Maria Netto, do Instituto Clima e Sociedade, pede diálogo com os povos originários na COP30: 'É uma oportunidade única'
Diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade, o iCS, ela diz que o Brasil
Por mais de uma década, Maria Netto atuou na Secretaria da Convenção sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), que organizou as primeiras conferências, ainda nos anos 1990. Lembra que os interessados eram poucos, principalmente os chamados “ambientalistas”, como ficou conhecida a geração pós-Rio 92 que já via o fim do mundo no horizonte. Quase três décadas depois, tudo mudou. Hoje, discutir a mudança cli- mática virou assunto central.
Com longa experiência em negociações, ela consolidou sua reputação quando esteve no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), onde ajudou países em desenvolvimento a criar técnicas e estratégias para financiar projetos de baixo carbono. “Em cada país, a transição energética é um problema diferente. Por isso um evento como a COP é tão desafiador. Como colocar esses agentes com interesses tão diferentes para conversar?”, questiona. O momento é desafiador: a decisão do governo de Donald Trump, que retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, representa uma ameaça.
“É uma crise geopolítica importante, que se torna econômica e que vai se acentuar nos próximos meses. Isso tira um pouco a atenção sobre a urgência climática”, opina. Em 2023, Netto assumiu a direção executiva do Instituto Clima e Sociedade, o iCS, que se tornou uma referência na fomentação de políticas públicas no setor – ele realiza editais para iniciativas verdes, ajuda governos locais a mapear áreas de atuação e promove a divulgação científica. Tem unido esforços com o setor privado e com iniciativas governamentais para orientar a transição para uma economia de baixo carbono. “O instituto cresceu e amadureceu com a agenda climática. Hoje, somos a maior filantropia de clima no Brasil, o que inclui todos os setores, as organizações, comunidades, ONGs, think tanks.” Para ela, um dos objetivos do instituto é lembrar que a mudança do clima é uma questão urgente também para a economia.
“Hoje, há uma sofisticação desse debate. A agenda é mais técnica”, defende. Diz também que é hora de aproximar o debate dos cidadãos, para que eles entendam que as consequências vão além das tragédias ambientais que tem se tornado cotidianas – inundações, secas intensas e ondas de calor também causam a elevação do preço dos alimentos e a drenagem do dinheiro do orçamento público. Com a COP30 se avizinhando, Netto espera que o Brasil se apresente como um player capaz de apresentar soluções. “Espero que a gente reconheça o quanto o Brasil tem para oferecer em termos de soluções. Espero que o mundo ouça os nossos povos originários. É uma oportunidade única”, diz.









