Violência de Gênero
Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)

O jogo No Mercy, que estava disponível na plataforma Steam, a maior de jogos online no mundo, foi retirado do ar pelos próprios desenvolvedores após acusações de incentivo ao estupro, incesto e violência sexual contra mulheres. A sinopse do jogo incentiva que o personagem principal “se torne o pesadelo de todas as mulheres” e “nunca aceitem ‘não’ como resposta” para se vingar de uma descoberta de traição da própria madrasta.

O jogo foi desenvolvido pela empresa Zerat Games e é um simulador 3D, e chegou a se definido como um "simulador de estupro". O jogo era recomendado para maiores de 18 anos por envolver conteúdos como nudez, chantagem, violência, incesto e "sexo não consensual e inevitável".

No Brasil, o jogo não chegou a ter grande repercussão, mas gerou uma onda de protestos em diversos países, chegando a ser banido na Austrália, Canadá e Reino Unido, e gerou forte repercussão em Portugal, onde movimentos de mulheres se manifestaram contra o teor do jogo, considerando-o nocivo por incentivar violência sexual contra mulheres.

Após a mobilização, a Zerat voluntariamente retirou o jogo do ar em 10 de abril, mas defendeu que "para muitas pessoas estas coisas possam ser nojentas mas, durante o sexo, as pessoas devem realmente fazer o que querem desde que não prejudiquem ninguém" e que "é apenas um jogo".

Em um comunicado disponibilizado na Steam, a Zerat defende que o jogo foi alvo de "informação falsa" e que "infelizmente, muitas pessoas confundem ficção com realidade". Também afirmou que, durante o desenvolvimento, foram tidas várias conversas com pessoas que testaram o jogo para conscientização de que o que está no jogo não deve ser reproduzido na realidade.

Pessoas que já compraram o jogo não perdem acesso a ele. Mesmo assim, alguns sites menores ainda estão disponibilizando o jogo. Além disso, vídeos em formatos gameplay estão, até o momento, disponíveis em outras redes sociais.

Para se ter ideia do alcance da Steam, no dia 13 de abril a plataforma registrou 24,7 milhões de usuários simultâneos em todo o mundo. Não é a primeira vez que a Steam tem um jogo que fomenta violência sexual de seu catálogo. Em 2019, foi retirado do ar o game Rape Day (Dia do Estupro, em português), em que jogadores tinham que "assediar, matar e violar mulheres" durante um apocalipse zumbi.

Entenda as controvérsias do jogo No Mercy, retirado do ar por 'ensinar estupro'

Sinopse do jogo No Mercy incentivava a "nunca aceitar um 'não' como resposta" de mulheres — Foto: Divulgação
Sinopse do jogo No Mercy incentivava a "nunca aceitar um 'não' como resposta" de mulheres — Foto: Divulgação

Lançado em março de 2025, No Mercy (Sem Misericórdia, em português) controlava um personagem homem que, depois de descobrir que a madrasta traiu ou pai, "escolhe entre caminhos de dominação ou amor, moldando a narrativa com decisões que levam a cenas explícitas de incesto e sexo via chantagens emocionais". Os desenvolvedores prometem uma experiência de "poder e fantasia" aos jogadores.

A sinopse disponibilizada para o jogo diz: “Aviso: essa não é uma história de amor tradicional. Depois de pegar a própria madrasta traindo o pai, você descobre a natureza da mulher, especialmente a dela. Mas ela não é uma dona de casa comum. Ela está escondendo um segredo obscuro que a está atormentando e que ela esconde há anos. Agora, é sua vez de descobri-lo, chantageá-la, expor tudo e se rebelar por sua família em seus próprios termos. Pegue ela!”

“Neste jogo, você se torna o pesadelo de todas as mulheres ou dá a elas a melhor experiência íntima que jamais terão. Seu objetivo é simples: não deixe nenhuma mulher sem sexo, já que isso é tudo que elas querem. Nunca aceite não como resposta”, continua a sinopse.

Antes de ser derrubado, No Mercy teve mais de 100 análises de jogadores e teve avaliações muito positivas, que elogiam animações, liberdade narrativa e visuais.

Países baniram jogo No Mercy antes de ser retirado do ar

No Mercy foi banido no Canadá, Austrália e Reino Unido antes de ser retirado do ar — Foto: Reprodução
No Mercy foi banido no Canadá, Austrália e Reino Unido antes de ser retirado do ar — Foto: Reprodução

Antes da retirada de No Mercy da Steam, Reino Unido, Canadá e Austrália baniram o jogo.

O secretário de tecnologia do Reino Unido, Peter Kyle, definiu No Mercy como "profundamente preocupante". "Esperamos que todas essas empresas [de tecnologia] removam o conteúdo o mais rápido possível após tomarem conhecimento dele. É o que a lei exige, é o que eu exijo como secretário de Estado e é certamente como esperamos que as plataformas que operam e têm o privilégio de acessar a sociedade e economia britânicas façam", afirmou ao LBC. A Secretária de Estado para Assuntos Internos Yvette Cooper afirmou que "esse tipo de material vil já é ilegal atualmente", mas que haverá um reforço no Legislativo, em que se discute um Ato de Segurança Online.

A empresa britânica Women in Games, que fomenta a inclusão de mulheres na indústria de videogames, afirmou que a disponibilização na Steam é "totalmente inaceitável". "Envia uma mensagem clara e angustiante: a de que violência contra mulheres não só é tolerável como pode ser jogada. Esta mensagem não tem lugar na nossa indústria, comunidades e na nossa sociedade", afirmou a CEO Marie-Claire Isaaman.

Em Portugal, o Ministério Público chegou a abrir um inquérito para investigar o jogo após uma denúncia formal do Movimento Democrático de Mulheres e a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero (CIG).

O grupo denunciou o jogo e pediu sua retirada ao Ministério Público por seu conteúdo Videojogo No Mercy sobre violações e incesto retirado da Steam “potencialmente enquadrável na propagação de discurso de ódio contra as mulheres, apologia da violência sexual e incitamento à prática de crimes sexuais". O movimento também pede responsabilização da Zerat Games.

Segundo informações do portal português Público, a queixa levada à Procuradoria-Geral da República também busca "salvaguardar os direitos fundamentais das mulheres" já que o enredo do jogo normaliza "práticas de ódio e discriminação que violam princípios constitucionais e legais fundamentais."

Zerat Games defende No Mercy, mas tira jogo do ar

Após as reações, a Zerat Games optou por retirar o jogo do ar. Antes disso, no entanto, realizou um extenso comunicado disponibilizado na aba de comunidade da Steam em que defende que o jogo foi alvo de "acusações falsas". O jogo afirma que foi alvo de perseguição por distorcer que pessoas que o baixaram seriam "doentes mentais que odeiam suas mães e mulheres em geral", mas que teve conversas de conscientização com pessoas que testaram o jogo antes do lançamento. "Eram pessoas normais."

A empresa também coloca incesto e estupro enquanto kinks. Ou seja, fetiches. "Incesto real é algo chocante e concordamos completamente com isso. Mas incesto é também um dos fetiches mais populares do mundo quando se trata de pornografia. [...] Se queremos criticar alguém por gostar de assistir essas cenas, acredito que estamos invadindo profundamente sua esfera sexual." Sobre estupro, a Zerat afirma que "ninguém quer que ninguém se machuque. Mas [o jogo] é fortemente conectado com extorsão e dominação masculina, que também são fetiches".

"Compreendemos completamente que para muitas pessoas essas coisas possam ser nojentas mas, durante o sexo, as pessoas devem realmente fazer o que querem desde que não prejudiquem ninguém. Se após lerem nosso comunicado continuarem a considerar que um jogo destes não devia ter sido criado, então pedimos desculpas. Ao mesmo tempo, gostaríamos que fossem um pouco mais abertos a fetiches humanos que não prejudicam ninguém, ainda que possam enojar você. Isso é apenas um jogo e, apesar de muitas pessoas quererem torná-lo algo mais, continua e continuará a ser um jogo", diz o comunicado oficial.

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