Caso 'pôs-se a jeito': emissora de Portugal pode ser multada em R$ 900 mil após fala de apresentadora sobre feminicídio
Caso gerou grande repercussão em Portugal; órgão regulador confirmou que frase transferiu a culpa da morte para a própria vítima
A declaração de uma apresentadora de televisão de Portugal pode render uma multa de até R$ 900 mil para a emissora de televisão TVI. A fala gerou grande repercussão no país e ficou conhecido como o caso "pôs-se a jeito".
Em 2 de junho de 2025, Cristina Ferreira comentava um caso de feminicídio durante o programa Crónica Criminal. Na ocasião, ela usou a expressão "pôs-se a jeito" ao falar do comportamento da vítima. Na língua local, a expressão é usada para se referir ao indivíduo que se expõe a uma situação de risco.
"Nós temos mesmo que avisar as pessoas de que hoje em dia é muito complicado, mesmo relações que podem ter sido de amor do que quer que seja, quando já entram aqui nesta fase de perseguição, de algum controlo, é preciso a polícia estar avisada, os familiares estarem avisados e não… Porque eu não sei se esta mulher, depois do baile, entrou num carro com ele e aí, se calhar, é que se pôs a jeito para que isto acontecesse”, disse a apresentadora.
Na época, instituições feministas e dos direitos humanos reprovaram a fala da apresentadora. Após a denúncia formal, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), órgão que avalia a exibição em televisão aberta, considerou a denúncia procedente.
A ERC considerou que as declarações de Cristina Ferreira “transferem a responsabilidade do sucedido para a(s) vítima(s), sugerindo que a decisão da mulher de acompanhar o alegado homicida foi o fator determinante para o desfecho. Simultaneamente, o agressor é desresponsabilizado, já que a morte se terá dado com base naquela decisão da mulher.”
Na mesma denúncia, o programa é acusado de exibir imagens impróprias de uma mulher esfaqueada. Pelas regras portuguesas, esse tipo de imagem não pode ser veiculada pela manhã, horário em que crianças assistem ao noticiário.
Emissora e apresentadora negam irregularidades
No curso do processo, tanto a TVI como Cristina Ferreira negaram qualquer erro em suas falas. “O diretor de programas da TVI, notificado para se pronunciar sobre as participações, sustenta que ‘a esmagadora maioria das queixas faz uma errada e descontextualizada apreciação das palavras da apresentadora e do que esta quis afirmar com a expressão utilizada, conferindo-lhe um significado abusivo e preconceituoso que nunca esteve presente, nem subjacente, no efetivo discurso proferido’”, referiu o documento da ERC.
Já Cristina Ferreira declarou publicamentec que “os comentários feitos em direto pelos intervenientes do programa são devidamente contextualizados, justificados nas individuais perspetivas pelos concretos contornos da história, são absolutamente complementares e respeitam integralmente os limites legais, sendo absolutamente falso e até vexatório que deles se consiga retirar a interpretação expendida nas participações”.









