'Fui morar na Inglaterra e me senti objetificada em aplicativos de namoro por ser brasileira'
Paola Churchill está realizando o sonho de morar em Londres, na Inglaterra. A sua versão de 15 anos está orgulhosa com tudo que conquistou e a atual, de 27 anos, horrorizada com tanto assédio que sofre apenas por ser brasileira
"Em tempos que ser uma mulher solteira e gostar de homem parecer ser um verdadeiro castigo, ou talvez sina, decidi que por mim, e pela minha saúde mental, daria um tempo de sair com pessoas que conhecia em aplicativos. Disse a mim mesma que se fosse para conhecer alguém, seria organicamente.
Então, nessa minha jornada de autoconhecimento, no melhor estilo Comer, Rezar e Amar, vim passar dois meses em Londres, na Inglaterra. Era um sonho antigo que eu tinha e que nunca achei que iria poder realizá-lo."
"Enquanto escrevo a respeito da experiência ruim que estou vivendo, também percebo como a cidade é cheia de vida, arte, pessoas de todas as partes do mundo. Reconheço que claramente estou em um dos melhores momentos da minha vida, mas tem algo que vem me incomodando e muito, que é a falta de noção e o assédio que eu, uma mulher brasileira, estou sendo submetida em terras europeias."
Os aplicativos
"Em São Paulo, onde vivo, já estou acostumada com o modus operandi dos caras que saio. Claro que tem um ou outro maluco, mas, de modo geral, é sempre a mesma coisa: tem a fase da conquista, dos dates românticos, do pós sexo e o fim agridoce em que aquele homem se torna um vulto e nunca mais responde depois do amanhecer.
Vocês devem imaginar que não é nada divertido. Todavia, apesar de todos os ghostings que levei que poderiam sair de um verdadeiro filme de terror, em nenhum momento me senti tão assediada como em apenas uma semana na Europa."
"Aqui em Londres existem os aplicativos já conhecidos, como Tinder e Bumble, mas usam também o Hinge, que não tem disponível no Brasil ainda. Em quatro dias de uso desses dois últimos apps, me senti como um animal em um zoológico que tacam pedrinhas para ver se ele reage de alguma forma.
Vamos começar pela figura o que eu realmente conheci pessoalmente. O nome dele é Jaime, trabalha com programação em Londres, onde foi nascido e criado. No aplicativo, ele era engraçado, flertou comigo de maneira honesta e não tentou me objetificar de nenhuma maneira.
Quando saímos para um pub que ficasse em um meio-termo para nós dois, com 15 minutos de conversa, Jaime me olhou profundamente e disse: 'Eu sei o que vocês, latinas, gostam, que tal irmos para sua casa?'.
Existem momentos na sua vida que por mais que você procure palavras, sua boca trava, seu cérebro para e você congela feito uma estátua. Esse foi um deles. Com toda a educação que ele nem merecia que tivesse, disse que iria embora, pois talvez tivéssemos ideias diferentes.
Saí de lá correndo para casa o mais rápido possível com medo de ele estar me seguindo ou algo do gênero. Quando cheguei em casa, sã e salva, me deparei com um pedido do mesmo para seguí-lo no Instagram e com a mensagem de que “eu era muito sexy”. O bloqueei logo em seguida."
Os "elogios"
"Depois dessa palhaçada de encontro, as coisas que eu acreditava que não poderiam piorar, pioraram. A quantidade de homens me adicionando só aumentava e as mensagem de assédio iam escalonando.
Um deles era jornalista e eu disse achar legal uma coincidência daquelas — porque também sou — e fui recebida com um: 'Se acalme que vocês, latinas, são malucas. Mas você já beijou um britânico de verdade?'. Outro era ator, com um 'quê' shakesperiano, que logo me adicionou no Instagram e começou a me mandar fotos antigas minhas dizendo que só iria “me comer” se eu engordasse novamente."
"Um terceiro era programador também e me perguntou se eu queria ir na sua casa, já que ele era super rico e morava no centro londrino sozinho. Mas, para essa 'grande honra', eu teria que cumprir com algumas coisas, por exemplo: mandar uma foto da minha vagina e provar que eu 'estava com a depilação em dia' e ainda levar uma amiga para fazermos um ménage. Pouco exigente o alecrim dourado, né?
Esses foram os mais marcantes, mas recebi algumas mensagens falando que 'sempre sonharam em comer uma brasileira', que 'latinas eram fogosas' e, como uma cereja nesse bolo de horrores, os que tinham medo do meu inglês não ser tão bom simplesmente me mandavam a foto dos seus pênis. Isso com quatro dias de uso de aplicativo. Eu me pergunto como é a vida das imigrantes que moram na Europa..."
"Eu amo mulheres brasileiras"
"Deletei os aplicativos e qualquer nova mensagem de quem não conheço é devidamente bloqueada. Não posso generalizar essa experiência e afirmar que toda mulher que vem para cá passa por isso, mas, conversando com amigas latinas que moram aqui há mais de um ano, elas disseram que é tão comum que se tornou até 'normal'.
Isso tudo me lembrou uma exposição que vi uma vez no MASP da artista visual Santarosa Barreto. Em neon rosa, a frase: 'Are you Brazilian? Oh, I love Brazilian women', em tradução: 'Você é brasileira? Ah, eu amo mulher brasileira'."
"A artista, por meio dessa intervenção, queria mostrar o olhar que o estrangeiro tem sobre a mulher brasileira e uma referência direta às importunações sexuais enfrentadas por elas fora do país.
Penso que, em algum multiverso utópico por aí, só eu tenha passado por isso, mas infelizmente sei que não é assim na nossa realidade. Cogito também, às vezes, se não deveria ter denunciado essas pessoas. De uma forma ou de outra, esse é o mundo real, e algumas pessoas apenas são bem babacas."









