Como a escalada na violência contra a mulher impacta a sua saúde mental: ‘A identificação é inevitável’
O consumo intenso de informações pode gerar ansiedade e outros transtornos. Entenda os sintomas e como aliviá-los
O ano de 2026 começou com mais de 1.500 mulheres a menos. Em números exatos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, foram registrados 1.568 assassinatos por motivos de gênero no Brasil. O sentimento de angústia e insegurança é generalizado. “No final das contas, você sabe que poderia ser você e que, em algum momento, ainda pode”, diz a psicóloga Núbia Lima.
Como manter a saúde mental diante desse cenário?
O corpo responde às notícias, mesmo que de forma inconsciente. A exposição constante ao risco de violência, direta ou indireta, gera tensão física pela liberação de cortisol, o hormônio do estresse. A hipervigilância e a ansiedade são comuns e frequentes.
Karoline Oliveira, psicóloga clínica, diz: “Às vezes, situações que não pareciam oferecer risco antes passam a gerar preocupação. É um mecanismo de autoproteção. Então, uma lista de alertas [passa a fazer parte do seu cotidiano]: se você sair na rua, pode ser que passe por isso; se estiver no trabalho, aquilo pode ser uma questão; se ficar em casa com homens, pode ser que aconteça com você".
Cada vez mais fotos, vídeos e manchetes sobre violência contra a mulher tomam conta do noticiário e das timelines. De acordo com o painel Estatísticas do Poder Judiciário, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) , em 2025 foi registrado um aumento de 17% nos julgamentos para o crime de feminicídio, somando mais de 15,4 mil decisões. O cenário segue preocupante. Em janeiro último, ingressaram 947 novos casos, número 3,49% superior ao ano anterior, que contabilizou 915. E, com o aumento das ocorrências, também cresce a cobertura sobre o assunto.
Toda mulher já deixou de viver determinadas experiências por medo. E, como os dados mostram, não é algo subjetivo. Medo de dizer, de transitar, de existir. “Talvez esse seja o sentimento mais presente desde que chegamos ao mundo. Vamos crescendo com medo da vida”, reforça Lima.
A dessensibilização frente à enxurrada de conteúdos também é um desdobramento. O cérebro busca uma forma de normalizar as violências, na tentativa de se adaptar ao contexto. “A identidade da pessoa pode se tornar ansiosa, afetando as próprias relações sociais, seja na repetição de padrões violentos consigo mesma e outras pessoas ou pela exaustão crônica", Retoma Oliveira.
Soma-se à carga mental
A saúde emocional feminina é atravessada por diversos fatores ligados exclusivamente ao gênero. A sobrecarga com tarefas de cuidado é um fator generalizado: 57% das mulheres entre 36 e 55 anos são responsáveis por cuidar de alguém e, entre estas, 1 em cada 4 está insatisfeita ou extremamente insatisfeita com sua saúde emocional. Os dados são do levantamento Esgotadas: o empobrecimento, sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres (2023), realizado com 1078 mulheres de todas as classes e regiões do Brasil, pelo Lab Think Olga.
Entre as entrevistadas, 16%, uma em cada seis, apontam o medo recorrente de serem vítimas de violência como um elemento que afeta diretamente seu bem-estar psicológico. Sobre tudo isso, a sobrecarga entre funções de cuidado, vida financeira e desvantagens sociais entram em cheque. “É um trauma coletivo. Quando pessoas com as mesmas características físicas, pessoais, sociais, que você estão sendo mortas, a identificação é inevitável", diz Oliveira.
Sim, o acesso à informação é importante. É por meio disso que vem a possibilidade de compreender a vida social e também cobrar direitos. Porém, é imprescindível observar os hábitos de consumo e como eles afetam seu dia a dia. “Mesmo que sinta que não tem lá grandes questões, a psicoterapia pode ser um espaço para construir sentido e para manter a esperança na vida no meio de tudo isso", comenta Lima.
Um estilo de vida equilibrado, preencher o tempo com coisas que dão prazer e conversar com amigas também ajudam a mitigar os efeitos. Uma rede de apoio é essencial nesses momentos. Sobre os meios de consumo, ponderar a qualidade e a quantidade pode ser interessante.
“Definir horários para consumir informação já faz diferença. Também é importante priorizar fontes confiáveis, conteúdos que apontem caminhos e possíveis soluções. Porque, sim, existe um problema, mas há pessoas pensando em como enfrentá-lo. Se o detox digital não for viável, vale buscar esse equilíbrio com perspectivas que sejam, de certa forma, mais positivas”, diz Oliveira.
Ainda segundo o relatório do Lab Think Olga, mulheres dedicam o dobro do tempo a tarefas domésticas quando comparadas aos homens. Lima ressalta, “no final do dia, a sensação muitas vezes é de você ter passado o dia tentando sobreviver, e as tarefas ainda nem acabaram. Isso também é violência".
Diferentes dimensões
Nas redes sociais, a misoginia e a violência são amplificadas. Ali, não existem apenas manchetes, mas também posicionamentos e grupos de ódio que adotam discursos altamente nocivos à saúde mental — já ouviu falar dos red pills?
A re-traumatização é constante. “Você está ali passando seu feed e se depara com um gatilho ou até mesmo é interrompida por um ato de violência de um homem contra você ou a sua imagem", comenta Oliveira.
Existem diferenças entre gatilhos e sintomas por hiper-exposição. Não é sobre sofrer mais ou menos, mas o ponto de vista da experiência. “Mulheres que já sofreram algum tipo de agressão tem a questão do transtorno de estresse pós-traumático, e normalmente têm flashbacks. Outras pessoas podem ter mais pensamentos de preocupação, ruminando as informações ou entrando num ciclo obsessivo, buscando muito sobre o assunto", continua a psicóloga.
O atendimento psicológico particular pode não ser uma realidade para todas. No entanto, em março de 2026, o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a oferecer teleatendimento para cuidar da saúde mental das mulheres e outros serviços, como reconstrução dentária para as vítimas de agressão e atendimento humanizado. A medida faz parte do Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio (2026), divulgado em fevereiro.
As capitais Recife e Rio de Janeiro foram as primeiras a oferecer o atendimento on-line em saúde mental, que está sendo ampliado gradualmente. E, em maio, o serviço chegará às cidades com mais de 150 mil habitantes para que, em junho, seja implementado em todo o país.









