Violência de Gênero

Por redação Marie Claire — de São Paulo (SP)

A norte-americana Karen Palmer foi até o limite pare escapar de seu ex-marido abusivo. Em entrevista ao The Guardian, ela conta como "desapareceu" com seu novo companheiro e suas duas filhas pequenas, mudando a identidade de todos.

"Tenho uma lembrança muito nítida do dia em que saímos de Los Angeles", diz Palmer. "Foi uma estranha mistura de medo e euforia, coração acelerado, dirigindo rumo ao desconhecido." Ela estava fugindo de seu ex-marido, Gil, o homem a quem temia e pai de suas duas filhas, Erin e Amy, então com 7 e 3 anos.

No verão de 1989, Karen Palmer adquiriu um carro usado pagando à vista, colocou dentro dele seus pertences, como algumas roupas, brinquedo e uma frigideira, e partiu, “sumindo” junto com o novo marido e as duas filhas pequenas. Não disse à mãe, aos amigos nem aos vizinhos qual seria seu destino. Tampouco avisou os empregadores ou o dono do imóvel onde morava, deixando alguns objetos na varanda do apartamento para dar a impressão de que ainda residia ali.

Eles seguiram para o Colorado, ao pé das Montanhas Rochosas. "Sempre morei no litoral, pois gostava de estar perto do oceano. Ele não esperaria que eu fosse para o interior", explica.

Karen fugiu com as duas filhas para longe do progenitor — Foto: Divulgação
Karen fugiu com as duas filhas para longe do progenitor — Foto: Divulgação

A família não tinha documentos de identidade, referências ou qualquer papel que os ligasse à sua identidade. Nas semanas seguintes, mudaram de nome, falsificaram documentos, encontraram empregos, uma casa e uma escola para as meninas. Palmer chamou isso de "proteção de testemunhas improvisada".

O plano funcionou e Gil nunca os encontrou. Ela manteve contato com amigos e familiares por telefone para que soubessem que estavam seguros, mas não contou a eles (nem mesmo à mãe) onde estava, para que não soubessem caso o ex aparecesse exigindo informações.

O relacionamento marcado por abuso

Durante o relacionamento com Gil, Palmer não conhecia termos como violência doméstica, controle coercitivo ou gaslighting -- hoje ela reconhece que era isso que vivia. A norte-americana afirma que, há 35 anos, esse tipo de abuso não era levado a sério pelas autoridades nem havia vocabulário para descrevê-lo. Nunca procurou um abrigo e não conhecia outras vítimas, o que aumentou seu isolamento.

Palmer estava em um momento de grande vulnerabilidade quando conheceu Gil. Filha única adotada, cresceu em um lar marcado pelo alcoolismo do pai e por um casamento infeliz. Aos 16 anos, engravidou e deu o bebê para adoção, uma experiência que descreve como "dolorosa".

Karen Palmer no dia do seu casamento com Gil, em maio de 1980 — Foto: Divulgação
Karen Palmer no dia do seu casamento com Gil, em maio de 1980 — Foto: Divulgação

Abalada emocionalmente, voltou à faculdade e passou a trabalhar meio período, onde conheceu Gil, seu chefe, 20 anos mais velho, pai de três filhos e em processo de divórcio. Enlutada pela "perda" do filho e pela doença terminal do pai, ela viu no relacionamento com um homem mais velho uma forma de estabilidade, apesar da resistência inicial da mãe.

O casamento durou 14 anos e, apesar de aparente normalidade na criação das duas filhas, foi marcado por controle constante e intimidação. Gil raramente era violento, mas mantinha Palmer isolada, sob rígidos limites e em permanente estado de tensão, com episódios extremos de medo, como quando apontou uma arma para sua barriga grávida ou a trancou em um armário enquanto levava as crianças para passar o dia fora. Ao deixá-lo e iniciar um relacionamento com Vinnie, Palmer acreditou que o divórcio seria difícil, porém administrável -- mas a reação de Gil foi o oposto.

O momento que mudou tudo

Após a separação, Gil entrou em colapso, agravou o abuso de álcool e passou a perseguir Palmer por dois anos com ameaças de morte. A polícia e os advogados minimizaram a gravidade da situação, deixando Palmer exausta e sem apoio.

Foi um sequestro que finalmente a fez fugir. A guarda e o direito de visita ainda não haviam sido definidos quando Gil tirou a filha mais nova dos braços de Palmer e saiu apressadamente. Ele desapareceu, viajou 96 quilômetros, tingiu o cabelo loiro da criança de castanho e cortou-o bem curto para disfarçá-la de menino. Palmer e Vinnie mobilizaram buscas, e ela conseguiu a guarda emergencial das crianças, além de um mandado de prisão contra Gil.

Após 10 dias, o homem ligou e concordou em devolver a filha se Palmer prometesse deixar Vinnie. Ela concordou. A entrega ocorreu na noite seguinte, em uma esquina de São Francisco. "Sem policiais", ele havia avisado. Já ao amanhecer, Palmer fugiu com seu companheiro e as crianças.

Palmer escreveu um livro sobre a sua história — Foto: Philip Cheung/The Guardian
Palmer escreveu um livro sobre a sua história — Foto: Philip Cheung/The Guardian

Gil morreu em 2008 – Palmer só descobriu isso anos depois. Ele passou seus últimos anos entrando e saindo da prisão por porte ilegal de armas, abuso crônico de substâncias, agressão e resistência à prisão. No fim, ele estava morando em uma barraca em um parque da cidade. "Não sinto mais raiva dele. Sinto raiva por termos tido que passar por isso, mas sinto pena dele por ter arruinado a própria vida e por tudo ter sido tão desnecessário."

Resolver legalmente suas verdadeiras identidades após saberem da morte de Gil foi um processo longo e complicado. Palmer e Vinnie agora moram de volta em Los Angeles. Erin e Amy moram em outros estados, mas são muito unidas -- Vinnie as adotou oficialmente, a pedido delas, quando tinham 20 e 25 anos. "Ele é, sem dúvida, o amor da minha vida", diz Palmer. "Foi um romance à moda antiga. Nada poderia nos separar depois disso."

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