Violência de Gênero
Por
redação Marie Claire
— São Paulo

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram um quadro alarmante da violência contra brasileiras ao longo dos últimos 12 meses. Uma em cada 10 mulheres relatou ter sofrido abuso sexual e/ou foi forçada a manter relação sexual contra a própria vontade, algo em torno de 5,3 milhões de mulheres, segundo a 5ª edição da pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”.

No período, 37,5% das mulheres sofreram algum tipo de violência, a maior prevalência já verificada na série histórica - 8,6 pontos percentuais acima do resultado do último levantamento.

Para Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP, os números reforçam a sensação de que a violência contra a mulher está crescendo no país:

“A pesquisa mais uma vez nos mostra que não há lugar seguro para as mulheres no Brasil: em casa, na rua, no trabalho ou no transporte público, em todos os espaços as mulheres estão vulneráveis a situações de violência e assédio”.

A pesquisa destaca que as iniciativas para frear essa epidemia de violência têm sido insuficientes: "Apesar da ampliação do arcabouço legal para proteção das mulheres, não temos visto políticas públicas de proteção tendo prioridade no orçamento público para acessar aquelas mais vulneráveis e que precisam de acolhimento”.

Principais tipos de violência

• Ofensas verbais: 31,4% das mulheres relataram insultos, humilhações ou xingamentos, um aumento de 8 pontos percentuais em relação a 2023. Isso representa cerca de 17,7 milhões de brasileiras

• Agressão física: 16,9% das mulheres sofreram batidas, tapas, empurrões ou chutes, a maior prevalência registrada desde 2017. Aproximadamente 8,9 milhões de mulheres foram vítimas desse tipo de violência

• Ameaças de agressão: 16,1% das mulheres foram ameaçadas de sofrer algum tipo de agressão física, totalizando cerca de 8,5 milhões de vítimas • Stalking: 16,1% das mulheres foram vítimas de perseguição, também representando cerca de 8,5 milhões de brasileiras

• Abuso sexual: 10,7% das mulheres sofreram abuso sexual ou foram forçadas a manter relações sexuais contra sua vontade, afetando aproximadamente 5,3 milhões de mulheres

Outros Tipos de Violência

• Lesão por objeto atirado: 8,9% das mulheres sofreram lesão em decorrência de um objeto que lhes foi atirado, representando cerca de 4,4 milhões de vítimas

• Espancamento ou tentativa de estrangulamento: 7,8% das mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento, totalizando aproximadamente 3,7 milhões de vítimas

• Ameaça com faca ou arma de fogo: 6,4% das mulheres foram ameaçadas com faca ou arma de fogo, afetando cerca de 3 milhões de brasileiras

• Divulgação de fotos ou vídeos íntimos: 3,9% das mulheres tiveram fotos ou vídeos íntimos divulgados na internet sem seu consentimento, impactando cerca de 1,5 milhão de mulheres

Violência com testemunhas

A pesquisa também revela que 91,8% das mulheres que sofreram violência no último ano afirmaram que os episódios ocorreram na presença de terceiros. Em 47,3% dos casos, quem presenciou foram amigos ou conhecidos; em 27%, os filhos; e em 12,4%, outros parentes.

De acordo com os dados, os principais agressores são parceiros íntimos ou ex-parceiros, com 40% das violências cometidas por cônjuges, companheiros ou namorados, e 26,8% por ex-cônjuges, ex-companheiros ou ex-namorados; 57% das mulheres entrevistadas indicaram que a violência mais grave ocorreu em sua residência, seguida pela rua, com 11,6% dos relatos.

Perfil das Vítimas

• Faixa etária: 27,5% das vítimas de violência no último ano tinham entre 25 e 34 anos e 23,4% entre 35 e 44 anos, totalizando 50,9% das vítimas com idade entre 25 e 44 anos

• Perfil racial: Comprovando a desigualdade racial nos números da violência, 64,2% das mulheres vitimadas no último ano eram negras e 28,9% eram brancas

Natureza do município: 53,6% das vítimas residiam em cidades do interior, e 46,4% em capitais ou região metropolitana

• Existência de filhos: 71% das mulheres vítimas tinham filhos

Atitudes das Vítimas

A principal atitude em relação à agressão mais grave sofrida foi não fazer nada (47,4%). Outras atitudes incluem buscar ajuda de um familiar (19,2%), procurar amigos (15,2%) e buscar ajuda na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (14,2%) ou em uma delegacia comum (10,3%).

Apenas 25,7% das mulheres que sofreram violência no último ano recorreram a órgãos oficiais, enquanto 33,8% buscaram apoio com família e amigos.

Ciclo da violência

A pesquisa reforça que os episódios mais graves de violência não são fatos isolados, mas fazem parte de um amplo contexto de abusos físicos e emocionais. As mulheres ouvidas pelo estudo relatam que, ao longo da vida e no âmbito de relações íntimas, a conduta do agressor incluiu desrespeito e menosprezo de forma reiterada (31,6%), intimidação (30,6%), comportamentos como olhar mensagens no celular ou no computador da mulher sem sua autorização (29,5%), impedir que a mulher trabalhasse ou estudasse fora (17,1%) e até ameaças de suicídio por estarem descontentes com elas (16,4%).

Assédio

Mais de 29 milhões de brasileiras foram vítimas de assédio no último ano, representando 49,6% das mulheres com 16 anos ou mais entrevistadas. Os tipos mais comuns de assédio incluem:

• Cantadas e comentários desrespeitosos na rua: 40,8% das mulheres

• Assédio no ambiente de trabalho: 20,5% das mulheres

• Assédio em transporte público: 15,3% das mulheres

• Agarradas ou beijadas sem consentimento: 9% das mulheres

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