Por que ouvir os conselhos de Sylvia Earle pode mudar sua relação com o oceano – mesmo se você nunca o viu
Aos 90 anos, Sylvia Earle segue liderando iniciativas ambientais e inspira meninas e mulheres a agir pela proteção dos oceanos. Em entrevista, a Dama dos Mares fala sobre propósito, esperança, ciência e o poder individual para transformar o futuro do planeta
Por Jamille Bastos — de São Paulo (SP)
Como representante da ambiciosa geração millennial, eu já ouvi um milhão de vezes que os 40 anos são os novos 30, que não é preciso correr pra ter tudo resolvido na vida agora, que temos tempo. Mas, se esse discurso todo não te convence, conversar com Sylvia Earle por 30 minutos te convenceria. Do alto dos seus 90 anos recém-completados, a chamada Dama dos Mares diz que “tenta não pensar sobre a própria idade” e continua realizando projetos que protegem os oceanos, um após o outro.
O mais recente foi transformar Fernando de Noronha no que ela e a equipe da Mission Blue chamam de Hope Spot, uma forma de fortalecer as proteções já existentes naquela área, investindo em conscientização e programas educacionais sobre o local. Quando lhe perguntei o que ela achava que havia de tão especial no arquipélago de Recife para ser escolhido como Hope Spot, a embaixadora da Rolex pela causa dos oceanos abriu um sorrisão e me perguntou: “O que há de especial lá para os golfinhos, para os pássaros, ou para as baleias que passam por ali? Nós ganhamos muito se ouvirmos a sabedoria deles e o que os motiva a viajar por toda a costa brasileira até a Antártida”.
Chamada de Vossa Profundidade em homenagem aos, pelo menos, 78 anos mergulhando em mares e oceanos, Sylvia é daquelas pessoas de quem qualquer um gostaria de receber conselhos de vida. Foi por isso que, agora pela segunda vez entrevistando ela para a Marie Claire, eu emprestei meus ouvidos para que ela pudesse dar seus conselhos para três categorias diferentes de meninas e mulheres.
Conselho para ambientalistas de oito anos de idade
Difícil acreditar, mas até mesmo Gretha Thumberg já tem uma geração mais jovem que a dela lutando pelo meio-ambiente. Você deve se lembrar de Nina Gomes, uma menininha brasileira de quatro anos que viralizou no mundo todo com um vídeo em que aparece mergulhando com o pai na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, enquanto se esforça para agarrar todo e qualquer lixo que aparece em sua frente. Limpar as praias é a paixão dessa pequena carioca que, agora com oito anos, segue limpando praias e esse ano figurou no premiado documentário ambientalista “Green SuperHeroes 2030”.
Para Nina, Sylvia diz:
“Pelo que eu ouvi, você tem paixão por tentar limpar lugares especiais e fazê-los melhores. Nem todo mundo se importa com isso. O fato de que você se importa, faz a diferença. E você pode inspirar outras pessoas que se perguntam o que elas podem fazer. Você pode dizer: vem, me ajude. Se você tiver uma quantidade suficiente de pessoas trabalhando juntas, você não vai apenas fazer impacto sozinha, mas você pode magnificar ele, trazendo outras pessoas com você”.
Conselho para mulheres que se importam com o meio ambiente e querem saber como ajudar a causa
Quando as pessoas perguntam à Sylvia o que elas podem fazer para ajudar, dizendo que são apenas uma pessoa no meio a tantos problemas, ela conta que sempre pergunta o que elas têm na mão, quem elas são e com o que se importam.
Para essas apaixonadas pela causa ambiental que acham que não têm muito poder em mãos, Sylvia diz:
“Em vez de alguém te dizer, você deve olhar no espelho e perguntar à pessoa que você está olhando. Quem você é? O que você ama? O que há de especial em você? Eu não acho que você possa resolver toda essa lista inteira de problemas, ninguém pode fazer sozinho o que é necessário para mudar as coisas. Mas todos podem fazer algo.
E se você escolher um pedaço desses problemas que te preocupam e fizer a diferença por ali? Talvez seu talento seja ter uma voz especial, talvez você cante, talvez você escreva poesia ou lide com números. Você pode fazer algo usando esse talento para fazer a diferença. Você pode levar outras pessoas a se importar usando sua voz, tirando fotografias [do mar], por exemplo, e depois mostrando às pessoas o que você vê”.
Sylvia, por exemplo, descobriu na união com marcas engajadas uma das formas de potencializar sua luta ambiental. Seu parceiro mais antigo é a marca de relógios Rolex, que através da iniciativa Perpetual Planet patrocina Hope Spots como a de Fernando de Noronha, além das outras duas que já existem no Brasil: Abrolhos e Ilhas Cagarras.
Conselho para todas as mulheres do mundo, que talvez nunca tenham pensado no seu impacto na causa ambiental
Sylvia é famosa por chamar atenção para a importância de olhar para os oceanos e não só para as florestas ao pensar na crise climática. Para ela, pouco se pensa em como esse enorme ecossistema é a base da sobrevivência aqui na Terra.
Para todas as mulheres do mundo, Sylvia diz:
“Viva você em qualquer lugar, mesmo que você more em um deserto, mesmo que você nunca tenha visto o oceano, é preciso entender o quão importante o oceano é para você. Em cada respiração que você inspira, em cada copo de água que você bebe, o oceano é a fonte.
Eu gostaria de voltar mil anos e ver a Terra mais completa como ela era, mas ser uma mulher do século 21 te dá a melhor oportunidade que qualquer mulher, em qualquer momento da história, já teve de moldar o futuro. O que nós sabemos agora em termos de ciência, ninguém poderia saber antes. Acredito que ainda há tempo e que esse tempo que ainda temos é um presente”.









