O agro que elas estão construindo: café, sustentabilidade e liderança feminina em ascensão
Produtoras de cafés especiais debatem a representatividade feminina em crescimento no agronegócio brasileiro, a urgência da aplicação de técnicas sustentáveis no manejo da cultura e o legado consciente para as próximas gerações
Na xícara do brasileiro, há cada vez mais histórias de mulheres. Embora, de acordo com o último censo agro feito pelo IBGE em 2017, apenas 13,2% das propriedades de café no país sejam dirigidas por elas, número que cresce a cada safra e já soma mais de 88 mil produtoras em gestão ou codireção. Esse resultado foi conquistado através de uma revolução que já vem tarde, colocando-as cada vez mais em espaços de liderança, na sucessão familiar de propriedades com décadas de existência e em cargos de alta gestão nas cooperativas regionais.
O esforço para transformar tradição em futuro já mostra resultados. Hoje, sistemas de administração modernos buscam reduzir os impactos negativos causados por séculos de manejo irresponsável. Isso acontece por meio de iniciativas sustentáveis, programas de capacitação e práticas inclusivas que ajudam a redesenhar o agro. Entre elas, o uso de princípios da agricultura regenerativa e parcerias com grandes instituições, como o Sebrae, que apoiam a divulgação dos resultados e ampliam o alcance desse conhecimento para outros produtores.
Sem medo de se reinventar
Paula Curiacos, proprietária da Fazenda Três Meninas, localizada em Monte Carmelo, no Cerrado Mineiro, chegou ao café pelo amor e pelo acaso. “Minha família nunca teve ligação com o agro. Sou a mais velha de três irmãos e, quando escolhi estudar Zootecnia na faculdade, ouvia muito: ‘Mas nós nem temos fazenda, o que você vai fazer?’”, relembra. Ainda assim, era a criança que acordava cedo aos domingos para assistir ao Globo Rural e sempre sentiu uma ligação inexplicável com esse universo. A carreira corporativa veio antes da lavoura: chegou a ocupar a posição de responsável pelo mer cado de nutrição animal em uma multinacional, mas a chegada de suas duas filhas, Malu (15) e Fernanda (12), com o produtor Marcelo Urtado mudaram sua perspectiva de vida. “Compramos a fazenda em 2016 e já entrei como sócia e gestora”, conta.
A Café por Elas, marca criada pelas irmãs Nadia e Julia Nasr, também nasceu de um movimento de transição de carreira, que aconteceu entre 2019 e 2020. Formadas em Direito, as duas não imaginavam seguir o caminho da cafeicultura até se verem envolvidas no trabalho da mãe, Abadia Helena Gomes da Silva, dona da Fazenda São Luiz, localizada em Dourado, São Paulo. “Eu queria ser juíza e a Nadia também seguiu no Direito. Mas, quando começamos a trabalhar aqui [na fazenda], nos apaixonamos”, afirma Julia. Para além do manejo, a dupla assumiu também uma missão política. “Em tempos conservadores, com discursos contra representatividade e sustentabilidade, sentíamos a necessidade de nos apropriar. Existem inúmeras mulheres importantes no café, mas ainda são poucas as protagonistas diante da dimensão da produção brasileira”, pontua Nadia.
As irmãs unem mais de 20 pequenas produtoras de diferentes regiões do Brasil na sua empresa, que enviam seus grãos para que a Café com Elas assuma a fase final da cadeia de produção, com a torrefação, o empacotamento e distribuição de seus produtos para estabelecimentos corporativos e também restaurantes e cafés.
Abadia traduz sua trajetória como um caminho de recuperação do que era seu por natureza e da busca por independência. “Minha família sempre teve ligação com a terra, mas a herança ficou do lado masculino. Minha avó, por exemplo, casou com o capataz e nunca herdou nada. Só os filhos homens herdaram.” A história dela começou quando um primo agrônomo apresentou a oportunidade de comprar uma fazenda em Minas Gerais. A aposta certeira abriu espaço para que seguisse na cafeicultura. Mais tarde, ao adquirir a atual propriedade, em São Paulo, enfrentou um dos momentos mais desafiadores. “Quando assumi a gestão, todos os funcionários pediram demissão. Trouxe mão de obra de Minas, inclusive muitas mulheres, para o plantio”, recorda. Agora, vê nessa decisão a prova de que a persistência pode romper velhas estruturas de exclusão.
“Cuidar do meio ambiente é necessário” - Nadia Nasr
Já Mariana Heitor, da Fazenda Reserva Heitor, descreve sua volta ao campo como um “movimento natural”. Depois de anos em São Paulo, trabalhando na controladoria de uma empresa de call center, sentia que algo não se encaixava. “Havia um incômodo, aquele não era meu caminho. Também pensava em ter filhos e, ao mesmo tempo, meus pais já estavam envelhecendo e a fazenda precisava de continuidade.” Em 2009, iniciou o processo de sucessão: “Meu pai sempre foi um visionário, mas muita coisa estava guardada apenas na cabeça dele. Então, eu trouxe um olhar detalhista para registrar esse conhecimento, profissionalizar a gestão e a mão de obra e implementar novas tecnologias”, explica.
A terra em boas mãos
“Nosso foco é conservar o solo. Desde 2019, aplicamos o manejo regenerativo, mas, mesmo antes, já tínhamos práticas nesse sentido”, esclarece Mariana. Energia solar, compostagem e água magnetizada fazem parte do repertório da Fazenda Reserva Heitor, sempre em constante avaliação. “Nem tudo dá certo: testamos, analisamos os resultados e, se não funcionam, voltamos atrás. É tentativa e erro, sempre com apoio técnico da cooperativa [Expocaccer (Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado LTDA), na qual é conselheira], e de engenheiros-agrônomos.” Essa busca por soluções de longo prazo ecoa na fala de Paula, que também afirma que sustentabilidade “não tem receita pronta” e exige uma visão de dez, 20 anos. A preocupação acompanha uma tendência nacional: segundo pesquisa da Serasa Experian, divulgada em abril de 2025, 95,6% dos produtores de café no Brasil operam seguindo critérios ESG.
Para Julia, Nadia e a mãe, Abadia, a mudança veio das adversidades climáticas: migraram do modelo convencional para a agrofloresta, apostando no controle biológico com drones e na redução de insumos químicos. E os efeitos do clima não impactam apenas a produção: nos últimos três anos, o brasileiro passou a pagar, em média, 108% a mais pelo café, de acordo com levantamento da VR Benefícios de setembro/2025. Uma alta explicada justamente por fatores ambientais. “Abrir mão de um sistema produtivo conhecido para apostar em algo novo é arriscado. Mas cuidar do meio ambiente é necessário”, resume Nadia.
Se no campo os avanços são promissores, no espaço social eles ainda enfrentam barreiras. Paula sinaliza que, mesmo trazendo resultados concretos, precisou insistir para ser ouvida: “Uma boa ideia minha às vezes precisa ser repetida dez vezes para ser aceita, enquanto um homem fala uma vez e já é validado”. Também conselheira da Expocaccer, afirma que a presença feminina nesses espaços precisa ir além da estatística: “É importante não estar lá apenas para cumprir diversidade, mas porque é imprescindível, trazendo experiências e pontos de vista que os homens não têm”. Mariana Heitor confirma esse cenário: “Existe preconceito e resistência, mas a gente quebra isso com posicionamento e conhecimento”.
Programas como o Elas no Café, promovido pela Expocaccer, que já capacitou cerca de 170 mulheres de 55 municípios do Cerrado Mineiro desde 2015, buscam mudar esse cenário de chefias e equipes predominantemente masculinas. No Café por Elas, a inspiração vem da mãe, que há três décadas enfrentou um ambiente ainda mais masculino e hoje fomenta o crescimento de outras produtoras. “Valorizamos lideranças femininas regionais, que impulpor sua vez, não só mantém práticas sustentáveis, como também sonha em formalizar uma escola para compartilhar conhecimentos de agrofloresta com outras mulheres. O senso de coletividade aparece como marca comum: em propriedades com liderança feminina, 43% dos trabalhadores também são mulheres em comparação com apenas 24% nos estabelecimentos geridos por homens (Embrapa/IBGE 2017).
“Não há lugar que as mulheres não possam ocupar ” - Mariana Heitor
Daqui para o futuro
Olhando para a frente, todas concordam que o agronegócio será cada vez mais pautado pela proteção ao meio ambiente, transparência e impacto social. A necessidade de estudos direcionados para a cafeicultura e da criação de cursos específicos para formação técnica com viés de consciência ambiental é urgente: “Gostaria muito que a disciplina de agricultura regenerativa fosse incluída nos cursos de Agronomia. Precisamos de técnicos preparados para essa nova realidade”, pontua Paula.
O legado, para elas, vai além do lucro, é garantir uma nova e responsável tradição. “Tenho um sentimento de tranquilidade em ver minhas filhas continuando meus valores. Sei que, se eu não estiver aqui, elas sabem o que fazer”, diz Abadia. Para Mariana, não há limites: “Não existe lugar que as mulheres não possam ocupar. Planejamento, estudo e dedicação abrem portas.”









