79% das mulheres brasileiras foram vítimas de golpes financeiros via PIX; saiba como se proteger
Novo levantamento também mostra que 77% das brasileiras tiveram senhas ou informações de cartão de crédito roubadas ou contas privadas invadidas no último ano. Mulheres são vistas como alvos preferíveis por motivos que vão desde menor familiaridade com tecnologia a normas e estereótipos sociais de gênero
Por Camila Cetrone, redação Marie Claire — São Paulo
Um novo estudo que identifica a incidência de crimes cibernéticos no Brasil identificou que as mulheres são as principais vítimas de golpes financeiros na internet. De acordo com o levantamento da multinacional especializada em cibersegurança NordVPN, 79% das brasileiras foram vítimas de fraudes financeiras usando pagamentos bancários via PIX ao longo de 2022.
Além disso, 77% tiveram senhas roubadas e contas privadas invadidas no mesmo período; e o mesmo percentual teve informações de cartão de crédito roubadas. O levantamento também registrou que 15% das mulheres entre 25 e 44 anos foram vítimas de fraudes financeiras ao longo do ano passado.
O número expressivo de mulheres vítimas de ameaças financeiras chamou atenção para a vulnerabilidade delas na internet, de acordo com Maria Eduarda Melo, country manager da NordVPN no Brasil. Ela explica que o estudo não investigou as principais técnicas usadas para conseguir cometer crimes via PIX, mas os mais populares estão o uso de QR codes falsos e falsificação de identidade.
Há ainda golpes de investimento (em que golpistas criam falsas oportunidades com alto lucro para investimento de esquemas), suporte técnico (quando se passa por representante de um produto alegando problemas técnicos) e phishing (em que se simula textos, e-mails ou links para sites falsos alegando fazerem parte de serviços).
"No caso do phishing, os usuários podem ser solicitados a inserir informações pessoais, incluindo credenciais de login ou detalhes financeiros que os golpistas podem roubar e usar indevidamente", explica.
O estudo identificou ainda que 72% das mulheres ouviram ao menos uma vez por mês casos de fraudes financeiras com pagamentos via PIX sofridos por pessoas próximas e, no mesmo período. Além disso, 62% ouviram casos de perseguição e assédio após terem suas próprias contas nas redes sociais hackeadas – um dos principais medos das mulheres por envolverem crimes como divulgação de conteúdo íntimo sem permissão e cyberbullying, os quais também são mais vulneráveis.
Por que mulheres são mais vulneráveis a golpes financeiros na internet?
Segundo Maria Eduarda Melo e a advogada especializada em direitos humanos Juliana Bertholdi, o alto índice de mulheres vítimas de golpes financeiros não é tão simples e envolve fatores culturais, sociais, econômicos e psicológicos. A advogada afirma ainda que são raros estudos que relacionem mulheres e violência tecnológica, o que dificulta a delimitar de fato essas razões.
Para Melo entre fatores que podem contribuir para que elas sejam vítimas recorrentes incluem a facilidade devido a normas e estereótipos sociais de gênero, que facilita a criação de uma conexão e confiança; e maior receptividade a apelos que envolvam empatia e compaixão – como golpes que envolvem parentes doentes, crianças em vulnerabilidade ou tragédias pessoais.
As mulheres também tendem a ser menos familiarizadas com a tecnologia e usam mais as redes sociais. "Em média, elas tendem a usar redes sociais mais ativamente e compartilhar informações pessoais, o que pode torná-las alvos mais fáceis para golpistas que buscam obter detalhes pessoais", diz Melo.
Atuando na área criminal, Bertholdi acrescenta que, além das mulheres, crianças e idosos são vistos como alvos preferíveis. "Há um senso comum, baseado de muito preconceito, de que as mulheres serão mais inocentes ou não identificarão o golpe – em parte porque as mulheres são culturalmente entendidas como mais fáceis de serem sensibilizadas, seja num golpe de sequestro envolvendo filhos, seja num pedido de um 'novo namorado' para quitar uma conta atrasada", começa a advogada.
Em sua atuação, Bertholdi nota um aumento nas demandas envolvendo ‘estelionato amoroso’, muito aplicado nas mulheres acima de 60 anos, e uma modalidade nova que tem como alvo mulheres evangélicas: "Criminosos demonstram conhecimento da religião, iniciam conversas se apresentando como pastores ou líderes, e expõem seus desejos de casar e constituir família. Essa estratégia, das mais cruéis, tem sido reiteradamente aplicada em sites de namoro."
Como as mulheres podem se proteger de golpes financeiros?
Existem diferentes sinais de alerta que podem ser reconhecidos pelo usuário, seja homem ou mulher. "Verifique sempre a identidade de qualquer pessoa com quem você está se comunicando online, especialmente se ela pedir informações pessoais ou financeiras ou se afirmar representar uma organização ou empresa. Também tenha cautela ao compartilhar essas informações nas redes sociais", diz Melo. Veja outras dicas para evitar esses crimes:
- use senhas fortes e exclusivas para tornar as contas online seguras; se possível, habilite autenticação de dois fatores;
- desconfie de solicitações de informações pessoais e financeiras, além de erros de ortografia e gramática;
- atente-se a ofertas "boas demais para ser verdade", que prometem retornos irrealistas, oportunidades de emprego ou outras ofertas;
- fique de olho em solicitações de pagamento imediato ou cartões-presente;
- ignore táticas de pressão como apelos emocionais ou tom de urgência para te fazer realizar uma transferência sob pressão;
- verifique URLs e links antes de clicar; cuidado com links abreviados ou endereços de site com erros ortográficos;
- se um contato conhecido solicitar dinheiro ou assistência de forma estranha, desconfie e confirme a identidade
Fui vítima de um golpe financeiro. E agora?
Bertholdi explica que não há uma proteção específica para mulheres nestes casos. O que se deve fazer é buscar uma Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) e a rede de suporte do banco.
"É fundamental que se busque uma advogada de confiança para estudar as possibilidades de buscar reparação financeira. Já há diversos julgados que entendem que os bancos devem arcar com os prejuízos sofridos pelas vítimas nas oportunidades em que sofreram invasões maliciosas ou mesmo foram vítimas de fraudes."









