Ativista trans tem visto para os EUA negado, mesmo com carta da OEA, e diz ter sofrido transfobia em entrevista
Rafaelly Wist, que participaria de uma audiência sobre proteção de crianças e adolescentes trans na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), tinha carta assinada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), mas conta que a entrevista foi interrompida abruptamente após dizer sua identidade de gênero
Por Redação Marie Claire — São Paulo
A ativista pelos direitos de pessoas LGBTQIAPN+ Rafaelly Wiest, de 40 anos, afirma ter sofrido transfobia em uma entrevista no Consulado Americano, em São Paulo, onde teve o visto para entrar nos Estados Unidos negado. Na próxima terça-feira (7), ela participaria de uma audiência evento em Washington que abordará a proteção de crianças e adolescentes trans na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
Rafaelly expôs a situação em uma live publicada em seu perfil no Instagram, na última quarta-feira (1º). "Chorei o dia inteiro, porque fazia tempo que eu não passava por isso. Senti que era transfobia, não tem outro motivo", afirmou.
Rafaelly tinha passagens de ida e volta compradas e pagas pela ONG Minha Criança Trans, delegação que irá participar do evento nos EUA. Ela se aplicou ao visto B1/B2, válido para viagens turísticas e participação em eventos no país. A saída do Brasil será no próximo sábado (4), mas a ativista ainda não sabe se conseguirá embarcar. Rafaelly também tinha uma carta assinada pela secretário-executivo da Organização dos Estados Americanos (OEA), que pedia que a emissão do visto fosse facilitada.
A entrevista foi realizada na última segunda-feira (3). Segundo seu relato, o funcionário do consulado encerrou a entrevista abruptamente após Rafaelly dizer ser uma mulher trans. "Dessa vez você não vai", foi a resposta. Após a ativista questionar a decisão, recebeu um documento com a resposta dada para pessoas consideradas inelegíveis ao visto. Um trecho do documento diz que "a decisão de hoje não pode ser reconsiderada", e cita falta de vínculos com o Brasil que garantam sua volta, por mais que Rafaelly tenha família, residência fixa e trabalho em solo brasileiro. "Eu não quero morar nos Estados Unidos, nunca sonhei na minha vida, por já saber que é um país transfóbico e xenofóbico com latinos", afirma em um trecho de sua live.
Rafaelly estava acompanhada com outros quatro ativistas, todos pessoas cisgênero (ou seja, que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído no nascimento), que tiveram os vistos aprovados. Os outros integrantes da delegação tinha os mesmos documentos e justificativas para fazer a viagem.
Articulada dentro do movimento LGBT+ brasileiro, Rafaelly é, há 15 anos, supervisora de projetos da Aliança Nacional LGBTI há 15 anos. Atualmente, é suplente do Conselho Nacional LGBT no governo Lula (PT). Ela espera conseguir uma autorização específica para participação em eventos para poder embarcar com a comitiva.
"É muito grave. Quatro pessoas da nossa delegação passaram tranquilas pela entrevista, enquanto a única mulher trans foi vítima de preconceito e transfobia estrutural", manifestou Thamyres Nunes, que é presidente da ONG Minha Criança Trans. A audiência foi marcada para abordar a inexistência de políticas e leis específicas para resguardar e proteger os direitos de pessoas trans menores de 18, após denúncia feita pela ONG. O intuito da delegação é de solicitar apoio par a criação destes aparatos legais no Brasil.
Em nota enviada à Folha de São Paulo, o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo afirmou que, por lei, não pode revelar informações sobre casos específicos. Mas ressaltou que os oficiais são treinados para tratar com igualdade e respeito todos os solicitantes.









