'Simulador de estupro', misoginia e incentivo a incesto: a polêmica por trás de No Mercy, jogo banido em três países
Jogo incentiva jogadores a serem “o pior pesadelo das mulheres” e “não aceitarem ‘não’ como resposta”; desenvolvedores retiraram game do ar após banimento na Austrália, Canadá e Reino Unido
O jogo No Mercy, que estava disponível na plataforma Steam, a maior de jogos online no mundo, foi retirado do ar pelos próprios desenvolvedores após acusações de incentivo ao estupro, incesto e violência sexual contra mulheres. A sinopse do jogo incentiva que o personagem principal “se torne o pesadelo de todas as mulheres” e “nunca aceitem ‘não’ como resposta” para se vingar de uma descoberta de traição da própria madrasta.
O jogo foi desenvolvido pela empresa Zerat Games e é um simulador 3D, e chegou a se definido como um "simulador de estupro". O jogo era recomendado para maiores de 18 anos por envolver conteúdos como nudez, chantagem, violência, incesto e "sexo não consensual e inevitável".
No Brasil, o jogo não chegou a ter grande repercussão, mas gerou uma onda de protestos em diversos países, chegando a ser banido na Austrália, Canadá e Reino Unido, e gerou forte repercussão em Portugal, onde movimentos de mulheres se manifestaram contra o teor do jogo, considerando-o nocivo por incentivar violência sexual contra mulheres.
Após a mobilização, a Zerat voluntariamente retirou o jogo do ar em 10 de abril, mas defendeu que "para muitas pessoas estas coisas possam ser nojentas mas, durante o sexo, as pessoas devem realmente fazer o que querem desde que não prejudiquem ninguém" e que "é apenas um jogo".
Em um comunicado disponibilizado na Steam, a Zerat defende que o jogo foi alvo de "informação falsa" e que "infelizmente, muitas pessoas confundem ficção com realidade". Também afirmou que, durante o desenvolvimento, foram tidas várias conversas com pessoas que testaram o jogo para conscientização de que o que está no jogo não deve ser reproduzido na realidade.
Pessoas que já compraram o jogo não perdem acesso a ele. Mesmo assim, alguns sites menores ainda estão disponibilizando o jogo. Além disso, vídeos em formatos gameplay estão, até o momento, disponíveis em outras redes sociais.
Para se ter ideia do alcance da Steam, no dia 13 de abril a plataforma registrou 24,7 milhões de usuários simultâneos em todo o mundo. Não é a primeira vez que a Steam tem um jogo que fomenta violência sexual de seu catálogo. Em 2019, foi retirado do ar o game Rape Day (Dia do Estupro, em português), em que jogadores tinham que "assediar, matar e violar mulheres" durante um apocalipse zumbi.
Entenda as controvérsias do jogo No Mercy, retirado do ar por 'ensinar estupro'
Lançado em março de 2025, No Mercy (Sem Misericórdia, em português) controlava um personagem homem que, depois de descobrir que a madrasta traiu ou pai, "escolhe entre caminhos de dominação ou amor, moldando a narrativa com decisões que levam a cenas explícitas de incesto e sexo via chantagens emocionais". Os desenvolvedores prometem uma experiência de "poder e fantasia" aos jogadores.
A sinopse disponibilizada para o jogo diz: “Aviso: essa não é uma história de amor tradicional. Depois de pegar a própria madrasta traindo o pai, você descobre a natureza da mulher, especialmente a dela. Mas ela não é uma dona de casa comum. Ela está escondendo um segredo obscuro que a está atormentando e que ela esconde há anos. Agora, é sua vez de descobri-lo, chantageá-la, expor tudo e se rebelar por sua família em seus próprios termos. Pegue ela!”
“Neste jogo, você se torna o pesadelo de todas as mulheres ou dá a elas a melhor experiência íntima que jamais terão. Seu objetivo é simples: não deixe nenhuma mulher sem sexo, já que isso é tudo que elas querem. Nunca aceite não como resposta”, continua a sinopse.
Antes de ser derrubado, No Mercy teve mais de 100 análises de jogadores e teve avaliações muito positivas, que elogiam animações, liberdade narrativa e visuais.
Países baniram jogo No Mercy antes de ser retirado do ar
Antes da retirada de No Mercy da Steam, Reino Unido, Canadá e Austrália baniram o jogo.
O secretário de tecnologia do Reino Unido, Peter Kyle, definiu No Mercy como "profundamente preocupante". "Esperamos que todas essas empresas [de tecnologia] removam o conteúdo o mais rápido possível após tomarem conhecimento dele. É o que a lei exige, é o que eu exijo como secretário de Estado e é certamente como esperamos que as plataformas que operam e têm o privilégio de acessar a sociedade e economia britânicas façam", afirmou ao LBC. A Secretária de Estado para Assuntos Internos Yvette Cooper afirmou que "esse tipo de material vil já é ilegal atualmente", mas que haverá um reforço no Legislativo, em que se discute um Ato de Segurança Online.
A empresa britânica Women in Games, que fomenta a inclusão de mulheres na indústria de videogames, afirmou que a disponibilização na Steam é "totalmente inaceitável". "Envia uma mensagem clara e angustiante: a de que violência contra mulheres não só é tolerável como pode ser jogada. Esta mensagem não tem lugar na nossa indústria, comunidades e na nossa sociedade", afirmou a CEO Marie-Claire Isaaman.
Em Portugal, o Ministério Público chegou a abrir um inquérito para investigar o jogo após uma denúncia formal do Movimento Democrático de Mulheres e a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero (CIG).
O grupo denunciou o jogo e pediu sua retirada ao Ministério Público por seu conteúdo Videojogo No Mercy sobre violações e incesto retirado da Steam “potencialmente enquadrável na propagação de discurso de ódio contra as mulheres, apologia da violência sexual e incitamento à prática de crimes sexuais". O movimento também pede responsabilização da Zerat Games.
Segundo informações do portal português Público, a queixa levada à Procuradoria-Geral da República também busca "salvaguardar os direitos fundamentais das mulheres" já que o enredo do jogo normaliza "práticas de ódio e discriminação que violam princípios constitucionais e legais fundamentais."
Zerat Games defende No Mercy, mas tira jogo do ar
Após as reações, a Zerat Games optou por retirar o jogo do ar. Antes disso, no entanto, realizou um extenso comunicado disponibilizado na aba de comunidade da Steam em que defende que o jogo foi alvo de "acusações falsas". O jogo afirma que foi alvo de perseguição por distorcer que pessoas que o baixaram seriam "doentes mentais que odeiam suas mães e mulheres em geral", mas que teve conversas de conscientização com pessoas que testaram o jogo antes do lançamento. "Eram pessoas normais."
A empresa também coloca incesto e estupro enquanto kinks. Ou seja, fetiches. "Incesto real é algo chocante e concordamos completamente com isso. Mas incesto é também um dos fetiches mais populares do mundo quando se trata de pornografia. [...] Se queremos criticar alguém por gostar de assistir essas cenas, acredito que estamos invadindo profundamente sua esfera sexual." Sobre estupro, a Zerat afirma que "ninguém quer que ninguém se machuque. Mas [o jogo] é fortemente conectado com extorsão e dominação masculina, que também são fetiches".
"Compreendemos completamente que para muitas pessoas essas coisas possam ser nojentas mas, durante o sexo, as pessoas devem realmente fazer o que querem desde que não prejudiquem ninguém. Se após lerem nosso comunicado continuarem a considerar que um jogo destes não devia ter sido criado, então pedimos desculpas. Ao mesmo tempo, gostaríamos que fossem um pouco mais abertos a fetiches humanos que não prejudicam ninguém, ainda que possam enojar você. Isso é apenas um jogo e, apesar de muitas pessoas quererem torná-lo algo mais, continua e continuará a ser um jogo", diz o comunicado oficial.









