Quem é e o que pensa Ana Toni, CEO da COP30: 'Se você não é parte da solução, você é parte do problema'
A partir de hoje, a 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30, vai colocar Belém, no Pará, diante de um desafio: evitar o colapso climático. Em um dos postos-chave da organização está Ana Toni, que teve a missão de arar o terreno para os acordos. A Marie Claire, a economista adianta qual deve ser o legado da cúpula que reúne mais de 160 países
No início deste ano, Ana Toni recebeu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma missão das mais relevantes. Ela foi nomeada CEO da 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 30, que começa nesta segunda-feira (10) em Belém, no Pará. No coração da Amazônia, representantes de mais de 160 países se reúnem para definir o que será feito para evitar o colapso do planeta. No horizonte, está uma meta ambiciosa: limitar o aumento da temperatura global a 1,5 °C. Para isso, será necessário adotar uma economia de baixo carbono, sem esquecer de temas urgentes, como adaptar cidades aos eventos climáticos extremos, e se debruçar sobre estratégias de preservação das florestas e da biodiversidade. “Muita coisa precisa ser acelerada, mas vemos que os países estão mais preparados”, conta ela, otimista.
Ana estudou Ciências Econômicas e Estudos Sociais na Universidade de Swansea e fez mestrado em Política da Economia Mundial na London School of Economics, ambas no Reino Unido. Também se tornou doutora em Ciências Políticas pela UFRJ. Nos anos 1990, se juntou ao Greenpeace e, nos últimos 30 anos, se consolidou como uma das lideranças-chave na questão ambiental, promovendo diálogo entre organismos internacionais e a sociedade civil.
Para encarar o processo de organização da cúpula, liderada pelo diplomata André Aranha Corrêa do Lago, que preside o evento, Ana aposta no trabalho em equipe. Nos últimos dez meses, costurou acordos e precisou se desdobrar para mitigar a falta de hospedagem para as delegações na capital paraense. “A gente continua lidando com essa questão, mas melhorou muito. A maioria dos países já está com as suas hospedagens garantidas”, conta.
A Marie Claire, a CEO detalha o que será discutido na COP30. Pontua que as mulheres são fundamentais na discussão do clima e pede união, mesmo diante de um cenário geopolítico desafiador: o anúncio da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris foi um duro golpe nas pretensões de cumprir as metas. Agora, é preciso que outros atores globais reafirmem seus compromissos. “Muito do que está sendo plantado vai dar muitos frutos no futuro”, acredita ela. Em Belém, os países também devem apresentar suas novas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), metas que vão guiar as ações de cada um dos signatários do Acordo de Paris pelos próximos cinco anos. “O objetivo é o mesmo: temos que caminhar para uma economia de baixo carbono, neutra, e isso está absolutamente claro para todos.”
MARIE CLAIRE: Qual a expectativa para a COP30 em um cenário geopolítico tão complexo?
ANA TONI: Estou otimista. Há um compromisso grande de todas as delegações para fortalecer o regime climático global. Tivemos a maior pré-COP da história (evento que antecede a conferência, que aconteceu em outubro, em Brasília), com 72 países participantes. Também fizemos consultas que deixaram claro onde estão as possibilidades de acordo. O grande objetivo final segue sendo 1,5° como limite de aquecimento do planeta.
MC: Quais são os principais pontos de convergência?
AT: Não resta nenhuma dúvida de que precisamos acelerar a implementação das medidas. Outro consenso é no tema da adaptação às mudanças climáticas, que precisa chegar a outro patamar no debate.
MC: Há divergências?
AT: Sim, e temos propostas para trabalhar estas lacunas, como, por exemplo, na questão do financiamento da transição energética. Há consciência dos problemas e do que precisa ser feito, mas não há consenso na forma de expressar essas questões dentro dos documentos. As discordâncias são relacionadas aos instrumentos políticos e legais que a gente tem para expressar o que queremos.
MC: Nesse cenário, há setores com mais poder político do que outros para negociar seus interesses…
AT: Penso que estamos ficando mais conscientes. Hoje, há muitos dados científicos, econômicos, então as escolhas não são feitas só por quem tem poder. Temos muitos instrumentos para nos ajudar nessas escolhas que são também, claro, escolhas políticas.
MC: Há também a desinformação. Ela ainda prejudica o debate?
AT: A desinformação não cresce só em relação à mudança do clima, ela se transforma, o que é muito preocupante. Antes, havia um questionamento se a mudança do clima existia ou não. Superamos essa fase. Depois, se a mudança do clima era causada pelos humanos, o que também já está superado. Agora, passamos por um novo negacionismo, que questiona se as soluções são efetivas. Dizem que energia solar não é boa, que carros híbridos não funcionam, colocando dúvidas na cabeça do consumidor e dos tomadores de decisão. Acredito que vamos superar essa nova onda porque está claro o que precisamos fazer: acelerar a descarbonização.
MC: Como a organização da COP30 pretende usar o evento para colocar o debate climático como fundamental?
AT: Desde o início colocamos como um dos objetivos centrais da COP30 a ideia de assegurar que as pessoas entendam como a Conferência se relaciona com o dia a dia. Um dos temas que a gente está trabalhando, a adaptação, é prioritário, porque as pessoas estão sentindo as ondas de calor, a falta de chuvas, as enchentes. Queremos mostrar que isso tem tudo a ver com o que discutimos. Quando as pessoas têm a opção de colocar um painel solar em casa ou quando um consumidor pode escolher carros elétricos, tem a ver com decisões tomadas em outras edições da COP. Cada um de nós pode contribuir com essa mudança, somos todos agentes importantes, seja um jornalista, seja o consumidor ou o eleitor. Cada um no seu papel, com suas capacidades. Se você não é parte da solução, você é parte do problema.
MC: Quais são as propostas brasileiras que têm contribuído para cumprir as metas globais?
AT: São muitas. Por exemplo, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que oferece pagamentos anuais a países que mantêm suas florestas em pé. O Brasil também tem um programa muito importante, o Cidades Verdes Resilientes, que busca trazer florestas e parques para fortalecer o ecossistema urbano. Temos também o AdaptaCidades, programa maravilhoso que dá capacidade para os municípios trabalharem com o tema de adaptação. Isso sem contar nossa capacidade no combate ao fogo e incêndios florestais. Todas essas ações estão sendo exportadas. Precisamos ver a COP como uma grande vitrine para acelerar nossas soluções e aprender com as ideias dos outros.
MC: Quanto uma COP bem-sucedida será importante para a imagem do Brasil no exterior?
AT: O Brasil é um país que está liderando pelo exemplo. Nosso destino é uma economia de baixo carbono e sustentável, principalmente por nossos recursos naturais. A COP pode consolidar a narrativa de um Brasil próspero e sustentável, que é o que a gente quer.
MC: Muito se tem falado sobre a questão logística de realizar um evento dessa magnitude em Belém, sobretudo na questão da hospedagem. O problema está superado?
AT: A gente ainda está lidando com isso, mas melhorou muito. A maioria dos países já está com suas hospedagens definidas.
MC: Houve excesso de otimismo?
AT: A gente sabia que Belém, em termos de infraestrutura hoteleira, tinha dificuldades. Criamos um mutirão com o governo federal, estadual, municipal e até com a população, que está abrindo suas casas. São diversas soluções. Por outro lado, estamos mostrando a importância desse simbolismo de uma COP na Amazônia, para darmos passos concretos na conservação da natureza.
MC: A senhora sente a pressão de estar liderando um evento desse porte?
AT: Normalmente, sou muito calma. Nada me tira o sono. Sou meio workaholic, bastante focada. Quero entregar uma superconferência do clima. São muitas reuniões, muitas viagens. Sempre penso que não podemos nos paralisar, seja com os desafios, seja com os problemas – isso, claro, sempre trazendo a equipe junto. É um trabalho coletivo. Nunca é um trabalho pessoal.
MC: Um relatório da ONU Mulheres de 2024 diz que as mudanças climáticas podem empurrar até 158,3 milhões de mulheres e meninas para a pobreza extrema até 2050, além de aumentar a violência de gênero. Essa é uma preocupação da COP30?
AT: A mudança do clima é um acelerador de desigualdades. Se a gente já tem problemas de gênero, isso certamente se radicaliza quando falamos da crise ambiental. Na África, muitas mulheres dependem, por exemplo, de buscar água para o consumo diário. Com menos água, elas vão ter que ir mais longe. Quando aconteceu o desastre no Rio Grande do Sul, em 2024, houve problemas de violência sexual dentro dos abrigos. Quando há crises econômicas, as primeiras que perdem seus empregos são as mulheres.
MC: Por isso as mulheres parecem mais interessadas em um mundo mais sustentável?
AT: Sim. Muitas soluções têm vindo de grupos de mulheres. A necessidade do acolhimento, o pensar coletivo. Elas são parte da solução. Eu sou fruto da história do feminismo, e de um feminismo que dá visibilidade para a mudança do clima. Muitas são líderes globais, como a própria Marina Silva (ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima), Christiana Figueres, na América Central, Vandana Shiva, na Índia, Wangari Maathai (Nobel da Paz por sua atuação na conservação da biodiversidade), no Quênia, Patricia Espinosa, diplomata mexicana, a ex-ministra Izabella Teixeira, entre tantas outras.
MC: Nas empresas, isso também acontece?
AT: Sim. Nos conselhos de sustentabilidade das empresas há muitas mulheres. Penso que o olhar feminino ajuda a pensar a coletividade.
MC: Como trazer os homens, a maioria dos líderes globais, para a urgência dessa questão?
AT: Há muitas mulheres líderes globais também, como a Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia), a Michelle O’Neill (primeira-ministra da Irlanda), a própria Dilma Rousseff (presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, sediado em Xangai, na China). Estamos acostumadas com os homens fazendo cara feia e fingindo que esse assunto é menor. Não temos medo. Isso não nos amedrontou até agora e não amedrontará na COP30, tenho certeza. As ministras Marina Silva, Sônia Guajajara e Anielle Franco, mulheres absolutamente fortes, e o presidente Lula, muito aberto a esse tema, não deixarão a questão de gênero desaparecer.
MC: Como a realização de uma COP na Amazônia pode ajudar a sensibilizar os atores globais?
AT: Espero que a gente aproveite para ouvir as populações tradicionais, os indígenas, os quilombolas, para aprender essa relação mais saudável com a natureza. Os limites do planeta são reais. Não foi um cientista que inventou. Uma relação mais saudável com o meio ambiente é necessária.
MC: Qual é a experiência de liderar um evento desse porte?
AT: O mais importante para qualquer pessoa em uma posição de liderança é trabalhar com um bom time. É um prazer trabalhar com o embaixador André Aranha Corrêa do Lago, com nossa equipe, que está dando muito gás. Os enviados, os conselheiros, gente do mundo todo, um espírito de mutirão. A gente vai entregar tudo. Tenho certeza de que será um grande sucesso. Muito do que está sendo plantado, talvez não seja para colher agora. Talvez demore um pouquinho. Mas as sementes foram plantadas em terra muito fértil e tenho certeza de que ainda vamos colher bons frutos.









