Márcia Lopes, no comando do Ministério das Mulheres: “Acordo e penso: tomara que hoje não haja feminicídio”
Márcia Lopes, ministra das Mulheres, fala sobre o papel do Estado no combate à violência e o peso de ouvir, todos os dias, histórias que terminam em morte
Assistente social e professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina, Márcia Lopes foi conselheira, secretária municipal e vereadora. Nos anos 2000, trabalhou no governo Lula na implantação do SUAS e em políticas de combate à fome. “Quando assumi o Ministério [em 2025], disse ao presidente: política para mulheres é transversal e precisa de compromisso real de todos os ministérios.”
Desde que a senhora assumiu o Ministério das Mulheres, os números de feminicídio pioraram. Como lê esse cenário?
Um conjunto de fatores agravou a situação. Tivemos anos de interrupção de políticas públicas e de estímulo à violência. O incentivo ao armamento, a desarticulação federativa, a pandemia. Tudo isso impactou a sociedade. Houve um adoecimento coletivo. Além disso, o desmonte de espaços de participação das mulheres enfraqueceu a rede. Agora estamos reconstruindo.
O que de concreto está sendo feito para enfrentar o feminicídio?
Trabalhamos em duas frentes. Uma é estrutural: estamos construindo o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres e um sistema nacional que articule União, estados e municípios. Não dá para depender de ações pontuais. A outra é o fortalecimento da rede de proteção. O Ligue 180, por exemplo, recebe cerca de 3 mil atendimentos por dia e 425 denúncias de violência. Estamos ampliando as Casas da Mulher Brasileira e centros de referência. Entre 2023 e agora, o investimento federal nessas estruturas passou de menos de R$ 50 milhões para mais de R$ 300 milhões. Também avançamos na implementação da lei de igualdade salarial e no estímulo à autonomia econômica das mulheres, porque renda e autonomia reduzem a vulnerabilidade à violência.
A senhora costuma dizer que a conversa precisa ser com os homens. Por quê?
Porque não são as mulheres que se agridem. Precisamos educar meninos e homens. O Ministério da Educação está regulamentando a lei Maria da Penha vai à Escola. Vamos firmar um protocolo com universidades para prevenção de violência de gênero nos campi. Isso não se resolve de um dia para o outro. É uma mudança de mentalidade que leva décadas. Mas precisa começar agora.
Como é lidar diariamente com histórias tão duras?
Muito difícil. Acordo e penso: “Tomara que hoje não haja ne- nhum feminicídio”. Mas quase sempre há. Tento separar trabalho e vida pessoal, mas ainda assim me emociono. Tenho netas e netos. Conversamos muito sobre isso em família. Carregamos essas histórias.
O ministério tem investido também em campanhas públicas?
Sim. Levamos informação a rodoviárias, festas populares, eventos esportivos. Também estamos dialogando com a CBF para que campanhas contra a violência apareçam nos estádios. A cultura e a comunicação são essenciais.
A senhora conheceu Maria da Penha?
Conheço e admiro profundamente. Ela continua ativa aos 80 anos. Sua coragem mudou a história do país. E ainda hoje ela sofre hostilidade de homens que a culpam por suas separações. Isso mostra o quanto o problema é estrutural.
Depois de tudo isso, o que a move?
Tenho um apelido: “doida demais”. Porque cobro resultados, não gosto de esperar. Acho que a vida pública precisa entregar. A burocracia não pode impedir que a política chegue a quem precisa. E sigo com energia porque gosto do que faço.









