Ferreira da Silva.
Abaixo, a entrevista completa com Angela Mendes:
MARIE CLAIRE Qual a atuação do Comitê Chico Mendes, que você preside?
ANGELA MENDES A organização nasce na noite do assassinato do meu pai, pela comoção dos companheiros que decidem naquele momento que precisavam mobilizar a sociedade para não se esquecer a trajetória do Chico e pressionar por justiça após seu assassinato. Naquela época, como hoje, o Brasil liderava a morte de ativistas. A impunidade era grande e havia a certeza de que se nao fosse o movimento de mobilizacao, o assassinato dele cairia no esquecimento, como fizeram com outras lideranças.
Para manter a memória do Chico, criaram a Semana Chico Mendes e isso foi crescendo. Em 2009, comecei a coordenar o comitê. Meu pai deixou a “Carta aos jovens do futuro” e pensei que era o momento da gente entender o que ele queria dizer. Ele fala da revolução protagonizada pelos jovens. Criamos então o núcleo jovem dentro do comitê para dialogar com a juventude e criar as narrativas que vão levar o legado do Chico. Fazemos educação e sensibilização ambiental em escolas, parques, as parcerias foram se ampliando. Em 2020 criamos o festival Jovens do Futuro para celebrar essa carta. Em 2021, com o cenário político cada vez mais difícil, decidimos nos institucionalizar para ter mais estrutura, organicidade e conseguir dar resposta ao trabalho que a gente fazia. O que a gente já fazia de forma amadora, começamos a fazer com mais substância para causar maior impacto e sermos um apoio maior.
Nossas ações são voltadas à juventude e mulheres do território, fazemos formações em comunicação, de lideranças, fortalecemos as redes, os coletivos que já existem, promovemos também o surgimento de outras redes.
MC Como foi sua infância? Em que momento você passou a atuar como ativista?
AM Foi complexa, complicada. Com 24 anos, fui trabalhar no CTA (Centro de Trabalhadores da Amazônia), fundado pelo meu pai. A partir daí começo a me preocupar em descobrir que pai é esse que tive, porque fui desligada dos meus pais biológicos ainda bebê por conta de problemas de saúde. Minha irmã morreu do mesmo problema que eu, com 11 meses de idade. Não havia diagnóstico dentro do seringal, a dias de qualquer acesso à saúde. Chamavam de doença de criança. Ela foi enterrada dentro da floresta mesmo. A vida no seringal ainda é assim em alguns lugares.
Fui criada pelos meus tios, que me trouxeram para Rio Branco. Perdi o contato e o laço com meu lugar, minha família biológica. Fui criada distante disso. O que me aproxima ao meu pai foi que, pouco antes dele ser assassinado, comecei a acompanhar o que saía dele na imprensa, as ameaças, e perceber o alcance do que ele fazia. Meu pai começou a ganhar mídia em 87, quando ele ganha prêmio, e paralisa obras da BR 364. Então a imprensa massacrou ele, chamavam ele de vagabundo.
Nessa época comecei a ir para Xapuri e ficava com meu pai. Fui tomando ciência da importância dele. Ele já era presidente do sindicato, uma pessoa muito articulada, preocupada, inclusive com sua própria vida. Ele avisou todo mundo das ameaças que recebia. Passei muito pouco tempo com ele porque dois anos antes dele ser assassinado é que fomos nos aproximando.
Quando ele foi assassinado, uma amiga ligou para uma vizinha porque não tínhamos telefone. Foi muito tenso, muito delicado. Fui procurada pela imprensa, não tinha a menor noção de nada e de repente me vejo cercada por esse mundo de jornalistas, ambientalistas, gente que nunca trocou uma palavra com meu pai e me diziam que eram amigos dele de infância.
Me vi sozinha nessa situação para lidar com tudo. Minha mãe já tinha outra vida, outra família. Meus tios também se separaram. Eu morava com minha tia, uma pessoa simples, que também não entendia disso tudo.
No auge da dor da perda do meu pai, me descobri grávida da Angélica. Isso amenizou a situação. Mas também passei muitos perrengues na gravidez, de saúde, e fatores externos como essa pressão sobre o legado político do meu pai. Me envolveram em coisas muito tristes e pesadas e tive que proteger a mim, minha filha e minha mãe biológica, que também foi envolvida na disputa de imagem. Foi um período muito difícil e me afastei de tudo isso. Adoeci, foi horrível.
Depois de anos, quando tudo se acalmou, fui voltando, ressurgindo das cinzas. Tive a Angélica, depois de cinco anos tive o João Gabriel. Comecei a me reequilibrar. Fui trabalhar no CTA, me aproximei mais do comitê.
MC Pode nos contar como foi o dia que você soube da morte do seu pai?
AM Com essa vinda para a cidade, me afastei dos parentes do seringal. A notícia que tínhamos era por mensagem. Tinha uma rádio difusora acreana, a nossa única fonte de comunicação. Quando eu tinha uns 6 anos, recebemos no final da tarde uma mensagem com a morte do meu avô. Essa minha tia se desesperou de uma forma que então tive medo de perder alguém que eu amasse. O que vi ali era totalmente surreal. Coloquei na cabeça que não ia perder alguém que eu amasse para não sentir aquilo. Então quando havia notícias do meu pai sendo ameaçado, tentava internalizar que não o amava por não termos convivido, para não sofrer essa morte. Tive que trabalhar muito isso. Como se estivesse me preparando para esse dia que todo mundo imaginou que chegaria.
Era um final de tarde, estava em casa depois do trabalho. Meu vizinho era meu tio, muito amigo do meu pai. Ele me contou: ‘mataram seu pai’. Não sei o que aconteceu depois, tive um apagão. Parecia que o chão abriu sob os meus pés e depois voltei, nos braços do meu tio.
Por mais que a gente soubesse das ameaças, não imaginava perdê-lo naquele momento. Estava tão bom conviver com ele, aprender com ele, ver a necessidade que o mundo tinha dele. Foi uma perda tão profunda saber que não teria ele para me ensinar tudo que ainda tinha para aprender. Foi a perda do meu pai de uma forma que me estranha. Me preparei para isso, mas nunca vamos estar preparadas para perder. E o fato de estar longe também não é motivo para não amar. Descobri ali que o amava e que não o teria mais, e nem recuperaria o tempo que passamos longe, que era o que estávamos tentando fazer nos últimos anos. Depois da morte do meu pai, enfrentei muitas dificuldades para cravar meu lugar.
MC Quais dificuldades?
AM Primeiro, o fato de ser uma mulher. O mundo ainda não aceita com bons olhos e enfrento machismo dentro e fora da organização. Diziam que não tinha direito a ser filha do Chico porque não fui criada no território. Ouvi de um dos líderes do movimento da época, ex-padre, que, se não abrisse mão do nome do meu pai, poderia me prejudicar e nunca mais conseguiria um emprego no Acre. Passei por esse tipo de coisa sozinha e grávida. Não fiquei com o pai da minha filha. Meus irmãos por parte de pai têm seus trabalhos. No comitê só estou eu, que me aproximei dos amigos do meu pai que criaram a organização.
MC Você disse que o comitê foi criado para exigir justiça após assassinato do seu pai. Considera que a justiça foi feita?
AM A pena de 19 anos acho muito pequena, até porque tinham condenações de outros crimes. A principal testemunha do caso, que escreveu depois um livro, fala das atrocidades que essa família cometia sem nenhum incômodo da policia local da época. E eles fugiram, passaram parte da pena foragidos. Hoje estão lá, ricos, com muito gado, fazenda. Darly e os filhos. O filho que matou mora no Pará, tempos atrás estava presidindo o PL. Foi tirado porque ganhou repercussão nacional. Mas está muito bem, virou pastor evangélico, rico, fazendeiro.
MC Você já encontrou eles em Xapuri?
AM Encontrei um dos filhos do Darly. Foi assustador. Não sabia quem ele era mas me bateu uma energia tão ruim que no íntimo eu soube. Foi péssimo. E uma vez estava em um escritório de advocacia onde uma amiga trabalhava. Fui esperá-la para almoçar e o telefone tocou. Quando atendi, a pessoa falou que queria falar com o advogado. Eu avisei que não estava e perguntei se queria deixar recado. Ele falou: aqui é o Darly, diga que liguei. Me deu um gelo. Falei: ‘O senhor sabe com quem está falando? Com a filha do homem que o senhor mandou matar’. Ele respondeu: ‘Um dia você vai descobrir toda a verdade’. Não tive estômago para continuar. Fiquei super nervosa e desliguei o telefone.
MC Você já recebeu algum tipo de ameaça?
AM Não, até porque não fico no território, meu trabalho lá é pontual. Não faço enfrentamento frente a frente, meus embates se dão no debate. Mas temos os cuidados. Nunca vou para esses lugares sozinha, e nem com nada que me identifique.
MC Você tem medo que aconteça com você o que aconteceu com seu pai?
AM Se você me perguntasse isso seis anos atrás, te diria que não tenho. Mas esse último governo extraiu das pessoas o ódio tão irracional contra ativistas, pessoas que defendem a natureza, a floresta, que hoje tenho medo sim. A gente não sabe quando vai encontrar um maluco que pode nos agredir. Tenho muito medo porque é cada vez maior o número de agentes do estado envolvidos nessas questões, sobretudo as polícias. Tem policial rodoviário aqui que é segurança de fazendeiro.
MC Qual a situação das reservas extrativistas hoje? Quais as principais demandas?
AM A gente celebra tanto esse território, que era o sonho do meu pai. Se não tivesse sido criado, não teríamos centenas de milhares de hectares de floresta de pé. O sonho dos fazendeiros ao redor é conseguir botar a mão nas áreas das RESEX. Mas não é fácil. Por um período as coisas avançaram, no campo da educação. Tem escola de ensino médio, tem lugares com produtividade, em que as comunidades avançaram mais. Mas não é linear. Temos muitos desafios no território. Muita coisa piorou com todo o desmonte do governo Bolsonaro. Mesmo com dois anos de Lula, continua engessado pela extrema-direita, que continua dando as cartas no Congresso. As coisas estão andando muito devagar no governo Lula. As pessoas estão lá com essas dificuldades, com invasões tanto por grileiros quanto por facções. Assediando a juventude e fazendo ponto de comércio de drogas, armas. Desmatamento.
A falta de acesso a políticas públicas que valorizem a pessoa que está lá prestando um serviço tão importante tem feito com que vendam suas áreas na reserva, e isso é um crime. Se existe hoje uma situação controlada é porque as lideranças têm pulso firme. Porque o ICMBio, que deveria promover o acesso dessas famílias a políticas públicas de valorização de produção extrativista, não consegue cumprir esse papel. A dificuldade de se tirar um invasor é enorme. Os próprios moradores reclamam da atuação do ICMBio, que é muito feroz com eles, mas não consegue fazer nada contra os invasores.
Temos um problema enorme que é a falta de uma estratégia para impulsionar esses territórios. Parte dos moradores ainda vivem nessa situação muito precária. Me parece que o meu pai teria que voltar outra vez para poder pensar numa forma de consolidar esses territórios. São 36 anos e não tivemos outra liderança que resolva esses problemas.
MC Se seu pai estivesse vivo, o que você acha que ele pensaria das RESEX?
AM Se ele estivesse vivo, a situação não seria essa. A gente teria avançado em instrumentos de gestão. Temos mais de cem processos de criação de RESEX. Meu pai não olhava só para si. A aliança dos povos da floresta fala disso. Ele já teria construído uma aliança mais ampla, envolvendo os quilombolas, ribeirinhos, todas as populações invisibilizadas. As reservas extrativistas talvez já tivessem outro nível de consolidação. Ele conduzia processos muitos inovadores para a época. Ele foi educado adulto não só para aprender o alfabeto, recebeu valores e princípios que formaram o caráter dele de liderança, sindicalista, político. Entendia o valor de uma educação com valores. Aprendeu não só a ler o alfabeto, mas o mundo, o papel de cada sujeito. Educação como instrumento de transformação, libertadora. Isso continua tão atual. Hoje já teríamos universidades da floresta, doutores da floresta, com educação voltada para o seu território.
MC Como você avalia a COP deste ano e o que espera da edição no Brasil ano que vem?
AM Os resultados foram pífios. Está na cara que o norte global não assume a responsabilidade perante a situação de urgência climática. Querem que o sul global pague a conta, como se tivessem direito de explorar o mundo achando que os outros países vão arcar com as consequências. Isso não vai mudar. Lula será cobrado por isso no ano que vem, o mundo vai cobrar um resultado que ninguém quis dar nesta COP. Será uma COP num estado com um governador que não dialoga com suas populações, está negociando o carbono do Pará sem consultar as comunidades tradicionais. Um desrespeito tremendo. A gente torce por alguns bons resultados, mas a realidade nos mostra outra coisa. Essa COP tem que ser a COP do povo.









