Mulheres organizam protesto no Rio após lesbofobia contra chef do Museu do Amanhã: ‘Ser sapatão pode ser motivo de orgulho'
Coletivo de mulheres lésbicas preparam manifestação nos arredores do Museu do Amanhã para pedir justiça pela chef Isabela Duarte, do restaurante Casa do Saulo, e ampliar visibilidade e conscientização sobre as violências sofridas por mulheres lésbicas: 'Ser sapatão pode ser motivo de muito orgulho'
Por Camila Cetrone, redação Marie Claire — São Paulo
Organizações de mulheres lésbicas convocam uma manifestação que pede o fim da lesbofobia e justiça pela chef Isabela Duarte, que foi agredida física e verbalmente pela psicóloga Juliana de Almeida Cezar Machado no restaurante do Museu do Amanhã, na zona portuária do Rio de Janeiro. O protesto está marcado para este sábado (3), às 12h, na Praça Mauá.
Isabela e o auxiliar de cozinha Henrique Lixa sofreram os ataques no restaurante Casa do Saulo, onde trabalham, no último dia 27. As agressões foram gravadas e viralizaram nas redes sociais na última semana. Um inquérito por injúria LGBTfóbica, ameaça e lesão corporal foi aberto pela Polícia Civil do Rio.
O ato foi convocado pela Revista Brejeiras, publicação independente e movimento cooperativo formado por mulheres lésbicas feministas, e foi aderido por outros movimentos após uma chamada coletiva nas redes sociais.
Além dos protestos, a equipe da publicação, que respondeu a perguntas de Marie Claire coletivamente, afirma que haverão encontros, debates e até poesias para pessoas que foram impactadas pelas violências sofridas por Isabela e Henrique.
"Nosso ato corresponde a um anseio coletivo e uma chamada à resistência para todas e todes que sofreram e se indignaram com o absurdo dos fatos relatados massivamente pela mídia. É um ato de solidariedade à Isabela, Henrique e as outras vítimas destas agressões, além de uma declaração pública em defesa dos direitos das mulheres lésbicas", dizem Camila Marins, Cris Furtado, Luísa Tapajos e Roby Cassiano. "Queremos dar uma resposta à sociedade afirmando que a lesbofobia e todas as formas de opressão não serão toleradas, nem silenciadas".
As integrantes também esperam que o ato seja uma forma de acolher pessoas que tenham sentido os impactos das violências sofridas por Isabela. "Diante de imagens tão absurdas como essas, toda uma coletividade é afetada: mulheres lésbicas, suas famílias e pessoas queridas são atravessadas pelo medo e pela identificação. Ir para a rua e dizer 'Sapatão, sim' é uma estratégia de enfrentamento do que essas agressões buscam produzir em nós: medo, vergonha e isolamento", explicam.
"O termo 'sapatão' foi utilizado pela agressora para ofender Isabela, mas pode ser também um motivo de muito orgulho e uma bandeira de reconhecimento, dignidade e coletividade", acrescentam.
Explicam ainda que o ato é uma maneira de chamar atenção à lesbofobia, como é chamado o conjunto de violências cometidas especificamente contra mulheres lésbicas.
"Historicamente, nós, mulheres lésbicas, lutamos por visibilidade e contra o apagamento. Por isso a importância de nomear a lesbofobia: como uma forma de chamar a atenção da sociedade, o que tem relevância também na construção de dados e políticas públicas específicas para nossa população".
Além do acolhimento e do posicionamento político, as organizadoras esperam "mostrar que nossas existências não se resumem ao que a lesbofobia diz sobre nós, mas transbordam também beleza e liberdade". Dizem ainda que esperam que o que ampla visibilidades que tiveram as agressões contra Isabela e Henrique abram espaço para uma mobilização constante.
"Acreditamos que a justiça por Isabela e Henrique passa não apenas pela reparação e responsabilização individual da agressora, mas fundamentalmente pela abertura de um horizonte possível para a concretização de um pacto coletivo que opere para que isso jamais se repita e para que as políticas públicas considerem as especificidades de mulheres lésbicas. É um compromisso de toda a sociedade", finalizam.
Vídeo de ataque viralizou nas redes sociais
Juliana, que dizia ser uma desembargadora no momento das agressões, chegou a cortar o braço de Isabela ao arremessar estilhaços de vidro, e Henrique teve a boca machucada depois de ser agredido no rosto.
"Eu vou denunciar essa p*rra. Eu sou desembargadora, sua filha da p*ta, e vou trazer a polícia aqui para fechar essa p*rra. Você tá f*dida. Seu viado. Você é sapatão. Sapatão de merda", diz Juliana no vídeo ao tentar coagir Isabela.
O caso foi levado à 5ª DP, na Avenida Mém de Sá, e inicialmente registrado por um delegado de plantão como lesão corporal. Segundo a Polícia Civil, a tipificação foi reavaliada duas horas depois, após a divulgação do vídeo.
Em maio de 2019, Juliana de Almeida Cezar Machado respondeu por injúria racial, mas o processo foi suspenso por dois anos. Por não ter havido reincidência, a psicóloga foi liberada das acusações e a Justiça arquivou o caso após solicitação da promotoria.









