Mudança climática não será responsável pelo fim do mundo, diz cientista ambiental
Pesquisadora em Oxford, a cientista escocesa Hannah Ritchie lança livro no Brasil em que busca desmantelar pensamento alarmista ao demonstrar soluções já existentes para que nos tornemos ‘primeira geração realmente sustentável'. Obra alerta ainda que pensar que o mundo está acabando é tão desastroso quanto negacionismo climático
Em meio ao cataclisma climático que vivemos, fica fácil acreditar que o fim do mundo está próximo. Essa ideia ecoa direta ou indiretamente no dia a dia. Basta abrir a janela para se deparar com cortinas de fumaça devido à poluição atmosférica ou com as águas das enchentes. A imprensa destaca diariamente dados sobre derretimento de calotas polares, picos de temperatura altíssimos e eventos extremos que parecem cada vez mais corriqueiros.
Nos acostumamos com a ecoansiedade, e agir parece inútil e insuficiente. Mas pensar que o mundo está acabando é tão danoso para o meio ambiente quanto o negacionismo. É o que afirma a cientista ambiental e de dados escocesa Hannah Ritchie. Na verdade, ela afirma que as mudanças climáticas não levarão ao fim do mundo.
Não, ela não descarta que o momento que vivemos é grave. Com apenas 32 anos, Ritchie acumula experiências que respaldam sua credibilidade, é pesquisadora sênior na Universidade de Oxford e editora adjunta no Our World in Data – publicação online que compila dados históricos sobre o mundo, desde fome e desigualdade até mudanças climáticas e impactos de guerra. Por mais que o cenário seja desolador, ela garante que há avanços acontecendo e soluções para (quase) todos os problemas que vivemos. Não só: Ritchie afirma que temos tudo para nos tornar a primeira geração verdadeiramente sustentável na história da humanidade.
"É comum pensarmos que a única maneira de levar as pessoas a agir em relação ao meio ambiente é assustá-las cada vez mais, mas não acho que seja verdade", diz em entrevista para Marie Claire. “O pessimismo atrapalha nossa tomada de ação porque instala a sensação de que estamos condenados. A pior coisa que podemos fazer é desistir e dizer que não adianta tomarmos uma atitude.”
Convencer que há solução e tirar as pessoas do entorpecimento é o que a motivou a escrever seu primeiro livro, Não É O Fim do Mundo (320 págs., R$ 74,90), que chegou ao Brasil no último mês pela Faro Editorial. Com uma base de dados robusta, ela analisa sete aspectos críticos que enfrentamos hoje – das mudanças climáticas e poluição aos hábitos alimentares e desmatamento. O veredito já aparece na introdução: "Em cada um desses problemas, ou estamos num momento decisivo de reviravolta para um impacto menor ou já passamos dessa fase [alarmante]".
A grande diferença, diz, é que o meio ambiente, na verdade, está melhor do que nas últimas décadas. Ao longo do tempo, conseguimos criar tecnologia suficiente para resolver essas questões – alguma ela destrincha nesta entrevista. Nada disso será conquistado somente ao rechaçar canudos de plástico, salvando determinadas espécies em detrimento de outras ou fazendo reciclagem (na verdade, tudo isso pode não ter um impacto tão grande). O que a cientista aponta é para algo que já é sabido: saídas individuais não bastam. “Um futuro sustentável não é garantido — se desejarmos um, teremos de criá-lo.” Leia a seguir os melhores momentos da entrevista com Hannah Ritchie.
MARIE CLAIRE Quais razões te levaram a escrever Não é o Fim do Mundo?
HANNAH RITCHIE Uma delas é pessoal. Por grande parte da vida, me senti assustada quanto ao futuro do planeta e o que isso significa para nós. Isso me levou a um lugar sombrio, com a sensação de que eu não poderia fazer qualquer coisa para resolver esses problemas, que se tornaram avassaladores. Nos últimos 10 anos minha perspectiva mudou bastante, mas ainda ouço de muitas pessoas, em particular jovens, que se sentem exatamente da mesma forma. Então, escrevi o livro que realmente teria me ajudado quando eu era um pouco mais jovem. A outra razão é que enfrentamos um número realmente grande e urgente de problemas ambientais, e existem muitas pessoas motivadas a contribuir, mas é difícil intuitivamente sabermos o que faz uma grande diferença e o que não faz. Há um risco de que coloquemos todo o foco no que não tem grande impacto e não nos leva a lugar nenhum.
MC Você aponta que o pessimismo em relação à situação ambiental é uma resposta ineficaz. Por quê?
HR Talvez as pessoas pensem a perspectiva de ser pessimista como conseguir ver que existe um problema grande. Na verdade não é isso. Precisamos ser capazes de vê-lo, mas também levá-los a sério. O pessimismo atrapalha nossa tomada de ação porque instala a sensação de que estamos condenados e que agir não fará diferença. Isso leva as pessoas a se sentirem fatalistas, e elas ou paralisam – porque não sabem o que fazer – ou se desligam completamente. A pior coisa que podemos fazer é desistir e dizer que não adianta tomarmos uma atitude.
MC O pessimismo pode ser tão perigoso quanto o negacionismo?
HR Assim como o pessimismo pende para o fatalismo e a inação, o resultado é o mesmo que o da negação ou recusa. A questão da negação é que se você não reconhece que existe um problema, é claro que não faz nada para resolvê-lo. Mas o outro extremo, que é quando se sabe que existe um problema mas diz que não há nada a fazer, o resultado é o mesmo.
MC O título do livro é curioso e vai numa lógica oposta de como encaramos hoje a questão ambiental. Como foi a recepção até agora?
HR No geral, a resposta tem sido positiva. Certamente houve críticas, algumas pessoas dizem que afirmar que o mundo não está acabando mina as questões e faz com que as pessoas recuem, não ajam. Diria que é o oposto. Recebi muitas mensagens de pessoas dizendo que ficaram comovidas, que o livro reacendeu o desejo delas de se envolver. Muitas pessoas que o criticam podem apenas olhar para o título e não ler o conteúdo. É comum pensarmos que a única maneira de levar as pessoas a agir em relação ao meio ambiente é assustá-las cada vez mais, mas não acho que seja verdade.
MC Para você, qual seria um cenário real de "fim do mundo"? Já não seria assim se apenas as pessoas mais ricas do mundo pudessem sobreviver, como parece estar acontecendo?
HR A mudança climática não será responsável pelo fim do mundo, nem mesmo em alguns de nossos piores cenários. Mas "fim do mundo" é uma barra muito alta para estabelecermos para nós mesmos agirmos! Os riscos de até mesmo um aquecimento moderado devem ser suficientes para que intensifiquemos e mudemos as coisas. Como argumento fortemente no livro: são os mais pobres que estão mais em risco de danos climáticos, e a crueldade é que eles são os que menos contribuíram para isso. Os países ricos e os indivíduos mais ricos precisam assumir a responsabilidade por suas ações para que não tenham um impacto terrível sobre os outros. O risco de promover cenários de "fim do mundo" é que isso pode levar as pessoas a esse estado de fatalismo, em que desistem. Mas "desistir" do progresso é um privilégio para os ricos. Eles podem sair dessa sem muitos danos, mas são aqueles com renda mais baixa que pagarão o preço.
MC Você escreve: “A humanidade se encontra em uma posição verdadeiramente única para desenvolver um mundo sustentável”. Por quê?
HR A sustentabilidade é uma equação de duas partes. Existe a necessidade de ter baixo impacto ambiental para proteger o meio ambiente para as gerações que vêm depois e outras espécies. A outra parte é também se preocupar com as pessoas na Terra hoje e querer que sejam capazes de ter uma vida boa, oportunidades e bons resultados. Precisamos atingir ambas as partes ao mesmo tempo para dizer que somos sustentáveis.
Nossos ancestrais tinham uma baixa pegada ambiental, mas o bem-estar humano e os resultados sociais que consideramos garantidos hoje simplesmente não existiam. Um exemplo que eu dou no livro é que, durante a maior parte da história humana, metade das crianças morria antes de atingir a puberdade. Se esse é um cenário que hoje parece inacreditável foi porque fizemos muito progresso na redução disso. Historicamente, este progresso veio à custa do meio ambiente: queimamos combustíveis fósseis, derrubamos florestas e expandimos nossa pegada de carbono de tal forma que estávamos desequilibrados. Agora, estamos numa posição única para fazer ambas essas coisas ao mesmo tempo. Podemos continuar a melhorar o bem-estar humano enquanto reduzimos nosso impacto no meio ambiente.
MC O que possibilita essa posição única? Qual caminho já estamos percorrendo?
HR Há políticas e tecnologias em nível governamental e social que precisam acelerar, mas que já existem. Isso já está acontecendo, mas precisa ser mais rápido. Alguns exemplo: implementar eletricidade limpa o mais rápido que pudermos – o mundo já produz energia solar e eólica suficiente para abastecer a Índia e isso só vai crescer; eletrificar nosso transporte – o que já é feito por muitos países ao proibirem a venda de novos carros a gasolina ou diesel (alguns até 2030, outros até 2035); mudar o aquecimento e o resfriamento para eletricidade – os governos, por exemplo, estão oferecendo subsídios para bombas de calor elétricas para torná-las mais baratas para os consumidores; ser duro com o desmatamento – Brasil é um bom exemplo, onde a liderança realmente importa: vimos as taxas de desmatamento aumentarem drasticamente sob Bolsonaro, mas nos últimos dois anos essas taxas na Amazônia caíram pela metade novamente. Também existem tecnologias que precisaremos para descarbonizar indústrias como a de cimento e a de aço. Embora estas ainda não estejam comercialmente disponíveis, os cientistas estão trabalhando em inovações e estou confiante de que teremos soluções implementadas nos próximos cinco a dez anos.
MC Por que não faz diferença, por exemplo, usar canudos de papel, ecobags ou parar de ter filhos por conta do "fim do mundo"?
HR Essa lógica impõe que todos nós deveríamos fazer 100 coisas diferentes todos os dias para salvar o planeta, mas a maioria das pessoas simplesmente têm outras coisas para fazer: têm filhos ou outras pessoas para cuidar, muito trabalho. Isso leva à sensação de que nunca estamos fazendo o suficiente. A realidade é que a maioria dessas 100 recomendações são compostas de coisas realmente pequenas. Como a sacola e o canudo de plástico são visíveis para nós, isso se torna um ponto chave para o que pensamos. De certa forma, estamos trabalhando muito duro, mas não estamos mudando tanto nossa pegada ambiental.
MC Um relatório da ONU de outubro de 2024 afirma que os países devem reduzir as emissões de gases em 42% até 2030 para evitar um aumento de 1,5ºC na temperatura global, algo tipo como catastrófico que poderia impactar mais as populações vulneráveis. Não deveríamos nos alarmar com isso?
HR Trato disso mais a fundo no livro. Na minha opinião, não vamos manter as temperaturas abaixo de 1,5°C. No entanto, é importante notar que este não é um problema de tudo ou nada. Uma vez que atingirmos 1,5°C, não podemos jogar os braços para o alto e desistir. Os danos das mudanças climáticas pioram a cada passo incremental de aquecimento. Não há nenhum "penhasco" à vista do qual cairemos imediatamente. Isso significa que vale a pena lutar por cada 0,1°C de aquecimento. Uma vez que passarmos de 1,5°C, tentaremos manter abaixo de 1,6°C e assim por diante. Embora não estejamos no caminho certo para ficar abaixo de 1,5°C, estamos em uma trajetória melhor do que estávamos há 10 anos. Isso significa que podemos progredir, só precisamos ir mais rápido.
MC Considera que a mídia e o jornalismo têm um papel chave na construção desse medo. Qual seria a maneira certa de comunicar sobre meio ambiente, na sua visão?
HR Sei que é um desafio para jornalistas, e entendo completamente o dilema de que vocês precisam produzir conteúdo que as pessoas vão clicar e ler; e que quanto mais dramática a manchete, mais pessoas clicam. Mas a maioria das pessoas obtém suas informações através das notícias, e tudo que estão vendo são as manchetes mais dramáticas. A chave não é parar de reportar as coisas ruins ou a urgência dessas questões, mas isso precisa ser combinado com informações específicas sobre o que as pessoas podem fazer, como devem cobrar empresas e governos. Ou seja, a solução também deve ser comunicada.
MC Por mais que traga soluções, parece que parte do porque as pessoas estão pessimistas é a falta de interesse de lideranças. Acredita nisso?
HR A realidade é que os governos estão interessados em fazer o que o público quer que eles façam, porque precisam que votemos neles. Frequentemente ouvimos sobre a falta de vontade política, mas realmente acho que, em muitos países, é mais uma falta de vontade pública. Nosso sistema político é um espelho do que a sociedade quer, e, se quisessem, as pessoas poderiam fazer uma escolha política diferente. Existe essa narrativa que diz que se todos nós apenas fizermos nossa parte e alguns sacrifícios, tudo será resolvido; ou que é um problema puramente sistêmico e indivíduos não desempenham um papel. Essa é uma falsa dicotomia. Sim, os indivíduos não vão resolver isso sozinhos, mas somos parte desse sistema e desempenhamos um papel nele. Por exemplo, o governo não vai instalar carregadores públicos para carros elétricos se não demonstrarmos interesse neles e os comprarmos – o que deve começar com os mais ricos para que, então, os preços se tornem mais acessíveis.
MC Por que a falta de vontade pública existe em relação ao meio ambiente e o clima?
HR As questões ambientais tendem a ter uma classificação alta, mas nunca estão no topo – ao contrário de economia, custo de vida e segurança. O que me mantém otimista é que muitos desses incentivos de curto prazo estão se alinhando diretamente com as soluções que precisamos para resolver a mudança climática. As pessoas não pagarão mais por energia a fim de ter uma fonte de baixo carbono, mas essa energia está ficando mais barata ou com custo competitivo com os combustíveis fósseis. Isso está começando a se alinhar. Muitas pessoas que não leram o livro assumem que é apenas sobre mudança climática. Mas esse tema é apenas um capítulo. Existem outros seis grandes problemas que enfrentamos, e todos são igualmente importantes. Ao agir em um desses, em muitos casos, também estamos melhorando os outros.
MC Como a eleição de Donald Trump, notoriamente negacionista, nos EUA impacta os avanços no cenário global?
HR Obviamente não é positivo para o clima, e acho que de muitas maneiras terá impactos prejudiciais. Diria que isso irá desacelerar ou atrasar o progresso, especificamente nos EUA, mas definitivamente não vai parar o progresso global. O impacto de seu último mandato não foi tão grande, o resto do mundo respondeu. Acredito que ele enfrentará resistências, já que até nos estados republicanos há um benefício grande com investimentos em energias limpas: faz sentido economicamente, é bom para a segurança e para gerar empregos. Fora dos EUA, estamos construindo tecnologias do século 21, e se os países que não estiverem acompanhando ficarão para trás. A China está investindo pesado em energia limpa e dominando os mercados globais. Os EUA têm a oportunidade de competir; se recuarem, meio que "a China leva tudo". Em outras partes como a Ásia ou África Subsaariana, onde estão tentando expandir o acesso à energia, simplesmente optarão pelas tecnologias mais baratas, que pouco a pouco são as mais sustentáveis.
MC No Brasil, uma das demandas dos povos indígenas é de que sejam incluídos na ciência para poderem contribuir com soluções mais sustentáveis para o mundo. Acredita que isso está acontecendo?
HR Acho que sim, mesmo que não em um nível internacional visível. No Reino Unido isso realmente não é parte da conversa da mesma forma como deve ser no Brasil. Como digo em Não É O Fim do Mundo, não vejo como possível replicar abordagens e práticas adotadas pelas populações indígenas e escalar isso para 8 bilhões de pessoas. Não funciona. Mas o que é claramente transferível para nós é a mentalidade em torno do meio ambiente. Acho que é admirável, e nós na sociedade moderna perdemos algum senso de responsabilidade pela cultivação e cuidado com a natureza. Como não tocamos nela, está meio fora dos limites para nós. Precisamos incorporar mais a mentalidade dos povos indígenas sobre o meio ambiente, mesmo que ferramentas e práticas específicas não escalem para a proporção mundial.
MC Você aponta que países ricos já atingiram o pico de desmatamento e poluição e, depois, chegaram a níveis mais sustentáveis; e que esses países devem ajudar no desempenho dos mais pobres. É um ponto que já foi defendido pelo presidente Lula. Os países ricos estão dispostos a pagar essa conta?
HR Não na medida em que eu gostaria e acho que precisamos. Os países ricos são bons em apontar o dedo e dizer o que os outros deveriam fazer, mas eles precisam contribuir. Se olharmos para a história das florestas em todo o mundo, veremos um gráfico em U invertido: todos começam com muitas florestas, depois as derrubam porque precisam de terras agrícolas para cultivar alimentos, então finalmente chegam a um ponto onde não precisam mais derrubar florestas e, então, elas começam a crescer de volta até chegar ao reflorestamento. Estas são as etapas de um modelo de transição florestal.
Agora, muitos países ricos, incluindo o Reino Unido – de onde eu sou – ou os EUA, passaram por esse modelo quando não havia acordos climáticos ou pressão internacional. Muitos estão passando por esse mesmo modelo agora. A dura realidade para muitos deles, como o Brasil, é que se pode ganhar dinheiro com o desmatamento das florestas, a criação de gado ou o cultivo de alimentos. É por isso que os países ricos deveriam contribuir para ajudar a compensar alguns desses custos de oportunidade de curto prazo que tornam a transição florestal mais difícil no momento. Especialmente quando fazemos parte de um acordo internacional e estamos pregando que “é realmente importante que o Brasil preserve a floresta amazônica”. Precisamos não apenas falar sobre isso, mas contribuir de alguma forma.









